A menina dos cachinhos de ébano, por Laís Napoli


Colagem digital feita por Filipo Brazilliano

Todo dia Ariana se sentava à beira da janela empoeirada e admirava a menina com os belos cachinhos de ébano sair de casa e ir brincar no jardim colorido. Todo dia, às 10h, a jovem pegava sua boneca, proferia palavras doces para a mãe — sempre na cozinha — e corria para entreter-se em meio ao corredor de girassóis, delfínios, astromélias e camélias.


A beleza daquela cena impunha à Ariana uma rotina como espectadora. Desse modo, conseguia esquecer-se dos cômodos sem espelhos, móveis poeirentos e brigas sussurradas, porém intermináveis, entre os próprios pais. O silêncio regia a família da casa mais bonita da vizinhança.


— Ariana, saia da janela. Vá se fazer útil, menina.


O pedido da mãe, uma mulher alta e impecavelmente bem vestida de branco-gelo, também era recorrente na rotina de Ariana. Sempre em tom manso com uma pitada de urgência.


— Claro, mamãe. Já vou — respondia, eternamente encarando o além da janela.


De forma harmônica, esse também era sempre o momento em que a menina dos cachinhos de ébano respondia alguma dúvida de sua mãe e, em seguida, voltava a se divertir no meio do carrossel de cores.


Então, os minutos se transformavam em horas, e o incandescente sol começava a dar espaço para sua irmã lua. A vizinha mantinha sua posição, inabalável nos braços do jardim.


— Ariana, querida, em breve seu pai já chega. E sabe como ele fica quando você passa o dia inteiro na janela.


Um barulho de porta batendo e as duas compreendiam quem regressara. Todo dia, às 18h26 em ponto, o pai de Ariana retornava do escritório em que trabalhava. Assim como o pai da menina dos cachinhos de ébano, que provavelmente também havia optado por um cargo CLT em algum lugar próximo.


Antes de se afastar da janela, Ariana admirava o beijo carinhoso que a vizinha recebia e como ela sempre acompanhava o homem para dentro de casa. Depois disso, só voltaria para o lado de fora no dia seguinte, quando fosse, novamente, divertir-se com a boneca e o jardim.


— Então aí estão vocês duas, suas filhas da puta. O jantar não está pronto e tudo continua sujo. — Ele apresentava a feição cansada, cheiro forte de suor e o mascar constante de tabaco para aliviar a tensão. Tudo acompanhado do mesmo tom de voz baixo para não incomodar os vizinhos.

— Bem-vindo de volta, querido! O jantar já está quase pronto. Ariana estava vindo me ajudar nesse momento, para que você possa descansar depois de um dia tão cheio no trabalho. — A mãe de Ariana levantou-se, já oferecendo ao marido um beijo e a cerveja que ela sempre carregava consigo a partir das 18h25. Enquanto isso, a menina apenas observava a cena, impassível. — Vamos, Ariana?

— Passei o dia me divertindo, papai. Posso te contar como foi?

— Se divertindo? Na sua idade eu já trabalhava, sua imprestável. Você deveria estar ajudando a sua mãe, isso sim.

— Ouvi dizer que crianças devem se preocupar apenas em estudar e brincar, papai.

— Não nesta casa. Levanta, sua vagabunda!


E, então, a rotina se perpetuava mais uma vez conforme o homem levantava a voz e as mãos para Ariana. Conforme a mulher tentava manter a calma, colocava-se em frente à filha e observava o marido retirando o cinto. Conforme ele exalava cheiro de cerveja e afastava aquela a quem chamava de vagabunda imprestável para, em seguida, puxar a criança pelos cabelos e a soltar perto da escada. E, no intuito de fugir da rotina, Ariana corria para o andar de baixo e terminava por se desequilibrar e alcançar os últimos degraus rolando.


Depois disso, o silêncio voltava. E ela sabia que seus pais haviam feito as pazes e que sua mãe a colocaria para dormir, como sempre fazia.


E, então, no dia seguinte Ariana acordava, prendia o volumoso cabelo cacheado e se sentava na janela para observar a vizinha.


Conheça Laís Napoli


Laís Napoli começou a sonhar com mundos extraordinários aos oito anos de idade. Desde então, suas horas vagas são destinadas a criar personagens cativantes, diálogos emocionantes e terras mágicas. Pisciana de carteirinha, tem o lado capricorniano para balancear seus devaneios. Em 2021, lançou seu primeiro romance de fantasia épica, o volume inicial da saga "Peregrinas de Calmaria e Tormenta: As crônicas seculares". Nascida em 1994, no Rio de Janeiro, hoje mora com seu marido e filho de quatro patas, Aslam, ainda na cidade que sempre foi seu lar. É formada em Jornalismo e possui pós-graduação em Comunicação Digital.


Em breve a resenha de "As Crônicas Seculares: Peregrinas de Calmaria e Tormenta" será lançada aqui, junto com a entrevista completa da autora.

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