A narrativa por detrás da minissérie O Gambito da Rainha

Atualizado: Mai 13

Texto por: Maria Moreschi


O Gambito da Rainha é a mais recente aposta da Netflix para o seu nicho de espectadores exigentes no que tange a narrativa e a técnica. Essa minissérie, foi pensada para ser refinada, mas ao mesmo tempo alcançar todos os tipos de públicos. Receita desejada e buscada pela maioria dos criadores audiovisuais. Dessa forma, a obra está cogitada para concorrer as próximas premiações cinematográficas como o Emmy, na categorias programas de televisão e séries de TV.



A premissa do filme é clara “como lidar com a pressão da genialidade?”

Criando O Gambito da Rainha


Enredo > trama > conflito


Seguimos a história de Beth Harmon, uma jovem órfã, interpretada na fase infantil pela atriz Isla Johnson e na fase adulta por Anya Taylor-Joy- que tem de viver em um orfanato feminino após a morte da mãe, figura que a assombra frequentemente. E essa é a base do restante dos conflitos desencadeado no enredo da minissérie. Logo em seguida, sem um apoio emocional, descobre-se genialmente ligada ao mundo do xadrez. Um desporto intelectual apresentado pelo senhor Shaibel, um zelador do orfanato que pratica o jogo em seus horários de descanso. Paralelamente, para acalmar seus ânimos quanto aos resultados dos embates com o zelador, acaba por criar uma dependência a calmantes ainda criança. Esses três fatos perduram e são a sustentação que movimentam as causalidades da narrativa. Essas são costuradas entre si na narrativa de forma a criar a emoção necessária ao fundo temático, a pressão da genialidade na vivência do mundo do xadrez.

Em primeiro análise, os calmantes foram um processo interno bastante comum nas instituições de acolhimento a órfãos nos Estados Unidos, com a prerrogativa de controlar o grande número de crianças sob a custódia dessas instituições, na precisa década quando se passa a minissérie, entre 1950 e 1960. Lá acaba fazendo uma grande amizade, Jolene - interpretada por Moses Ingram, que é a única órfã com quem Beth cria um laço emocional além de Shaibel. Esses dois personagens apresentados no início da trama tornam-se ausentes depois do segundo episódio, mas são importantíssimos no desenvolvimento psico-emocional da personagem. Principalmente em relação ao conflito da dependência das drogas, solucionados nos últimos episódios.

Sequencialmente, do segundo capítulo em diante, nos é apresentado com mais profundidade o fundo temático do filme, o xadrez. A tal genialidade de Beth expressa-se pela sua curiosidade, interesse e talento na complexa organização matemática que constituí um jogo de xadrez, mas não só isso. O peso da escolha desse jogo é bastante inteligente. A metáfora da obsessão de Beth pelo controle sobre um jogo pautado sobre regras concretas e imutáveis torna-se combustível para o seu conflito pessoal, que é a cobrança pessoal e ao mesmo tempo o descontrole sobre as tragédias da sua vida, a qual ela sempre sai perdendo no âmbito afetivo de todos os níveis, parental e romântico. Porém, a escolha do xadrez torna-se um desafio aos realizadores. Já que são jogos bastante pacatos, diferente de um jogo de futebol, por exemplo. Uma partida pode demorar horas a fio e uma jogada pode ser pensada durante 30 min facilmente. Para resolver esse problema os desenvolvedores Scott Frank e Allan Scott utilizaram-se de dois artifícios:


O primeiro deles é a montagem alternada, um tipo de escolha da direção na pós produção do filme, mas que, entretanto, torna-se parte da construção narrativa a partir do momento em que escolhe-se narrar acontecimentos paralelos. Essa opção da narrativa refletida na montagem opta por sincronizar (as imagens de forma estilística) dois acontecimentos da trama, como por exemplo, ambas as partidas dos enxadristas Beth Harmon e Benny Watts, que procuram como objetivo vencer todos os seus oponentes e enfrentarem-se no final do mesmo campeonato.


O outro artificio é a escolha da secundarização do plot em detrimento do aprofundamento da psicologia da personagem principal de forma não linear, ou seja, com frequentes flashbacks narrativos, aproximando-nos intimamente dos seus genuínos conflitos. Desse modo, não nos importamos ou sentimos falta da rápida conclusão das fases da jornada do herói (um pensamento normal para as estruturas das narrativas convencionais, para manter o engajamento e criar interesse do público). No entanto, o interesse não se perde nesse caso. A escolha de aprofundarmos as razões que levaram Beth ao colapso nos comove, tanto pela associação clara e delicada do abandono, quanto pela solidão de uma mulher inteligente, que luta pelo seu espaço em um tempo desfavorável à sua presença feminina no mundo do desporto intelectual.


E você o que acharam da minissérie? Conte para gente.

Vejo vocês na próxima.

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