A Noiva

Atualizado: Mai 14




Mark Phillips admirava a forma como a sua respiração conseguia, de segundo em segundo, embaçar o vidro. Isso lembrava a forma como a sua própria vida conseguiu, de um minuto ao outro ficar embaçada, assim como o mundo que ele via correndo do lado de fora.

Era um dia frio em Union Hills, uma cidade que conseguia ser implacável de todas as maneiras que uma mente criativa conseguia imaginar. No verão, poucos eram aqueles que conseguiam sobreviver sem o Sopro de Deus, que era como Mark costumava chamar o tal do ar condicionado. Já durante o inverno, nem as roupas mais pesadas conseguiam aquecer um corpo humano.

O crepitar lento e agradável da lareira, não muito longe da mesa em que ele estava, possuía, além do calor, uma aura confortável, boa o suficiente para que, em harmonia com o movimento monótono das pessoas andando na calçada, fazê-lo sentir um sono macio, reconfortante, como o abraço quente de uma mãe. E isso melhorava ainda mais ao saber que, no esticar de um braço, alcançaria a recém colocada xícara de café, trazida por uma garçonete simpática, mas que parecia, assim como ele, estar tendo um daqueles dias.

Mark deu uma olhada em volta. Um senhor, sentado na mesa a frente da dele, segurava um jornal na altura do rosto. Parecia ler com com desinteresse. Mark conseguiu ver, pois estava bem próximo, que a data do jornal era de uma semana atrás. Isso explicava a falta de motivação ao ler aquelas linhas apertadas e letras pequenas.

A garçonete voltou com o bule de café, perguntando se ele queria mais um pouco. Ele acenou e levantou a xícara, ouvindo o som do líquido de Deus caindo na cerâmica. Deu um gole. Estava forte. Maravilha.

Porque a desgraçada não ligou? Só bastava uma ligação. Ele pensou, mas logo em seguida, ignorou o pensamento. Havia prometido que não iria, de forma alguma, ficar racionalizando as atitudes dos outros. Todo mundo, como ele mesmo havia pensado, era um universo particular, cheios de desejos, sonhos, pecados, gostos, medos, e mais uma infinidade de sentimentos elevados ao infinito que guiavam e justificavam cada nuance de suas próprias decisões.

Mas aposto que uma ligaçãozinha não faria o braço dela cair. Ele tornou a pensar, e censurou-se logo em seguida. Alcançou a xícara de café, ainda olhando para fora, e tomou mais um gole, e como estava distraído, deixou cair um pouco no paletó alugado, gerando assim uma flor marrom no tecido — caro — branco.

E ainda me faz andar por aí como um boneco de neve. E isso era verdade. Foi só com muita discussão, dor de cabeça, e algumas doses de conhaque que ela conseguiu, enfim, convence-lo a usar a porra de um terno branco para o grande dia.

— Mas ninguém usa terno branco, amor. Se todo mundo usa preto, deve ter um motivo para isso. Usar branco, na melhor das hipóteses, deve trazer azar.

— Se trouxesse azar, a noiva também usaria preto, e então ficaria parecendo um velório. Não, pelo amor de Deus, querido, você vai ficar lindo de branco. Por favor, por favor.

Claro que ele estava bêbado, e claro que ele acabou concordando. Ele sempre concordava. Foram cinco anos de namoro em que ela conseguiu faze-lo se transformar em um perfeito capacho. Não que ele se importasse muito com isso, afinal, ela era gostosa pra caralho, mas ainda assim, tinha dias em que ele questionava se estava fazendo a coisa certa.

— Cara, você não vai encontrar mulher igual a ela. Você devia parar de questionar e aceitar o que ela disser, meu chapa. Vou te dizer, embora seja doloroso, que tem uma galera aí que está só esperando pelo término de vocês. Prontos para atacar.

Quem disse isso foi o Peter, o único amigo decente que ele conseguira cultivar nos seus trinta anos de vida. E agora, depois de ter sido abandonado no altar, talvez isso começasse a fazer um sentido horrível, quase obsceno. E se alguém conseguiu atacar antes mesmo do término, e por isso, conseguiu, pelos diabos, faze-la desistir do casamento? Era uma ideia que tinha uma inclinação notória para a verdade.

Mas quem se importa, caramba, ela não apareceu, fim de papo. Ele resolveu deixar todo esse rastro de desgraça enterrado em uma das milhares de gavetas mentais e voltou a atenção para a rua. Pediu outro café, dessa vez acompanhado de biscoitos amanteigados, e então, encostou a testa mais uma vez no vidro. Lá fora, a espessa névoa começava a engrossar, e em pouco tempo, talvez uma hora ou duas, Mark calculou que voltaria a nevar. Ele olhou para o relógio e constatou, com surpresa, que já estava ali a quase quatro horas. E isso queria dizer que, a essa altura, a desgraçada já devia estar com o animal irracional, provavelmente algum colega, que não conseguiu esperar pelo término do relacionamento deles. Deviam estar na casa dele, ou talvez em algum das centenas de hotéis da cidade, bebendo champagne e comemorando o início da liberdade, rindo da cara Mark e transando até o pau dele se tornar puro osso. Cara, que pensamento ridículo, ele pensou, isso é, muito provavelmente, uma ideia machista, não é? É capaz de algum moralista safado invadir meus pensamentos e me dar um tapa mental, me dizendo que a vida é dela e que, se ela quiser, pode fazer o que bem entender, e se isso incluir dar o rabo para algum amigo, que faça. Show de bola, amigão, tatue isso nas suas costas, vai ficar lindo.

Ele estava ali, olhando para a rua e se martirizando com essas ideias horrorosas quando, de repente, surgiu no meio da multidão uma mulher. Não uma mulher comum. Tinha algo de diferente nela. E Mark desconfiava que era o vestido de noiva. Por um segundo, ele achou que pudesse ser ela, a própria, a cretina, a Abandonadora de Noivos no Altar, mas quando ela atravessou a rua, correndo em disparada em direção sabe Deus da onde, ele pôde ver que se tratava de uma outra mulher. Isso aguçou a imaginação de Mark a um limite nunca antes visto.

Dentre as milhares de ideias que correram pela mente de Mark, ele resolveu acreditar naquela que, talvez por reflexo, poderia também se encaixar a ele: ela foi abandonada no altar. Poderia ser uma ideia um pouco absurda. Duas pessoas, no mesmo dia, sendo abandonadas por alguém que, quem sabe por delírio, prometera amor eterno? Não, isso seria coincidência demais e embora o mundo fosse grande, ele achava que Deus deveria ter um pingo de bom senso para evitar fazer esse tipo de crueldade com seus filhos.

Mas então porque ela estava chorando? Ele pensou e resolveu, enfim, ir atrás dela. Não havia ninguém na porra do mundo inteiro que pudesse saber o que estava acontecendo com ela que não fosse ele. Talvez eles conversassem e afogassem as mágoas em algum boteco de esquina, apenas reclamando da vida. Era uma boa ideia, ele precisava conversar com aquela mulher.

Se levantou e saiu correndo da cafeteria. Ao pisar na calçada, teve que lutar para achar caminho entre os pedestres. Ele conseguiu passar, e lá na frente, virando a esquina, viu a noiva.

Não se importava em parecer um maluco, pois nada mais justificaria um homem vestido daquele jeito correndo de forma desesperada. Ele só esperava não trombar com alguma viatura da polícia, pois com certeza seria parado, e se isso acontecesse, a perderia de vista para sempre, tendo que morrer sem nunca saber o que se passava no coração daquela mulher injustiçada.

Quando virou a esquina, ela já estava do outro lado da rua. Resolveu atravessar, antes mesmo do semáforo fechar, tendo que desviar, como um ninja, dos carros que vinham das duas direções. Graças a Deus conseguiu, porque ser abandonado no altar já era ruim, morrer no mesmo dia, e ainda atropelado, era de foder, não é, meu parceiro?

Virou a esquina como um lunático, dando de cara com um garoto sentado na calçada, atrás de uma banqueta que deveria servir para engraxar sapatos. Pediu desculpas e jogou uma nota de dez para ele. Olhou para o lado, lá estava a noiva, a quase vinte metros dele. Puxou o ar e partiu em disparada. Enquanto corria, o sensor aranha de Mark estava tentando avisa-lo de algo que ele não estava percebendo, pedindo para que ele olhasse para trás, mas ele resolveu ignorar. Continuou correndo. Virou a esquina, e a noiva estava virando uma outra, ele só pôde ver a cauda do vestido.

Percebendo que poderia perder aquela corrida, ele acelerou ainda mais o passo, esticando as pernas o máximo que conseguia, tropeçando nas pessoas e, entre gritos, pedindo desculpas. Gritou também para a noiva, pedindo para que ela esperasse, mas com o vento, duvidou que ela pudesse ouvir qualquer coisa, ainda mais a uma distância daquelas.

Sentiu novamente a sensação de que deveria olhar para trás, e de novo, ignorou. Se olhasse para trás, poderia dizer adeus àquela conversa com a noiva que, em tão pouco tempo, tornara-se o motivo máximo da existência terrena daquele homem.

Cara, se eu perdê-la de vista, acho que eu é quem morro, foi esse o pensamento que o fez virar a outra esquina, com a energia renovada. A partir daquele ponto, para a graça de Deus, as calçadas estavam vazias, isso permitiu que ele conseguisse correr ainda mais rápido. Viu com nitidez quando ela virou uma outra rua. Se no fim daquele dia ele descobrisse que ela era a técnica do Usain Bolt, ele não iria ficar nem um pouco surpreso.

Entre gritos e risos, ele virou aquela que seria a última esquina. Era a última por um bom motivo. Era um beco sem saída. Abismado, ele começou a olhar para os prédios, mas nenhum deles possuía entrada por aquele lado. Seria incrível pensar que aquela mulher pudesse ter conseguido subir as escadas de incêndio em tão pouco tempo. Não, não pode ser. Ele pensou, andando lentamente até o fim do beco, olhando desesperado para qualquer vão que pudesse haver ali. Mas não havia nada. Nenhum noiva, nenhuma mulher, nenhuma pessoa, a não ser ele.

Foi até o final, dando de cara com um muro alto feito de blocos. Fim da linha, meu chapa, você perdeu. Será mesmo que ela tenha virado alguma outra rua e, por ilusão de ótica, ou por delírio, ele não tenha percebido? Não, isso seria impossível. A possiblidade de ele tê-la perdido de vista era nula.

Foi quando, de repente, um vento frio passou por ele, fazendo cada pelo do corpo de Mark arrepiar, como se uma presença maligna, diabólica, tivesse passado ao lado dele. Fazia anos que ele não sentia tanto medo, e naquele momento, ele poderia dizer, sem pestanejar, que estava cagando de medo. Ele sentiu uma mão no ombro esquerdo, se virou, lentamente, horrorizado com quem — ou o que — poderia estar atrás dele.

E então, ele ouviu a voz.

— Você esqueceu de pagar a conta.

Era a garçonete.


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