A Saga Elementos, de Giu Pereira

No clube do livro de hoje nós temos a estreia da parceria com Dara Cazimiro, que nos resenhou a saga Elementos, da autora Giu Pereira.


A Primogênita: Vida longa ao Deus Sol


O primeiro conto da coleção de fantasia da escritora Giulia Pereira se chama A Primogênita, e nele somos apresentados ao mundo criado pela autora pela perspectiva de Nair. Logo no resumo, Giu nos promete contar a história fantástica de uma terra assolada pela guerra e, paralelo a isso, protagonistas fortes e bem desenvolvidas. “A Primogênita” nos entrega tudo isso com primor. Nair é a primogênita princesa de Ajax, um reino próspero que foi tomado em uma longa guerra. Agora, a moça foi entregue para o reino Alistair, devendo se casar com o irmão do rei. Nair não precisa lidar somente com a perda do reino, mas também com o machismo permeado em uma cultura que luta para inferiorizá-la e submetê-la às suas próprias crenças. Com uma narrativa madura e fluida, Giu Pereira nos apresenta ao universo em que se situam os seus contos, mesclando os acontecimentos e fatos históricos do passado na medida certa para que o leitor mergulhe no sofrimento de Nair e no seu desejo por justiça e liberdade. A leitura é envolvente e me fez querer mais 200 páginas para devorar.


O Conto foi lançado em 2020 no formato ebook e possui 41 páginas.


A Sacerdotisa: O Segundo despertar


Demétria é uma sacerdotisa que vive no vale de Pétrea, reino Érazter. Com inúmeras perdas, a mulher segue como uma das maiores imagens de liderança da sua aldeia, mantendo-se como sacerdotisa do templo de Ténar, deusa da terra e da fertilidade. Nesse segundo conto, situado anteriormente à linha do tempo, temos um outro vislumbre do universo criado pela Giulia, um mais matriarcal, ligado à religiosidade e ao cultivo da terra.


Demétria é uma mulher mais madura e vivida, tendo perdido muitas pessoas importantes da sua vida, inclusive seu filho e marido.


Elas tem um ponto muito em comum: são mulheres fortes, que sobrevivem a uma dura realidade de guerra e ainda lutam pelos seus. Personagens do conto anterior aparecem com um melhor desenvolvimento, em exemplo: Lair, irmão de Nair.


E é muito importante frisar que Giulia arrasa demais em cenas de ação. Sua narrativa é rápida, dinâmica, entregando movimento e emoção em doses perfeitas. Esse elemento em um livro de Fantasia é perfeito para quem gosta de lutas intensas.


O segundo volume da Saga Elementos foi lançado no final de 2020 e possui 67 páginas.

A Desertora: A loba de Aliãn


O último conto nos dá uma perspectiva muito diferente da guerra, se comparado aos outros. Khalid, a protagonista, soldada de Ajax, teve um papel muito importante na guerra. Decerto, esse foi um movimento interessante da escritora, pois trazer olhares indivíduos de lados diferentes de um conflito permitiu uma dualidade de sentimentos e visão mais ampla do cenário. Khalid, com sua ousadia, petulância e força, conquistou meu coração. A princesa ciborgue é uma soldada orgulhosa, lutou pela Aliança, mas desconhece muitas coisas. Ver essa personagem descobrir-se, assim como ser inserida no contexto dos outros contos, foi uma ótima experiência. Além disso, a autora, nesse conto, pôde apresentar mais da magia do mundo que criou, assim como explorar mais criaturas mágicas e também tecnologias. As cenas de ação seguem perfeitas.


O terceiro conto da Sala Elementos foi lançado em 2021 e possui 91 páginas


Conheça a autora Giu Pereira


Giu Pereira é professora de Inglês , formada em letras e mestranda em Educação. Escritora independente sergipana, autora da saga Elementos, que é composta pelos contos "A primogênita", "A sacerdotisa" e "A desertora".

@oxegiu

Vamos brincar de Marília Gabriela, quem é Giu Pereira?


Acho que a podemos começar pelo meu nome. Se você pegar minha identidade, vai está lá: Giulia Pereira Santos. Adotei o nome Giu Pereira para assinar as minhas obras, porque quase ninguém me chama por esse apelido e eu sempre gostei muito dele. Tenho 21 anos, nasci em São Paulo, mas só fiz nascer mesmo. Meu pai era jogador de futebol, então a gente vivia viajando. Dos meus 6 meses até os 6 anos, eu passei por Rio de Janeiro, Japão, Paraguai, Porto Alegre até chegar em São Cristóvão - SE. Finquei raízes aqui, então pra todos os efeitos eu sou sergipana e nordestina com muito orgulho. Atualmente eu sou professora de Inglês, mainha queria que eu tivesse estudado Direito, mas no fim das contas Letras me ganhou (É notável, né?). Pra felicidade da criança que eu fui, agora, eu posso dizer que sou escritora também.


Queremos saber onde tudo começou. Quando surgiu esse interesse pela literatura?


Nossa! Começou muito cedo, minha mãe costumava inventar histórias e me contar antes de dormir. Era uma coisa bem simples, mas ela sempre foi muito criativa e aquilo aflorou minha imaginação! Eu sempre estava em contato com um livro ou outro, mas foi só com 10 anos que eu me apaixonei de vez (mais uma vez, por conta da minha mãe). Ela descobriu (pasmem) a saga Crepúsculo, começou a ler e ficou encantada. De tanto ela falar, acabei me interessando também. Uma coisa levou a outra, até que eu fiquei conhecida na escola por ser a biblioteca ambulante. Eu não só lia bastante, como vivia emprestando meus livros, tinha até um caderninho. Tem gente que me julga até hoje quando digo isso, mas a sensação de ter com quem conversar sobre literatura era maravilhosa.


E a escrita, Giu? Quando começou a contar suas primeiras hitórias?


Eu comecei a escrever na mesma época que mergulhei na leitura. Eu tinha em torno de 10 ou 11 anos quando decidi digitar minhas ideias no netbook recém comprado dos meus pais. Nunca cheguei a terminar aquela trilogia e já dei muita risada relendo os rascunhos, mas preciso admitir que pra uma criança já era muito bom. Inclusive, é válido lembrar que Coração Pirata, uma história que escrevo no Wattpad, é um dos projetos da minha infância que eu acabei retomando e, claro, elaborando com mais calma. E com essa obra já recebi até algumas premiações em concursos no próprio Wattpad.


Depois dessa fase, veio o tempo das fanfictions de One Direction. Nesse tempo, saí da fantasia e migrei para o romance, mas eu já não sabia escrever clichê. Quem é fã de Vingadores e Percy Jackson não consegue escrever nada muito longe da ação. Essa época foi muito boa, principalmente, porque eu consegui publicar e mostrar pra outras pessoas histórias que eram só minhas e passavam a maior parte do tempo guardadas no meu drive. Amadureci muito e se não fosse pela GiuBlue do Fanfiction Spirit, eu não seria a Giu Pereira hoje.


Quais autores e obras colaboraram com a construção do seu estilo narrativo?


Eu preciso admitir que tive uma influência muito grande dos autores que eu li na infância como: Rick Riordan, Collen Houck e C. S. Lewis. As fantasias e as aventuras que eles criaram me marcaram muito e até hoje me pego relembrando de algumas de suas cenas, pra gerar as minhas.


Atualmente, eu busco beber de fontes nacionais, acho que o nosso contexto brasileiro tem muito a dizer e nós temos autores fantásticos! Impossível não se maravilhar com o que os nossos escritores independentes têm feito por aí. Algumas das referências que eu consigo me lembrar agora são as autoras Laís Napoli, autora de Peregrinas de Calmaria e Tormenta, Thays Deratani, autora da ficção cientifica distópica "Portadores", e G.G. Diniz, editora da revista Ignoto e da editora Corvus e autora da noveleta Morte Matada.


Percebo que cada uma delas me inspira de um jeito diferente. Gosto da forma como a Laís Napoli se comunica com os leitores e o jeito como ela criou o universo do primeiro livro foi incrível, principalmente como ela trata o tema de povos escravagistas e refugiados.


A Thays Deratani é uma gênia da ficção científica, penso sempre em dar o direcionamento para minhas histórias assim como ela fez em Portadores, uma distopia com ditadura no Brasil. Eu acho que a gente precisa escrever com propósito e ela sabe fazer isso muito bem.


E a Gabi Diniz criou o sertãopunk! Não tem como não me inspirar nela. A escrita dela é incrível e eu sou louca pra escrever ficção especulativa que envolva a minha cultura nordestina. A potência que existe nisso é surreal e acho que nós que estamos inseridos nesse contexto ainda não temos plena noção do poder disso.


Nos destaques você conta que a inspiração para escrever A Primogênita veio de uma composição musical. Além de contista você também é envolvida com música?


Sim, é verdade! Na mesma época que eu comecei a escrever, comecei a ter aulas de violão. Até hoje não sou muito boa tocando, mas assim que aprendi as primeiras notas, me empolguei pra compor uma música. A canção falava sobre uma princesa que foi presa em um palácio e decidiu queimar a cela pra fugir. Quando mostrei para o meu professor, ele questionou em que eu tinha me inspirado e eu não soube responder, porque não era algo que eu tinha visto na rua, sabe? Era algo que eu tinha imaginado. Acho que eu sempre fui essa pessoa que colocava histórias onde quer que fosse possível. Eu compus outras músicas depois, mas elas tem um cunho religioso e atualmente eu dei uma pausa nessa parte da minha vida, porque minhas demandas já são outras (as conhecidas responsabilidades adultas).


Sobre a minha relação com a música: de forma geral, ela continua sendo muito profunda. Eu preciso colocar meu fone de ouvido pelo menos uma vez ao dia pra conseguir me conectar comigo mesma. É como se a música abrisse uma porta pra outra realidade e é de lá que saem as histórias que eu escrevo. Não posso nem dizer que sou eu que as crio, elas simplesmente surgem enquanto ouço música, sussurrando pra eu fazer com que elas existam do outro lado da porta. Sempre foi assim e acho que vai continuar sendo até, sei lá, elas desistirem de vim pra cá.


E, como foi o processo de escrita de A Primogênita?


Eu escrevi “A Primogênita” pra submeter em uma revista, inclusive, acho que foi uma das únicas histórias curtas que eu consegui desenvolver. Eu sou prolixa, é uma coisa que já tentei mudar e não consigo! A maioria dos meus enredos tem começo, meio e fim. A Primogênita precisou começar do meio e acabar no seu clímax, porque eu sabia que iria fazer render mais pano pra manga e a revista tinha limite de palavras. Então, o processo foi muito sofrido, eu fiz com um prazo de entrega curto. Virei algumas noites tentando terminar e deixar o melhor possível. No fim, acabei nem passando no processo, mas eu fiquei tão feliz por ter passado na primeira etapa que eu precisei mostrar a Nair pro mundo.


As sequências já estavam em seus planos? Ou sentiu necessidade depois de publicar o primeiro livro?


Então, não ia acontecer na forma como foram lançadas. Os contos não iam se passar em Uzur, teriam outras realidades (algumas até aqui no Brasil), mas a medida que eu fui recebendo os feedbacks dos leitores, foi que notei como todo mundo estava ansioso pra saber mais sobre a Aliança, a guerra, Ajax e etc. Só que eu percebi que um universo inteiro seria desperdiçado e Uzur merecia mais.


Que lições, aprendizagens e transformações você teve ou está tendo com a saga?


A saga Elementos me fez olhar com mais cuidado para mim e para garotas como eu. Eu sempre tive a intenção de escrever fantasia, aventura e ficção científica com protagonistas femininas, porque por muito tempo eu consumi esses conteúdos como se fosse algo só “para meninos”. Mas aí, eu percebi que o meu buraco é mais embaixo. Se é raro ver protagonistas femininas, muito mais raro é encontrar mulheres negras, fortes e com corpos fora do padrão nesse nicho. Eu falo de cabelo, pele, feições e etc. Eu já era consciente desses fatos, mas demorou pra cair a ficha de que eu mesma não estava produzindo nada para reverter essa situação. Para minha vergonha, 80% das minhas personagens eram brancas e com corpo padrão, essa era a visão de mulher empoderada que eu tinha recebido e era a perspectiva que eu estava reproduzindo. Eu mesma não me enxergava fisicamente nos personagens que eu escrevia. Então, escrever a Saga Elementos foi como um resgate, hoje eu vejo essas obras, como um projeto que pela primeira vez me espelha em várias nuances e espelha muitas outras garotas que merecem ser vistas.


Qual a mensagem, a discussão que você deseja gerar com as suas obras?


Acho que toda obra reflete seu autor, a gente não tem como fugir disso. Existe muito de mim naquilo que eu escrevo, coisas que eu não teria coragem de falar em voz alta, mas acabo gritando com as palavras escrita. Eu acredito que o nosso mundo tem vários problemas com gênero, classe e etnia que precisam urgentemente ser resolvidos, então escancarei isso nesses contos (ou pelo menos tentei). É claro que nas entrelinhas eu acabo por falar de amor, sacrifício, poder e corrupção, mas no geral a Saga é uma denúncia a coisas que o nosso mundo ainda não se dignificou a melhorar.


Como foi a construção da sua base de leitores? Pode nos dizer também em quais redes você mais atua?


Eu nem me acostumei com isso ainda. Agora, eu tenho leitores. Ai que sonho! Sou uma autora iniciante, então se tem mais de 10 pessoas me lendo, já me sinto no céu!


Minha história com comunidade de leitores começou lá nos primórdios da minha pré-adolescência, quando eu não tinha coragem pra mostrar o que eu escrevia pra ninguém. Surgiram as fanfics, como eu já mencionei, e eu me conectei com muitas pessoas por conta delas. Infelizmente, com 14 anos, eu precisei estudar nos dois turnos e acabei perdendo esse elo com meus leitores. Passei anos sem atualizar e cheguei a pensar em desistir de ser escritora.


Foi só no fim da graduação em Letras que eu decidi voltar a postar no Wattpad, mas eu teria que começar do zero, então eu tomei umas decisões mais desafiadoras. Compartilhar Coração Pirata com meus amigos e conhecidos. Pode parecer besteira, mas quem é tímido vai me entender, demorei alguns meses pra tomar coragem e divulgar no instagram. Depois, eu entrei nos grupos de troca de leitura no Wattpad, conheci muita gente e tomei coragem pra publicar na Amazon também.


Com o conto em circulação, adentrei o bookstragram e o booktwitter, aí foi só uma questão de perder a vergonha e pedir divulgação. Cometi algumas gafes? Com certeza! Do tipo de acabar entrando em contato com escritores e pedir pra eles divulgarem, sendo que eles não fazem esse tipo de trabalho, né? Foi cada vergonha, amados, que vocês não tem noção! Mas deu certo! Conheci muita gente assim e a Saga foi entrando nos espaços aos pouquinhos.


Atualmente, eu tento fazer resenhas no Instagram e compartilho algumas experiências de escrita. Foi a forma que eu encontrei de continuar interagindo com meus leitores. Passei a ser mais ativa no Twitter também, mas lá é mais pessoal e desorganizado. Normalmente, lá eu surto e os leitores mangam da minha cara.



Resenha por Dara Cazimiro

Revisão e edição por Elisa Fonseca

Entrevista e edição de imagens por Felipe Henrique


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