A Selavoada, de Ariel Ayres

“Ela morria de medo de urucubacos, como qualquer pessoa com a cabeça no lugar. Não podia confiar em um ser mágico que preferia viver entre animais a viver em sociedade. Além disso, só de pensar no que conseguiam fazer, descia um frio na espinha por sua espinha. Falar com bichos ou, pior, controlá-los era poder demais.”


O conto Selavoada pertence ao universo do Fogaréu Mágico. Um espaço repleto de feitiços e criaturas, além de possuir ares de um sertão perigoso, quase um faroeste em terras tupiniquins. É um conto curto de quarenta e cinco páginas, leitura fluida e linguagem memorável.


O narrador em terceira pessoa observa e acompanha a protagonista Sérgia, uma tinhosa dos olhos pretos, braba que só ela. Logo no início, Sérgia aparece empenhada em lutar contra um quibungo, um tipo de sobrosso (criatura mágica e bestial), pelo intuito de capturar o artefato mágico que dá nome ao conto, uma selavoada.


Ao chegar na vila o burburinho entre os goblins, humanos e outras espécies começa. Algumas argueiras desconfiam que a tinhosa está destinada a se tornar uma quebra rabicho, discorrem, inclusive, sobre o caminho necessário para ela se transformar em matadora de um cabra dos infernos, mas Sérgia só quer saber de achar a nhanderu, para enfeitiçar a Selavoada.


Depois de conseguir a informação que precisava, Sérgia se destina à Mata da Cumbica e no caminho se depara com Kauani, a nhanderu que procurava. Com a promessa de realizar o feitiço na Sela, Kauani faz Sérgia beber a cachaça nhanderu, bebida capaz de eliminar temporariamente os poderes da tinhosa.


Quem lhe salva do mal feito é a inesperada urucubaca, apelidada por Olho de Jabuticaba por Sérgia. Também a acompanhavam o carcará Jefferso, a onça Joaninha e a capivara Jurema. O destino de Sérgia e do artefato se transformam depois desse encontro.


Que mistérios serão desvendados? Alguns serão revelados neste conto, entretanto, o autor ainda fará uma sequência de dois contos para compor a trajetória de Sérgia.


O universo Fogaréu Mágico é um espetáculo à parte, que transforma a leitura em uma experiência realmente mágica e muito brasileira. Recomendo esse conto para os leitores de qualquer idade que gostem de boas narrativas, porém, o foco principal se destina aos fãs de fantasia e de prosa nacional.



Conheça Ariel Ayres


Ariel Ayres é músico e escritor. Publica desde seus 14 anos, tendo os livros “A Explosão do Impressionante Centro de Coisas Absolutamente Legais”, “O Quatro” e “A Selavoada (Fogaréu Mágico)”, além de participações em bienais e coletâneas de contos


Autor Ariel Ayres (@arielayres)

Ariel, como se deu o seu primeiro contato com a literatura?


Quando eu tinha uns doze anos, comecei a ler fantasia através de uma série de livros de Emily Rodda. Já na escrita eu comecei pensando em filmes, em roteirizar filmes.


Minha história como escritor começou com um romance policial "A Chuva", depois é que eu me meti em fantasia urbana, com um livro chamado "O Quatro". Por um tempo eu parei de escrever e voltei s ó lá em 2017 e 2018. Foi quando eu reescrevi "O Quatro".


Quais gêneros você escreve e por que os escolheu?


Escrevo em vários, mas principalmente fantasia urbana e sci-fi. Na época que escrevi o policial, tive muita influência da Agatha Christie. Já a fantasia urbana foi sempre presente na minha vida enquanto gênero favorito. Eu sempre gostei de imaginar essa magia de forma mais próxima, porque quando lemos "Senhor dos anéis" é um mundo completamente novo e quase inacessível, mas a fantasia urbana acontece em nossas ruas, lugares que conhecemos e que podemos chegar. Então, imaginar que essa magia pudesse ser real de alguma forma, criar um mundo dentro de um mundo existente, fazer as pessoas sonharem, essas coisas sempre me deixaram animado a escrever fantasia urbana.


Também sou grande fã de jogos e livros. Isso acaba naturalmente saindo. O terror que vez ou outra acontece, é influenciado pelo queridíssimo Stephen King e alguns filmes.


Eu sou uma pessoa q gosta muito de sonhar, sou fã de Asimov, li toda fundação, li Duna, também. Junto essa bagagem e acabo soltando em escrita. No último que escrevi tem essa mistura de sci-fi com fantasia urbana.


Há escritores que te influenciem?


Conheci pessoas muito parceiras, a Paola Siviero, Ana Merege, Jana Bianchi, Ana Cristina Rodrigues e Lauro Kociuba.


A Paola foi a grande inspiração para Fogaréu Mágico. Uma pessoa de muita coragem ao que se propõe a fazer. Ela fez tudo com muito carinho, respeito e dedicação. E fez uma história emocionante também. Além de ser uma amiga fantástica.


Jana é dedicada a nós, independentes. O que ela faz com a revista Mafagafo, como editora, e o suporte que ela dá é essencial. Eu sempre penso na Jana como a união de tudo que uma pessoa precisa para viver de literatura.


Ana Lúcia Merege é fantástica, super acessível, adora testar coisas novas na escrita e ajudar os autores. Desde que eu a conheci, ela nunca, em nenhum momento, se fez indisponível.


Ana Cristina é uma enciclopédia, conhece todo mundo e muita coisa de escrita. Ela dá dica de como fazer o seu livro ir pra frente e ficar melhor. Foi editora de "A Selavoada".


Lauro Kociuba é de um carinho com as palavras e de uma emoção! Ele não só escreve, ele pinta enquanto escreve, é um cuidador das palavras.


De que forma a música influencia a sua literatura, e vice e versa?


Teve um momento da minha vida que eu foquei na música. Eu até falei com a Jana Bianchi que eu continuaria sendo escritor, só que na música. Sempre que eu faço música eu me sinto escrevendo, eu me sinto na participante da história.


Eu sinto que o viver com a música, enquanto compositor, traz essa questão de ritmo e de sinestesia. A música me traz a importância da sonoridade em nossas experiências de vida. A música me influencia a contar histórias. Também coloco partes de músicas em minhas cenas.


Quais as temáticas e elementos mais recorrentes em suas obras?


Eu gosto de trazer, independentemente do que eu faça, algum tipo de humor, e isso vem como influencia de Douglas Adams. Eu sou um autor que gosta muito de trabalhar diálogos. Faço muitos diálogos extensos. Comentaram bastante que em "A Selavoada", eu desenvolvi sinestesia, pois tento fazer com que as pessoas sintam as cenas e acho que isso me caracteriza.


Pode nos falar um pouquinho sobre suas obras já publicadas?


"O Quatro" vai mostrar o sofrimento de quatro adolescentes, dotados de um vazio grande demais. Eles foram escolhidos para servirem de veículo para os quatro elementos que - surpresa! - vieram para dizimar essa raça humana podre. O livro acompanha os quatro dias onde tudo pode acontecer. As criaturas assassinam, machucam, torturam e se aproximam de forma ininterrupta do segundo apocalipse.


A Selavoada ou Fogaréu Mágico, conta sobre Sérgia que, com a selavoada em mãos, sabe que pode finalmente alcançar seus sonhos mais profundos, mas não por muito tempo, pois não é a única atrás de um dos lendários Artefatos Mágicos. No meio do sertão pernambucano, a tinhosa vai precisar encarar a si própria e aprender que a vida não precisa ser tão solitária assim.


Focando neste, como foi a concepção e seu processo de escrita de "A Selavoada"?


Esse livro foi consequência do Fogaréu mágico: o universo onde se passa a história. "A Selavoada" começa uma trilogia. A sequência pode sair ainda em 2021, o terceiro em 2022. Possuo ideias na cabeça, principalmente coisas que vão vir de acontecimentos dentro de "A Selavoada": spin offs, lendas do Nordeste, o reino encantado de Jericoacoara (lenda local de um reino escondido e secreto, cuja princesa se transformou em uma besta e a pessoa precisa entrar numa porta escondida para conquistar, beijar e libertá-la da maldição.


Parece um universo bastante rico. Quais criaturas frequentam o Fogaréu mágico? E se puder falar um pouco sobre como o construiu.


Há muitas criaturas. Vou citar algumas: Quibungo, um monstro mitológico que realmente existe; Sacis, que ainda aparecerão; Urucubacas; uma criação minha; Tinhosos, o resultado de um ser humano tendo o corpo possuído, dentre outras.


Um de meus momentos favoritos é a criação. Foi bem divertido e importante, enquanto pessoa nordestina. A pesquisa me proporcionou conhecer bastante da mitologia nordestina. A nossa mitologia é muito colocada de lado. Aqui no Brasil a gente pensa nosso próprio folclore como uma coisa infantil, mas temos muita coisa legal e assustadora. Conheci o Quibungo assim, um monstro que come gente e é assustador. Então, esse processo foi um reencontro e exigiu muita pesquisa.


E quais são os seus projetos atuais?


Recebi a notícia de ter passado na Suprassuma e estou participando de vários editais. Mandei um livro para uma agência literária... O primeiro projeto é o processo de lançamento do Selavoada. E, tem também um outro universo meu, de fantasia com ficção científica. Mas, acima de tudo, quero tentar profissionalizar a minha escrita.




Resenha e revisão por Elisa Fonseca

Edição e entrevista por Elisa Fonseca e Filipo Brazilliano

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