A xilogravura como elemento transformador, por Alladin Bambá

A xilogravura ganhou notoriedade fora do eixo nordestino na década de 60 e 70, mas a cada década sua relevância aumenta com o surgimento de novos artesãos.



Talvez você não saiba do que se trata, mas a xilogravura é muito conhecida, não só no Brasil, mas também no mundo. Ela é uma técnica milenar, chinesa, de gravuras talhadas em madeira, possibilitando reproduções em folhas ou em outras superfícies adequadas, e até mesmo em roupas.


Obra de Osmar Jorge

A xilogravura se popularizou no ocidente no século XV e chegou ao Brasil com a colonização portuguesa. Durante muito tempo foi usada na confecção dos rótulos de cachaça, tornando-se popular com a literatura de cordel, que marcou a identidade cultural nordestina. Através dela se retratou o rico imaginário popular, com temáticas religiosas, políticas e até mesmo eróticas.


Nas décadas de 60 e 70 começou a ganhar mais notoriedade fora do eixo nordestino, quando estudiosos e pesquisadores passaram a publicar trabalhos acadêmicos sobre o tema.


Os principais mestres dessa especialização artística foram: J. Borges (José Francisco Borges), 87 anos, natural de Bezerros, Pernambuco, considerado pelo renomado escritor Ariano Suassuna, como o melhor gravador popular do Nordeste, e sendo em 2006 tema de reportagem do New York Times; Eneias Tavares dos Santos, nascido em 22 de novembro de 1931 na cidade de Marechal Deodoro, Alagoas, que sem formação primária em sua infância, estudou música, pintura e desenho, assim aflorando suas veias artísticas para o universo da xilogravura e da poesia. Mestre Noza (Inocêncio Medeiros da Costa), nascido em Taquaritinga do Norte, Pernambuco, no ano de 1897, se mudou para o Juazeiro do Norte em 1912, onde frequentava a oficina do escultor José Domingos, ali iniciou sua trajetória na gravura. Executou rótulos de marcas para aguardente, além de esculpir imagens de santos. Em 1962, realizou séries de xilogravuras da vida de Lampião e os doze apóstolos, que mais tarde foram editadas pelo museu de arte da Universidade Federal do Ceará, Mauc. Em 1965, seu trabalho via sacra é publicado em Paris pelo editor Robert Morel, com apresentação de Sérvulo Esmeraldo.



Eneias Tavares dos Santos, José Francisco Borges e Mestre Noza

E como será que anda a arte da xilogravura na atualidade?


Do sul baiano ao norte maranhense, milhares de artesãos e poetas surgem com suas manifestações artísticas, seguindo passos, trilhando caminhos parecidos com os mestres que desbravaram o mundo dessa cultura. A xilogravura sempre foi um mecanismo artístico de transformação social, sendo o escudo que completa a armadura dos versos dos poetas populares. Mas quem são esses novos xilógrafos?


Subindo do Recife em direção ao interior do estado há uma cidade chamada Gravatá, e na primeira cidade do agreste pernambucano, encontramos Osmar Jorge, 35 anos, xilógrafo, ilustrador, artesão, ator, educador, capoeirista e músico, luta pela transformação social através da arte.


Cada um tem seu começo, e quase sempre é no espelho de alguém que nos inspira, como personagens de TV, filmes, séries, mangás, e até mesmo familiares que já praticam algum tipo de arte. Osmar Jorge sempre via o irmão desenhando, até despertar seu próprio interesse, iniciando assim sua carreira. Passou por várias fases, como escultura renascentista.


“Esse tempo de criança eu oscilava muito, parava alguns meses, depois voltava. Teve um tempo também que comecei a vender telhas pintadas com lápis de cor, com os escudos dos times...aí já na adolescência, meu irmão pediu pra que eu juntasse ‘imbira’ uma planta que faz berimbau, pra eu iniciar a confeccionar, daí então veio as ideias de fazer luminárias com cabaça. Aí passei um bom tempo criando esse artesanato e sempre evoluindo. Depois veio a arte do barro, mas foi temporário, e depois a xilogravura. Tive a oportunidade de aprender em 2013 com o mestre Cacau Arcoverde, daí então não parei mais!”

A primeira inspiração de Osmar Jorge foi seu irmão, o artista José Jorge (Kiko), mas também têm como base os ensinamentos de Cacau Arcoverde, J. Miguel, J. Borges, Gilvan Samico, entre outros.



Obras e fotos de Osmar Jorge

O artista vê na xilogravura uma oportunidade de trabalhar várias habilidades, como criatividade, concentração, coordenação motora, além do conhecimento histórico e literário que vem anexado à xilogravura, que são os cordéis. A arte de Osmar é a mistura do cotidiano, tem sertanejo, vaqueiro, benzedeira, matuto, aboiador no pé de umbuzeiro, e ainda Ufologia. Osmar vê a xilogravura como um instrumento de transformação não só cultural, como também econômica.


“Economia criativa também é muito importante! No início é difícil viver do ofício de gravurista, mas com persistência a arte lhe dará retorno. Não desista no meio do caminho, porque quando você chegar, vai lembrar que tudo valeu a pena. A arte faz você viajar em todos os sentidos!”

A oficina de iniciação de xilogravura. Está disponível gratuitamente no canal do artista no youtube, Paranapukos, no intuito de não apenas dar uma breve introdução ao ofício de gravurista, mas também de apresentar mestres e suas obras para o público iniciante.


E você pode encontrar mais sobre o artista no Instagram, pelo e-mail osmarjorgepernambuco@hotmail.com, e fisicamente expomos no alto do cruzeiro Gravatá/PE aos domingos, em um grupo que se iniciou em 2018, com 3 artesãos, mas hoje já tem uma grande procura.


E assim a cultura permanece, imortalizando alguns e brotando novos guerreiros que lutam pela preservação e elevação da cultura popular, como o mestre Osmar Jorge, que usa da sua arte como mecanismo transformador na educação, e tantos outros que estão sentados em suas oficinas criando os caminhos de suas histórias.



Essa matéria foi produzida pelo jornalista Alladin Bambá

Natural de Gravatá, agreste pernambucano, ator, produtor cultural e escritor. Escreve versos desde a infância, influenciado pela família, mas entrou de cabeça mesmo na literatura quando largou a faculdade de ciências contábeis e começou a frequentar os saraus. Hoje ele se dedica em escrever seus textos e a produzir eventos culturais na região, preservando espaços de cultura de resistência.



Edição por Nox Santos

Revisão por Elisa Fonseca

Matéria por Alladin Bambá

Fotos por Nilson Silva, arquivo pessoal da Folha de Pernambuco, arquivo pessoal da FUNDAJ, arquivo pessoal do Museu Olho Latino e Osmar Jorge.


Referências:


FUNDAJ

Folha de Pernambuco

Museu Olho Latino

Arte Educação

Vivendo Bauru

The New York Times

Memorias da poesia popular

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Folha de Pernambuco



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