Ainda está batendo


Is there anybody out there? - Pink Floyd




1


A pressão vinha de todos os lados, mas, em especial, de dentro para fora. As batidas nunca cessavam.


Lembrava-se com muita clareza dos sons que aquele piano emitia até tarde da noite. As notas possuíam uma beleza tão perfeita e completa que, ao ouvi-las, tinha a sensação de flutuar em uma realidade distante e inatingível. Uma realidade que só era acessível caso ela, a mulher de sua vida, a sua mãe, estivesse sentada naquele pequeno banco de madeira, com os olhos fechados, deslizando os dedos pelas teclas, destilando todo o seu coração e transformando-o nas melodias da alma.


Já fazia alguns dias desde que ele não olhava para outra coisa que não fosse o piano. Era bem grande e ocupava quase metade da sala de estar. A madeira envelhecida estalava vez ou outra nos finais dos dias quentes, e permanecia mudo no restante da madrugada. Aquele piano, o meio que ela havia descoberto para dar voz aos seus sentimentos, permaneceria mudo para o todo sempre.


Para. Sempre.


Ele se levantou e caminhou até a frente do instrumento. Não ousou sentar-se no banco, muito menos tocar alguma das teclas. Apenas caminhou até a sua frente e ficou ali, parado, tentando captar no ar algum resquício daquele sentimento que, segundo ela, era tão poderoso que podia transpassar qualquer barreira. Inclusive as do tempo. Mas não. Ele não sentia nada.


E talvez não fosse sentir nunca mais. Só o vazio silencioso.


Para. Sempre.


Lá fora as árvores balançavam com o vento, como se dançassem ao som de uma melodia que apenas elas escutavam. A melodia da vida, quem sabe. Ele não saberia dizer, e também não se importava, já que a melodia que ele tanto queria ouvir nunca mais tocaria o seu coração.


A escuridão da noite também parecia ser uma entidade viva naquele quadro melancólico. As sombras das árvores se moviam em sintonia com elas, como se fossem parceiros de dança que jamais se tocariam. As árvores e suas sombras estavam fadadas a passar a eternidade de frente uma para a outra, dançando a mesma música, seguindo cada um dos passos, mas sem jamais sentir o toque do amor e de união que as mantinha ali.


Ele já sentira o toque de sua mãe. Ele a amava mais do que tudo, e ela, idem. Ele se lembrava das vezes em que, quando criança, acordava de um pesadelo e corria até a cama dela para ouvir sua voz doce e tranquilizante. Ela o beijava na testa e prometia que os sonhos já tinham ido embora. E era verdade.


Agora, com o cessar de seu último sopro, com a tranquilidade de sua respiração se extinguindo, jogando-a no infinito mar da morte, o seu toque, o seu amor, a sua voz, as melodias da sua música, estavam presas para além do véu da vida.


Ele estava sozinho.


E a pressão da saudade continuava vindo de todos os lados, mas, em especial, de dentro para fora.


Olhou para fora novamente, buscando satisfazer-se com o balé das árvores. No entanto, para completar a grande obra, uma nuvem passou a frente da lua, trazendo ao Todo a morte das sombras. As árvores também estavam sozinhas, dançando com a ausência de suas parceiras.


E isso rasgou o caminho que ligava o seu coração aos olhos. As lagrimas desceram amargas. Amargas. Solitárias e amargas.


Ele sentou-se no banco. Sentiu o toque do vento gelado que invadia a sala através de uma fresta da janela aberta. Mas não se importou. Ele precisava senti-la novamente. Sentir uma última vez. Sentado em frente do velho piano, sob a luz dourada de uma vela que ardia numa mesa ao lado, ele descobriu que o infinito era ainda maior. Ele não conseguia transpor a barreira do tempo. Talvez nunca fosse conseguir.


Talvez?


(Porque não tenta?)


Seus dedos caminharam pelas teclas com suavidade e calor. O vento insistia em encontrar seu caminho até o interior da casa. E ele tocou. Tocou com amor, com saudade, com ferocidade e serenidade.


Ele tocou as melodias de sua mãe, sentindo as lagrimas silenciosas se tornarem sussurros de uma voz engolida na prisão que era sua garganta. Queria gritar. Chamá-la de volta à vida. Pedir por seu abraço, pelo seu carinho. Mas não podia. Ela nunca mais ouviria a sua voz, assim como ele jamais ouviria a sua.


Mas, quem sabe, a melodia não tenha algo a mais?


Quanto vento… som…


As batidas do seu coração ensurdeceram seus sentidos. Apenas a melodia vibrava em cada canto de sua alma.


— Por favor… por favor…


E então, ele ouviu as batidas.


Mas agora, mesmo querendo aquilo acima de tudo, sabia que, talvez, algo havia sido encontrado.


E ele chorou, tocando o amor com os sons da eterna melodia.

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