Alex Barbosa e as representações do monstro no Cinema

Alex Barbosa é doutor em Cinema, Arte e Cultura pela UERJ, sempre foi fascinado pelo gênero de horror/terror e através de seu mestrado começou a desenvolver essa curiosidade, sendo consolidada no doutorado. O que possibilitou nesse ano a criação da obra ganhadora da categoria Não Ficção do Prêmio Darkside: ‘O Monstro no Cinema’.




Chegamos ao fim dessa edição especial de entrevistas com alguns dos ganhadores do Prêmio Machado que foi realizado pela editora brasileira Darkside. Sendo os entrevistados anteriores o quadrinista Rafael Calça e a cineasta Jessica Gonzzato. Nessa matéria recebemos o doutor em Cinema, Arte e Cultura Contemporânea Alex Barbosa, ganhador com a obra ‘O Monstro no Cinema’ na categoria Não Ficção.


Alex Barbosa é professor universitário, roteirista, filosofo, especialista em psicologia forense e um pesquisador de Itabuna, BA de 38 anos. Grande estudioso do audiovisual, Alex colabora como consultor, roteirista e pesquisador para a produtora brasileira Mirenax Produções. Dirigiu um longa documentário sobre Cineclubes para a TVU. Publicou alguns artigos em Portugal e têm um livro sobre cinema David Cronenberg em revisão pela editora Mondrongo, ainda não publicado.


Quando perguntado sobre o processo e tempo de escrita para o concurso Machado, Alex relata que mesmo em um tempo relativamente curto ele conseguiu trabalhar na obra de forma bem gradual, já que o autor utilizou de suas pesquisas passadas, especialmente as do meio acadêmico. Alex aponta que o contato com as obras de filósofos como José Gil, Cioran, Deleuze, Umberto Eco, Muniz Sodré; além de escritores como Allan Poe, H.P. Lovrecraft, Victor Hugo, Machado de Assis e o imaginário do horror e da teratologia, contribuíram de forma extremamente significativa para a escolha do tema. “Dito isto, é importante ressaltar que o interesse pelo corpo “reimaginado”, o corpo abjeto, o corpo monstruoso, me acompanha desde muito jovem.


O cinema por diversas vezes cria releituras, retomando temas e buscando referências em outras artes e conceitos. O slashers (subgênero de horror que quase sempre envolve assassinos psicopatas que matam aleatoriamente) por exemplo, foi muito importante e utilizado na década de 80, mas não se limitou a somente aquele período; durante a mesma época pôde ser observado as criações de David Cronenberg (cineasta canadense) que fugiam dessa linha e apontavam um caminho à frente de sua época para o cinema. Olhando para o audiovisual contemporâneo a linha de raciocínio faz um caminho inverso, já que utiliza de elementos psicológicos da década de 60 e 70, como nas produções de “Hereditário”, “Mãe”, “Corra”, “Midsommar”, dentre outros; utilizando também de elementos do chamado “cinema extremo europeu”, o que nas palavras do pesquisador se concluí que: “Ou seja, não é exatamente uma “nova onda”. É um resgate do gênero, uma reconfiguração e um trabalho com elementos diversos de cinemas diversos, por assim dizer. [...] O importante é perceber um maior alcance desta forma de fazer “horror” que vem se desdobrando daqui e apontando para um futuro próximo, inclusive no cinema brasileiro.”




Sobre a experiência ao participar do concurso Machado da Darkside, Alex nos conta que foi algo impactante e transformador, porém tortuosa. : “Foi uma experiência maravilhosa e tortuosa, para dizer a verdade (risos). Toda escrita, do meu ponto de vista, é um experimento doloroso, que termina com um prazer justo.” E completa dizendo que é maravilhoso se trabalhar com algo que se gosta. Diante disso, o pesquisador relata os deslumbres e os ‘percalços’ de se trabalhar com cinema no Brasil mesmo se fazendo o que ama. Que vão desde ao mercado cinematográfico, passando pela cultura de um audiovisual mais próximo das telenovelas e chegando até o movimento de capital que envolvem toda a indústria cultural, incluindo o cinema. Mesmo havendo uma produção bastante plural e massiva, o que se chega ao expectador brasileiro é pouco, só uma pequena porção comparada a toda quantidade produzida. Além de que essas mesmas pequenas porções quando chegam ao povo são produções massivas e com pouco cuidado artístico e autoral. O doutor em Cinema complementa que: “O que resulta numa repetição de estéticas e temáticas que acaba por moldar uma opinião injusta acerca do nosso cinema. E esse fator está diretamente relacionado a estas narrativas “novelescas” ou “romanescas” pouco sofisticadas, que pouco ousam.”


Alex, ressalta que no Brasil se faz muito cinema de ótima qualidade todos os anos, como Bacurau, por exemplo. E diz que uma boa saída para o audiovisual são as plataformas de streaming, pontuando que o cinema e os realizadores (em especial aqueles mais periféricos e autorais), tem feito muito para resistir e ampliar seu alcance. Há muita potência entre os realizadores. Sendo o atual cenário político, o maior obstáculo tanto para o cinema quanto para a cultura no Brasil.


Mesmo com esses problemas, o professor deixa um recado para aqueles que amam cinema e que sonham em produzir e estudar essa técnica. Ele diz sobre se desenvolver além da universidade, já que ela mantém alguns padrões que possam ser mais fechados, o mercado em si cinematográfico no país é mais fechado. Então, o caminho a se tomar seria através de cursos profissionalizantes, com mais práticas, como de vídeo, fotografia ou edição; por mais que existam algumas produtoras no Brasil de cinema independente, como a Mirenax e a Canibal Filmes, a maioria é permeada por padrões mais fechados, sem a abertura de novos membros que não sejam apadrinhados.


Existe um outro caminho para quem estuda cinema na universidade, que é a área acadêmica, sendo o melhor caminho o cinema independente. Alex, pontua: “Se, de fato, existe amor pelos estudos de cinema, se é o que te move, faça. Realize seus filmes independentes de mercado e universidade. Entre na universidade se estiver consciente das limitações e não espere muito do mercado.” Aos escritores, o autor ressalta que eles devem escrever diariamente, mesmo não tendo ideias relevantes; e que o façam com vontade e pensem como um possível meio também para se manter na vida.


Alex por fim, nos fala de suas perspectivas pós o concurso Machado, que estão em ampliar a carreira acadêmica, entrando em um pós-doutorado; na criação de mais filmes em 2021 para a produtora Mirenax que dialogam com as temáticas expostas no livro e na Darkside. Falando sobre a publicação de obras, Alex nos conta que tem mais duas obras para propor a editora Darkside, algo que ele fará aos poucos, pontuando que: “O que tenho em mente, e de maneira mais direta e objetiva é lançar o primeiro livro pela Darkside e me tornar, de fato, um membro da família, com a possibilidade de lançar os próximos livros também pela editora.”


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