As tatuagens de Wapukary, por Nilo Nobre


Arte feita por Sara Giane (@letrasepinceis)

As pessoas enlouqueceram e começaram a se atacar. Está um caos lá fora. Estão liberando todo seu ódio uns com os outros. Mesmo aqueles que sempre foram tranquilos, agora extravasam seu rancor neste clima de violência generalizada. É matar ou morrer.


Tudo isso por causa de uma tatuagem. Não é de hoje que a sociedade capitalista se apropria de elementos culturais de outros povos e os transforma em mercadoria. Há muito rancor envolvido. Ouço batidas na porta. Estão vindo atrás de mim também.


Começou quando um certo youtuber passou a fazer propagandas sobre a pintura corporal de uma tribo em vias de extinção. A ideia era fazer com que aqueles costumes fossem mostrados para o mundo, para preservar o legado cultural daquele povo.


O mundo da moda, assim como os brancos progressistas preocupados com a situação, voltaram seus olhares piedosos para aquela situação. As tatuagens traziam consigo uma expressão de poder cultural, uma forma de canalizar suas energias para superar obstáculos e inimigos.


Restava apenas um representante daquele povo ancestral e guerreiro, que usava as tatuagens para vencer seus inimigos na guerra. Segundo as lendas, seu povo nunca foi derrotado no campo de batalha.


Imagine quanta publicidade foi gerada em torno das tatuagens da invencibilidade. Foi um sucesso estrondoso. Todos os grandes tatuadores da High Society foram até o último portador daquele conhecimento para aprender a reproduzir os padrões das pinturas corporais. Assim como vários pequenos tatuadores desenvolveram versões “caseiras”, ao ver as reportagens e os programas do mundo fashion. Foi uma febre.


O que não imaginavam é que as tatuagens eram usadas por aquele povo ancestral para canalizar as energias destrutivas de Wapukary, seu antigo deus da guerra. Havia um ritual para canalizar a quantidade certa de negatividade e aplicá-la nas tatuagens. Os guerreiros, então, adquiriam uma vontade obsessiva de destruir tudo que causava-lhes raiva. Geralmente, direcionavam-na para seus inimigos, mas podia acontecer de alguns guerreiros manterem rancores entre si, e a raiva obsessiva de Wapukary os impulsionar a descontarem uns contra os outros, não importando se eram da mesma comunidade. Todas as mortes causadas eram consideradas oferendas para este deus guerreiro.


Você consegue imaginar esse tipo de energia correndo pelo corpo de milhares de pessoas, em uma cidade grande? Acrescente a isso ao fato de não ter o ritual de controle da obsessão odiosa de Wapukary. O resultado são milhares de pessoas inconformadas com suas vidas, odiando profundamente quase todos à sua volta: o carteiro que não chega, o serviço burocrático que atrasa sua vida, o guarda de trânsito que aplica-lhe multas, o próprio trânsito e vários pequenos eventos cotidianos que tiram-lhe do sério todos os dias. A sociedade ocidental sempre pareceu uma grande panela de pressão, cheia de sentimentos negativos reprimidos. Agora, ela está explodindo.


Como era de se esperar, os portadores das tatuagens passaram a atacar tudo aquilo que odiavam, com qualquer coisa que estivesse ao alcance da mão ou com as próprias mãos. Nesse frenesi de fúria, a sociedade entrou em uma espiral de caos. Aqueles sem tatuagem precisam se defender de seus agressores. E, este é o clima lá fora. Acabo de ouvir meus perseguidores arrombando a porta.


Onde quer que estejam, olhem por mim, ancestrais. Vou fazer Wapukary ficar ainda mais orgulhoso com seu último filho. Finalmente os brancos vão pagar pelo que fizeram com nosso povo.


Conheça Nilo Nobre


Nilo Nobre é um escritor e aprendiz de quadrinista graduado em História pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), mestre e doutor em Arqueologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).


Qual sua área de formação e de que forma a academia auxiliou a sua escrita?


Sou graduado em História e Mestre e doutorando em Arqueologia. Aprendiz de quadrinista e, agora, de escritor. A vida acadêmica me ajudou a desenvolver mais o hábito de ler. A gente sempre tem que ler uma infinidade de artigos e livros durante a graduação e mestrado, doutorado nem se fala. Além disso, acredito que o exercício que fazemos nos TCCs também ajudam. Você escrever uma tese de 250 páginas dissertando sobre um assunto é uma tarefa que te ajuda a compreender um pouco sobre como estruturar um texto. Mas a grande diferença é que são formatos diferentes, né? A estruturação da literatura em seus vários gêneros é distinta da escrita acadêmica. É isso que quero aprender agora.


A gente sabe que você atua tanto na área da escrita quanto da ilustração, qual delas te atraiu primeiro e de que forma você começou?


Eu já desenhava antes de 2017, mas era algo muito de hobby. Nunca tinha parado para estudar fundamentos como anatomia, perspectiva, luz e sombra etc. Em 2017 eu só estava no mundo acadêmico mesmo. Mas com o agravamento de certas pautas reacionárias eu tive vontade de fazer uma história em quadrinhos sobre História do Ceará, baseada em documentos históricos. Minha vontade era de publicar e distribuir gratuitamente em espaços públicos de leitura.


Fiz a HQ e fui procurar uma editora. Aí foi que a jornada começou. Um editor fez uma avaliação do material e me sugeriu que atentasse para algumas questões que não estavam do agrado dele. A partir daí eu comecei a procurar cursos de desenho e de quadrinhos. Nos cursos de quadrinhos fui aprendendo sobre roteiros e isso também foi chamando minha atenção. Agora no começo de 2021 é que fui de fato enveredar pela área da escrita


Com quais gêneros, temáticas e elementos você mais trabalha nas suas historias?


Por gênero eu ainda não sei dizer especificamente. Gosto muito de suspense e terror nessa linha do pós-terror que discute questões como racismo. Como aquele livro Território Lovecraft, ou como os filmes do Jordan Peele.


Para começar a escrever, eu primeiro busco alguma discussão atual que acredito que seja importante, depois penso em uma narrativa que sirva de metáfora para essa discussão. Gosto muito de trabalhar com subtextos. E quero muito aprender a fazer melhor.


Uma das primeiras obras que me chamou a atenção nesse sentido foi a série de Mangá "Uzumaki - A Espiral do Horror" escrita e ilustrada por Junji Ito. A edição da editora Devir que saiu aqui no Brasil traz um extra que é fantástico. Um texto do escritor e ex-diplomata Masaru Sato, mostrando como aquele mangá representa o contexto socioeconômico japonês da década de 1990. Isso explodiu minha cabeça.


Sei que obras de terror sempre foram utilizadas para passar mensagens específicas, mas os exemplos mais conhecidos, em sua maioria, trazem mensagens mais conservadoras. Como em sexta-feira 13, por exemplo, onde o Jason pode ser entendido como uma doença que mata os jovens que fazem sexo. Uzumaki foi a primeira vez que vi como uma obra de terror também poderia trazer uma mensagem mais subversiva.


Acho que o próprio Junji Ito é um cara que tem uma história muito curiosa. Ele era assistente de dentista e resolveu fazer mangás. Hoje é um grande nome do mangá de terror no mundo todo.


Quais autores e ilustradores você toma como exemplo?


Somos bombardeados por tanto conteúdo que é muito difícil pra mim saber quem me influencia diretamente. Gosto muito da estética de mangás clássicos como Blade - A lâmina do imortal, Lobo solitário e Vagabond, mas não desenho nada muito parecido com nenhuma dessas. Ou, pelo menos, não ainda.


Em relação à escrita, acho que os autores que mais admiro na atualidade são o Neil Gaiman e o Alan Moore. Gosto demais da forma como eles conseguem abordar alguns subtextos em suas obras. Quando li o Monstro do Pântano do Alan Moore compreendi um pouco mais sobre o gênero gótico e achei muito legais as discussões sobre lixo radioativo, armamentismo e exploração da natureza que ele conseguiu colocar dentro daquela história de super-herói.


Quando você sente que foi o seu momento de maior evolução?


Acho que está sendo agora. Tenho aprendido muita coisa depois que entrei em grupos de escritores. Tenho lido bastante sobre como escrever melhor. Recentemente, li duas Hqs fantásticas. O Soldador Subaquático do Jeff Lemire e Desaplanar do Nick Sousanis. Eles expandiram minha compreensão sobre como escrever melhor pode me ajudar a fazer boas HQs e sobre como posso aumentar o significado dos textos a partir de desenhos.


Quais os seus objetivos e projetos, agora em 2021?

Atualmente só sei que quero continuar aprendendo e desenvolvendo tanto a escrita quanto os desenhos. Ainda não pensei em um objetivo específico que pretendo alcançar com essas habilidades. Por enquanto é aprender mesmo.


Acredito que ainda estou em processo de completar o que comecei com a HQ de História do Ceará. Quero escrever textos e desenhar histórias que tragam discussões que são legais para pensarmos nossa realidade. Um exemplo que acho que ilustra bem seria a série "Pensadores e cultura pop" que comecei no Instagram. A ideia era apresentar alguma ideia de um pensador ou filósofo e mostrar essa ideia em filmes/séries.


Dei uma pausa nela porque o prazo que decidi ficou muito apertado. Queria lançar toda quinta, mas a quantidade de leituras precisava ser grande e tinha que ter tempo para ver filmes/séries que possivelmente tivessem alguma discussão relacionável.


Tem algo que considera essencial no processo criativo?


No meu processo criativo tenho buscado partir de uma ideia que me pareça uma discussão que deva ser feita. E a partir daí, pensar em uma narrativa que passe essa mesma ideia, mas de forma mais sutil. Ao longo do processo de escrita algumas coisas vão mudando, mas ter essa ideia do sobre o que você quer falar, me ajuda muito. Acho que um exemplo bem legal disso é uma pequena história que publiquei no Medium que é sobre vírus. Eu fiquei um pouco impaciente com essa história de que ciências humanas são diferentes das outras e resolvi fazer uma pequena história em quadrinhos mostrando como a biologia pode ser usada para discutir temas das ciências humanas


Quer ler mais obras do Nilo Nobre? Conheça seu Medium e seu Instagram



Ilustração por Sara Giane

Entrevista por Filipo Brazilliano

Edição de Elisa Fonseca

Revisão por Vitor Luiz de Andrade Rosa

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