Ataque implacável, por Ilma Pereira

Atualizado: 14 de dez. de 2021

Estava eu convidando os clientes da Leitura, uma livraria de um shopping, para um bate-papo com quatro escritoras de Belo Horizonte, quando vi duas moças em apuros. Gritavam desesperadas. Então, me aproximei e percebi que estavam sob ataque. Das prateleiras altas da seção de presentes, bichos de pelúcia caíam sobre elas.


Colagem digital feita por Filipo Brazilliano

Estava eu convidando os clientes da Leitura, uma livraria de um shopping, para um bate-papo com quatro escritoras de Belo Horizonte, quando vi duas moças em apuros. Gritavam desesperadas. Então, me aproximei e percebi que estavam sob ataque. Das prateleiras altas da seção de presentes, bichos de pelúcia caíam sobre elas.


Vendo a situação, aproximei-me para ajudá-las a se livrar de tão forte ofensiva, quando o maior deles — que me pareceu ser o mandachuva — caiu sobre mim, imobilizando nós três.


Ficamos soterradas por tão fofos bichinhos, mas sem nos atrever a mexer, com pena de provocar uma hecatombe de mais e mais peludos.


Naquele átimo, lembrei-me de um filme que assisti tempos atrás, sobre bichinhos terríveis que se multiplicavam medonhamente se expostos à água. Senti como se fizesse parte de tal roteiro terrível e assustador.

Respirei fundo e me atraquei com meu contendor. Ele tinha meio metro a mais de altura e um peso inesperado para urso de pelúcia. Que pais dariam tal monstro para o filho? Fiquei imaginando uma linda criança sendo soterrada por um urso 10 vezes o seu peso e tamanho…


Mas o bicho era bom de briga, escorregava de minhas mãos que tentavam, em vão, agarrá-lo. Minhas duas parceiras estavam às voltas com muitos, mas pequenos peludinhos, que também fugiam de suas incautas mãos!


A coisa começou a sair do controle quando percebi que aquela cena grotesca chamava a atenção de muitos clientes da loja. Para piorar, veio-me uma crise de riso que só me assalta em momentos espúrios assim, mas ninguém pensou em nos ajudar. Pelo contrário, achavam graça no grotesco da situação: três moçoilas lutando contra uma legião de bichos peludos enlouquecidos!


Vendo que ninguém nos salvaria, olhamos umas para as outras e, num esforço hercúleo, alçamos para as prateleiras mais altas os bichanos assanhados.


Finda a batalha, convidei as duas colegas de labuta para participarem de um bate-papo sobre Literatura.


Quando me apresentei como escritora, me olharam estranho e pude ver passando por suas mentes o motivo provável de tal ataque insano. Teria sido premeditado pelo urso chefe maior? Mas que me conste, nunca em meus escritos o ofendi, nem a nenhum de seus parentes…


Despedi-me das meninas, ajeitei meus cabelos e roupas em desalinho — a briga foi boa — e olhei, já do alto da escadaria em segurança, para a prateleira forrada de bichos de pelúcia. Pareciam tão pacíficos e sorridentes! Ia me virando, quando percebi um leve movimento do dedo médio do urso maior, ou teria sido impressão minha? Vai saber.


Conheça a autora


Ilma Pereira é mineira, apaixonada por literatura, e formada em Letras. Foi professora de Língua Portuguesa por muitos anos. Estreou no meio literário em 2019 com o livro: " Entre risos e sustos - Crônicas divertidas de sala de aula". Lançou, em 2020, seu segundo livro: "O afilhado do capeta e outros contos". Já participou de algumas antologias poéticas e de contos. E em 2020, foi a vencedora de um Reality Literário: Best Sellers Brasil.


Ilma, pode nos contar quando decidiu se aventurar pelo mundo da escrita?

Eu lancei meu primeiro livro em 2019. Aposentei como professora para começar minha carreira de escritora. Mas desde criança eu sempre gostei muito de ler e de ouvir histórias, então chegou o momento que as histórias começaram a transbordar de mim e precisei colocá-las no papel.


De que forma a sua profissão de professora interferiu em sua obra?

Ser professora foi algo que eu vivenciei vinte e quatro horas por dia durante trinta e dois anos. Eu amava ser professora. Então, como professora de Língua Portuguesa eu tinha que estimular meus alunos a ler e escrever, mas a mesma atividade que eu passava para eles de escrita, eu também fazia. Isso fez fortalecer o gosto para registrar meus pensamentos, minhas histórias, minhas angústias... Eu trabalhava com os alunos a escrita em um caderninho. Até hoje escrevo neles, tenho vários caderninhos cheios com os textos para os meus futuros livros.


Porque escolheu escrever crônicas e contos?

No ambiente da sala de aula da escola onde eu ficava, eu vivia e presenciava situações hilárias, que precisavam ser contadas. Escolhi contos e crônicas curtos porque retratam situações do cotidiano.


Quais pontos comuns você percebe que permeiam a sua obra em geral?

A temática é o ser humano e suas múltiplas facetas. Ninguém é perfeito olhando de perto, cada um tem suas idiossincrasias, suas loucuras, suas manias. Eu gosto de explorar também a reação das pessoas frente a situações inusitadas, aquelas que te pegam de surpresa e te puxam o tapete. Então, os elementos com que gosto trabalhar são as emoções, porque elas mostram nossa humanidade. Quando o leitor se emociona, se identifica ou se indigna com um comportamento de um personagem, fico felicíssima, alcancei meu objetivo: mexer com a emoção das pessoas a partir da ação de um personagem.


Quais autores e obras colaboram com a construção das suas histórias, Ilma?

Machado de Assis, Clarice Lispector, Jorge Amado, Toni Morrison, Raquel de Queiroz, Richard Bach, Cecília Meireles, Fernando Sabino, Marion Zimmer Bradley, Érico Veríssimo, Luis Fernando Veríssimo, Carolina Maria de Jesus, José Saramago, Fernando Pessoa, Thomas Hardy, Eduardo Galeano, Nicolai Ostrovski, Fiódor Dostóievski, Mia Couto, Chimamanda Adichie… Devo ter me esquecido alguns.


Como funciona seu processo de criação e pesquisa das histórias?

Acredito que todos nós temos retido dentro de nós armazenadas, milhares de histórias: aquelas que nós lemos, aquelas que nós ouvimos, aquelas que nós vivenciamos e aquelas que nós inventamos. Então, o meu processo de criação começa por aí, nas histórias que a minha cabeça elabora. A partir do momento em que eu decido sobre uma história, começo a pesquisar a respeito. E eu gosto de buscar as pessoas que podem ter vivido uma situação semelhante, porque elas te contam com a emoção de ter vivido aquilo.


Em que você se inspirou para fazer o conto “Ataque implacável”?

A história em parte foi verdade. Eu fui participar de um bate-papo com algumas escritoras e, em determinado momento, ao convidar as pessoas a participarem do evento, vi uma estante com aqueles bichos de pelúcia imensos. Fiquei pensando assim: gente, se esses bichos caem em cima de alguém, mesmo tão fofinhos, eles vão fazer um estrago. Daí eu criei o resto.


Conta um pouco sobre o processo de escrita desse romance, atualmente?

Bem, eu me lancei nessa jornada de escrever um romance e tem sido assim: muito interessante e um pouco assustador. Às vezes meus personagens tomam a caneta da minha mão e me contam coisas que eu nem tinha imaginado, noutras eu tenho que montar um verdadeiro quebra-cabeças para a história caminhar. Enfim, eu estou amando essa experiência.


Conto de Ilma Pereira

Revisão e edição por Elisa Fonseca

Arte de vitrine por Filipo Brazilliano

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