Banalidade do Mal e a força do cinema nacional de alta qualidade


A questão das séries brasileiras serem mais valorizadas pela mídia internacional do que pelo próprio público nacional apresenta diversos pontos de vistas diferentes. No entanto, o que é fato é que o recente lançamento (05 de janeiro) da minissérie brasileira "Banalidade do Mal", distribuída pela plataforma Prime Box Brasil, mostra a potência e a alta qualidade do audiovisual nacional e, por isso, deve o nosso devido reconhecimento.

Da esquerda para a direita: policial Renata (Aline Jones) e Postiga (Vinícius Ferreira).


A série é do gênero policial e possuí seis episódios. As cabeças criativas desse projeto são Fabio Canale, um montador e diretor de filmes que já trabalhou em diversos projetos, como a novela Doce de Mãe da TV Globo. Assim como Guilherme S. Zanella, roteirista que escreveu com maestria a proposta do enredo investigativo da série, conjugando as tramas pessoais dos personagens no entorno da premissa principal:

Três policiais tentam achar a conexão entre diversos homicídios ocorridos na cidade e que parecem se ligar ao próprio envolvimento da polícia.


Os personagens principais são Daniel (interpretado por Jiddu Pinheiro) e Renata (Aline Jones). Um terceiro policial que atua como coadjuvante é Postiga (Vinícius Ferreira). Seus maiores conflitos desenrolam-se entre resolver, a todo custo, ou não, os casos de homicídio ligados ao seu próprio departamento policial.


O desenvolvimento do personagem de Daniel é bem elaborado e executado, no entanto é o brilhantismo de Aline como Renata que sobrepõe-se. A atuação de Jiddu Pinheiro como o policial Daniel é potencializado pela excelente manipulação da imagem e do som, que nos faz adentrar o seu estado de espírito e nos leva a questionar o que ele esconde, além de ser um policial bonzinho tentando desvendar crimes hediondos a todo custo. A sua má gestão familiar e o seu papel de pai são postos a prova quando seu trabalho se torna um fardo que atormenta a ele e a filha. Já o arco da personagem Renata desenrola-se através de um caso de abuso doméstico de seu pai com sua mãe. Toda a questão nos é apresentada sem que seus pais apareçam na tela, mas manifesta-se através de sua irmã mais nova, que vai morar com Renata para a pedir ajuda. Uma das cenas mais fortes da série, sem dúvidas, é a conversa em que ambas têm e fica clara: a banalidade da força pública com relação aos casos de denúncia de violência doméstica.

O nome da série trata-se do conceito da escritora e filósofa judia mundialmente conhecida, Hannah Arendt. A autora escreveu o livro “Eichmann em Jerusalém”, onde defende que a massificação da sociedade impede os julgamentos morais e faz com que as pessoas aceitem as ordens sem questionar. A série, como a premissa já nos entrega, trata justamente desse tema, ou, desses crimes aos quais somos cúmplices.


A ordem tratada é a pressão do governo por números de eficiência, ou melhor, inquéritos resolvidos. A principal personagem que caracteriza a banalidade do mal na série é a chefe de policia Martha, dramatizada pela atriz Liane Venturella de forma formidável. Ela pressiona os três policiais a fecharem o inquérito do homicídio de um suposto policial que fora morto por onze balas e portava dez mil reais consigo. Isso ligado ao assassinato também de toda uma família, mesmo quando uma mesma arma com o código de impressão raspada fora achada nos assassinatos investigados.



O que farão os três policiais, cederão ou não, em prol de suas carreiras?



Conheça Guilherme Zanella



Guilherme Zanella, o roteirista da série, é formado em Realização Audiovisual. Construiu boa parte de sua carreira ainda em Porto Alegre, mas mora em São Paulo. Com o foco em roteiro de ficção, o autor também trabalhou em documentários como "Cidades Fantasmas", destaque que ganhou a categoria de "Melhor Filme" no festival "É Tudo Verdade", em 2017.


Conta um pouco sobre o "Cidades Fantasmas" para nós?


"Cidades Fantasmas" é um longa documental que se tornou uma série do Canal Brasil, um projeto que desenvolvi quando fiz parte do núcleo criativo da Casa de Cinema de Porto Alegre, tendo contato direto com profissionais que sempre admirei - Giba Assis Brasil, Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo. Tenho um imenso carinho pelo processo, pela equipe, por tudo. O documentário foi dirigido pelo Tyrell Spencer, meu amigo de longa data e diretor que admiro muito, e escrito por mim em parceria com a Carolina Silvestrin, em uma co-produção entre Galo de Briga Filmes, Casa de Cinema de Porto Alegre, Globo Filmes e GloboNews. Recebi convites para trabalhar em outros projetos documentais, como roteirista e assistente de montagem, mas sempre estive focado em escrever ficção.


Eu até fui roteirista de alguns trabalhos na ficção antes do "Cidades Fantasmas", mas acredito que o segundo maior projeto na minha vida, até então, foi o "Banalidade do Mal", a terceira série que eu escrevi e o primeiro projeto em colaboração com o Fábio Canale, diretor e criador.


O termo "banalidade do mal" foi usado pela autora Hannah Arendt no livro "Eichmann em Jerusalém", isso foi uma inspiração do roteiro?


Isso, exatamente. Quando o Fábio levou a ideia do projeto para a nossa produtora na época, a Galo de Briga, não havia ainda uma ligação temática com o conceito da Hannah Arendt. Alguns elementos já estavam ali, mas sentimos falta de ligá-lo a um tema maior, que dialogasse filosoficamente com a nossa sociedade. Sugeri que nos inspirássemos justamente nesse conceito de banalidade do mal, que envolve o esvaziamento do indivíduo, que permite ser guiado por ordens superiores. O verdadeiro "lavo minhas mãos". Isso leva a consequências desastrosas, como bem sabemos.


Quais elementos e temáticas que você gosta de trabalhar dentro dos seus roteiros e produções em que se envolve?


Gosto de trabalhar com elementos autobiográficos. O cinema, pra mim, é quase uma terapia. Normalmente eu revisito questões recorrentes da minha infância e adolescência, como fiz no "A Vida Bruta dos Animais do Céu", um roteiro que trata de abandono paterno. Não posso dizer que o "Banalidade do Mal" teve relação autobiográfica com a minha vida, mas certamente busquei questões temáticas e elementos que fizessem sentido para as minhas afinidades e competências como roteirista. Gosto muito de trabalhar contrastes sociais e questões familiares em todas as minhas obras, como famílias e indivíduos que passam por abandonos, problemas de conexão, questões mal resolvidas, dentre outras. Essas temáticas fazem parte da minha história e acho que boa parte do que eu pude contribuir para "Banalidade do Mal" veio nessa linha, a de trazer o universo criminal a um local sensível e familiar.


Como funciona a sua produção criativa? Você segue algum método?


Gosto bastante de questões sobre processo. Como roteirista, a gente acaba aprendendo métodos e desenvolvendo alguns modelos de trabalho, seguramente. O que eu tento fazer é não permitir que o processo acabe muito "verticalizado", tomado por funcionalidades de métodos. A divisão de atos, a unidade dramática, a construção de plot, tudo isso faz parte, mas a cada etapa do processo eu preciso fazer pequenas pausas, revisitar questões instintivas. Caso contrário, a obra acaba facilmente se tornando algo previsível ou mesmo engessada.


Sempre trabalho em núcleo, o que ajuda demais. Desde a época da Galo de Briga até hoje, com o Writer's Room 51, trabalhar em conjunto com outros criadores faz parte da metodologia de trabalho. Eu divido tudo com a Jéssica, com o Fábio, com todo o pessoal que faz parte das nossas salas e isso faz toda a diferença. Sobre a inspiração,


Onde busca inspirações para os seus projetos?


Acho que em primeiro lugar na própria vida, mas em segundo nas pesquisas. Aprendi com o documentário a fazer entrevistas e pesquisar bem os temas, mesmo para desenvolver ficção. Entrevistamos policiais para fazer o Banalidade, mas também fiz muita pesquisa de locação para outros projetos de ficção. Acho que não há nada mais inspirador do que a própria vida, sinceramente.


Tiveram receio pela temática de "Banalidade do Mal"?


Falar sobre milícia e corrupção na Polícia Civil é bem complicado no Brasil de 2020/2021. Tivemos receio quando foi anunciada a data de estreia, mas recebemos alguns feedbacks positivos que nos deram um novo gás.


Quais os seus projetos atuais?


O projeto de ficção que venho desenvolvendo atualmente tem como título provisório "A Vida Bruta dos Animais do Céu". Com esse roteiro eu pude participar de laboratórios de desenvolvimento nacionais e internacionais. O roteiro agora está com a Abrolhos Filmes, produtora do projeto e tem Beatriz Seigner como diretora. Estamos captando recursos e participando de eventos internacionais com ele atualmente.


E vale destacar que nesse meio tempo eu criei, junto com a Jessica Gonzatto, o núcleo de roteiro Writer's Room 51. Estamos com projetos próprios, alguns com parceria com produtoras, outros ainda independentes. Também nos dedicados a dividir materiais sobre roteiro e entrevistas com roteiristas brasileiros.


Qual a história de "A Vida Bruta dos Animais do Céu"?


É sobre um menino, Hugo, que prestes a completar 11 anos de idade, segue viagem para a vazia cidade de Tavares, no litoral gaúcho, com a promessa de conhecer o seu pai pela primeira vez. Violoncelista desde cedo, Hugo precisa da assinatura do pai para ingressar em uma longa viagem para a Europa com o resto do conjunto instrumental da escola. Enquanto lida com seus próprios sentimentos e questiona questões como família e abandono, o garoto completa a ausência paterna com fábulas que ele cria para si. Hugo passa seus dias na casa de praia da família junto de Rafaella, sua mãe depressiva, Gabriela, sua tia grávida e Michele, o marido de sua tia. Ao mesmo tempo em que aprende as diferentes tensões entre seus familiares, encontra em Ágatha, a aventureira enteada da sua tia, um refúgio para a sua imaginação. Com Ágatha, sua missão é cuidar dos ovos que eles encontram pelo quintal e evitar que eles sejam abandonados.


O que levou vocês a criarem o Writer`s Room 51?


O WR51 nasceu da vontade de reunir talentos, pessoas que conhecemos e autores que queremos conhecer, para pensar o roteiro de forma coletiva. Boa parte da minha carreira como roteirista foi tomada por núcleos de criação e laboratórios de desenvolvimento e eu sempre digo que essas são as melhores experiências para um criador. Na minha opinião, não há melhor lugar para desenvolver habilidades artísticas e trocar experiências. A gente sempre gostou da ideia de criar um local semelhante, um "local" de troca. Não simplesmente uma produtora de desenvolvimento, mas um núcleo democrático, feito por roteiristas e para roteiristas, pensado para ajudar a fortalecer coletivamente os projetos. Inicialmente, pensamos em oferecer conteúdos gratuitos como contrapartida inicial, também uma forma de transformar o WR51 em uma vitrine para os nossos projetos e foi dando certo. Fizemos entrevistas com autores que admiramos muito e vimos o nosso público crescer com o passar do tempo. É um nicho, mas consideramos um sucesso ter o número de seguidores que temos hoje fazendo simplesmente o que a gente gosta, mesmo que não seja um número exorbitante.


Supondo que alguém queira produzir ou desenvolver um projeto na Writer`s Room 51 o que é necessário fazer?


Até o final do ano passado nós trabalhávamos exclusivamente com roteiristas que conhecemos, parte da nossa rede de contatos. Esse ano expandimos a ideia do núcleo, fizemos uma seleção de projetos e hoje estamos desenvolvendo roteiros de pessoas fora da nossa rede, o que é excelente. A gente acaba conhecendo gente nova, novas ideias e leva a nossa marca para fora do nosso pequeno núcleo, acho que fortalece os dois lados da equação. Hoje muita gente manda e-mail demonstrando interesse em participar do núcleo e estamos super dispostos a analisar a possibilidade de abrir outros ciclos, com outros criadores. Então, quem estiver interessado pode enviar um e-mail para contatowritersroom51@gmail.com com duas apresentações, uma pessoal e uma breve apresentação do projeto.


Resenha por: Madu Moreschi

Entrevista por: Filipo Brazilliano

Edição e revisão por: Elisa Fonseca

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