A saga futurista de Blade Runner

Texto por: Rubens Duprat


Blade Runner 2049 é uma das raras continuações que não estragam o filme original. Pelo contrário, é um filme inteligente e profundo, que honra em todos os aspectos o original de 1982, com um visual extraordinário e uma trilha sonora hipnotizante. O enredo novamente apresenta um caçador de replicantes em crescente conflito com sua profissão, desta vez, sob uma nova perspectiva.


Falarei um pouco do primeiro filme antes de voltar ao segundo, a começar pelo seu título.


Embora sejam de fato androides no romance Androides Sonham com Ovelhas Elétricas, de Philip K. Dick, que inspirou o filme original, os replicantes são, nos filmes, criaturas geneticamente modificadas, de aparência e mentalidade humana, compostas inteiramente de substância orgânica. Em outras palavras, são clones. Diferentes dos androides clássicos da ficção, que são basicamente robôs com pele humana, e dos ciborgues, que são seres humanos com partes cibernéticas. Desenvolvidos para realizar trabalhos forçados, alguns replicantes se rebelam, e, por isso, são caçados e “aposentados”, ou seja, exterminados. No fundo, sua história é uma releitura de Frankenstein.


Blade Runner - 1082

O termo “blade runner” também não veio do livro de Dick, mas de um tratamento de roteiro de William S. Burroughs que, por sua vez, era uma adaptação de um outro romance de ficção científica, The Bladerunner, de Alan E. Nourse, sobre uma sociedade em que médicos ilegais contrabandeiam equipamento cirúrgico para tratar de seus pacientes. Sua tradução literal seria algo como “contrabandista de lâminas”. Os direitos sobre o título foram comprados para uso nos filmes apenas por causa de sua sonoridade ameaçadora, de forma que o termo acabou ganhando o significado de “caçador de replicantes”.


Recebendo no Brasil o título Blade Runner - O Caçador de Androides, o filme original não foi um sucesso de bilheteria ao ser lançado, mas, com seu misto de ficção científica e policial noir, logo tornou-se cult, influenciando a origem do movimento cyberpunk. Sua continuação, ambientada 30 anos depois do original e lançada 35 anos depois, surpreendentemente segue o mesmo caminho, decepcionando nas bilheterias mas não na qualidade.


Depois do fiasco de projetos semelhantes, eu mesmo não esperava muito da continuação. Por exemplo, Alien - O Oitavo Passageiro, também de Ridley Scott, ganhou uma prequel décadas depois, Prometheus, e, como o próprio diretor do original conduziu o projeto, esperava-se um resultado de qualidade semelhante, mas não foi o que ocorreu naquele caso. Blade Runner 2049, a princípio, seria igualmente dirigido por Scott, mas ele acabou entregando o projeto para o também excelente Denis Villeneuve, responsável por A Chegada.


A história se baseia apenas nos personagens e na ambientação do filme original, sem recorrer ao texto de Philip K. Dick. Quem escreveu o roteiro foi Michael Green (roteirista de HQs da DC e dos seriados Heroes e American Gods) em parceria com Hampton Fancher, mesmo roteirista do original e responsável por convencer Dick a ceder os direitos de seu romance para aquele filme. Devido a discordâncias entre Fancher, que queria tratar mais da problemática ambiental, e Scott, que preferia se focar nas questões de humanidade e religião, o roteiro do primeiro filme foi finalizado por David Peoples, de O Feitiço de Áquila e Os Doze Macacos.

Foi Peoples, inclusive, quem deu aos replicantes esse nome, já que o diretor queria usar um termo novo. O termo foi sugestão de sua filha, envolvida em microbiologia e bioquímica.


Um outro detalhe interessante é que Peoples foi ainda o roteirista de Soldado do Futuro, um spin-off não oficial de Blade Runner ambientado em Marte, dirigido em 1998 por Paul W. S. Anderson, de Resident Evil, e estrelado por Kurt Russel, de Fuga de Nova York. Este filme saiu um ano depois do videogame Blade Runner, cuja história também ocorre paralelamente aos eventos do primeiro filme, e que teve até a participação de parte do elenco original.


Embora não seja creditado, Scott disse ter contribuído também no roteiro de Blade Runner 2049, mas criticou a longa duração do filme, apontando esse fator como o motivo do fracasso nas bilheterias. Há quem aponte, no entanto, a forma como o filme foi divulgado, apoiando-se principalmente em nostalgia e na base de fãs do original, como o verdadeiro motivo.


O astro Harrison Ford, aliás, é um nome muito ligado à nostalgia atualmente. Ele vem se envolvendo bastante em continuações de seus sucessos dos anos 80, desde o último Indiana Jones, passando por Star Wars e, agora, Blade Runner. E é muito legal ele aceitar fazer parte desses projetos, pois, sem ele, com certeza não teria a mesma graça.


Seu papel desta vez, apesar de importante, não é central. Em vez disso, o protagonista é o personagem de Ryan Gosling, conhecido por ter estrelado o musical La La Land um ano antes, o seriado O Jovem Hércules na adolescência, e, na infância, o show infantil Clube do Mickey, ao lado de Justin Timberlake, Britney Spears e Christina Aguilera.




O novo protagonista percorre um caminho quase oposto ao do personagem de Ford nas "versões do diretor" do filme original. Foi Blade Runner que inaugurou a moda de lançar a "versão do diretor" de filmes em que o estúdio interferiu demais; o diretor lançou sua versão autoral em 1991, com grande impacto, tendo a narração em off do protagonista removida e um final diferente, e, não contente ainda, lançou sua versão definitiva em 2007, finalmente com total liberdade criativa. Essas versões trazem uma importante cena, cortada da versão que foi aos cinemas em 1982, em que um unicórnio de papel faz o protagonista, um caçador de replicantes, ficar em dúvida se ele mesmo é um ser humano ou um replicante. Na continuação, em vez de um unicórnio de papel, temos um cavalo de madeira.


Foram lançados, ainda, três curtas abordando o que aconteceu naquele mundo entre o primeiro e o segundo filme: o anime Blade Runner Black Out 2022 e os live actions 2036 - Nexus Dawn e 2048 - Nowhere to Run, contando, inclusive, com parte do elenco de Blade Runner 2049. Vale a pena vê-los também.



Ainda no elenco do segundo filme estão, entre outros, Robin Wright, conhecida por ter participado de A Princesa Prometida nos anos 80, Forrest Gump nos 90 e, mais recentemente, do seriado House of Cards e do filme da Mulher-Maravilha, aqui como a chefe do protagonista; Jared Leto, o Coringa de Esquadrão Suicida e vocalista da banda 30 Seconds to Mars, como o vilão; e Dave Bautista, o Drax de Guardiões da Galáxia, como um replicante. Do filme original, além de Ford, Edward James Olmos volta no mesmo papel de policial, e Sean Young empresta sua aparência da época, recriada através de computação gráfica, a uma replicante desenvolvida pelo vilão para ser uma sósia de sua personagem original. Rutger Hauer e Daryl Hannah não retornam.


Destaco principalmente as cenas em que aparecem as ruínas de Las Vegas e, mais ainda, as propagandas dos produtos vendidos em 2049, porque os efeitos especiais são espetaculares, mostrando bem a importância daqueles produtos para aquela sociedade.


Curiosamente, um pouco antes do lançamento de Blade Runner 2049, talvez influenciado pelo trailer, eu sonhei que estava vendo o filme, e, no meu sonho, o filme em si era uma experiência interativa e imersiva, futurista como seu próprio cenário. Ou seja, eu não esperava muito do filme, mas pelo visto o meu subconsciente esperava! E, ainda assim, não fiquei decepcionado. Eu diria que é uma das melhores continuações da história do cinema.


Revisão por Vitor Luis de Andrade Rosa

Edição por Elisa do Vale Fonseca

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