Carniça, por Jessica Gonzatto

Atualizado: 21 de jan.

Dizem que toda família tem um cheiro. A família de Fília tinha cheiro de carniça.

Colagem digital produzida por Filipo Brazilliano

As olheiras fundas olham de volta do espelho sujo e desbotado. A sujeira do cabelo meio descolorido, meio escuro nas raízes, reflete a luz esverdeada do banheiro minúsculo. E o fedor. O fedor orgânico acompanha Fília por todo lugar dentro desse ridículo quitinete.


Fília um nome preguiçoso herdado de pais igualmente preguiçosos masca um chiclete sem gosto enquanto ajeita o piercing no nariz. Se bem que, neste específico momento, ela não sabe se o fedor é o mesmo característico dos corpos de sua família ou do piercing inflamado.


Através da porta frágil do banheiro sujo, gritos abafados dos pais de Fília sempre discutindo sobre dinheiro, drogas, seringa, comida que falta. Fília traga o cigarro sujo de batom e apaga-o na cerâmica da pia. "Chega dessa merda".


Fília abre a porta do banheiro com um tranco os gritos estridentes dos pais ficam mais altos. As janelas tapadas deixam só um calor sufocante entrar. Móveis antigos, roupas pelo chão, latas por todo o redor. Nas bocas abertas dos pais de Fília, dentes escuros e dependentes de nicotina e várias outras substâncias nocivas.


Mas o fedor. É um cheiro tão forte de odor corporal, fumaça e, francamente, carniça, que a boca de Fília enche de saliva um mecanismo de defesa da náusea fortíssima que invade seu estômago. "Chega desse nojo".


✽ • ✽


Os óculos de sol todos riscados de Fília reluzem fortemente com o brilho do sol direto do terraço. Seus óbvios 25 anos na carteira de identidade não são tão óbvios quando se trata de seu corpo: magro, pálido, ossudo mas com características pueris. Uma contradição envolta em um maiô de bolinhas. Se não fossem suas raízes escuras no cabelo, Fília poderia se fundir com a neblina e tornar-se invisível.


Ela lê um livro antigo e prepotente ou melhor, passa o olho pelas páginas, com preguiça de iniciar as relações mentais necessárias para de fato ler. O local ao redor é inóspito, com o chão inacabado de concreto. Inacabado como tudo na vida de Fília parte por culpa dela, parte por culpa dos pais, parte por culpa da uma existência compulsória.


Ao longe, acima dos milhares de prédios cinzas, uma nuvem também cinza. Névoa de poluição, tóxica e ameaçadora. "Deve feder também", pensa.


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O sol queima a testa suada de Fília, que já não finge mais ler seu livro vintage. Ela agora fuma um cigarro enquanto observa as nuvens esparsas no céu. Deitada numa toalha velha com cheiro de cachorro molhado, ela pensa em absolutamente nada. A ausência de expectativas na vida preenche o vazio do seu tronco, dos seus braços magros, do espaço craniano entre suas orelhas. A ausência de perspectivas também causa ausência de objetivos, de pensamentos e de escolhas maiores que "qual cor pintar meu cabelo" ou "qual refri comprar". A sobrevivência preguiçosa dos dias é o que ocupa a vida de Fília e seus pais.


A pele dela coça, já avermelhada pelo sol. É quando uma sombra, repentina mas demorada, passa por cima do terraço cinzento, oferecendo um breve momento de alívio a Fília. Grata pela única interrupção dessa manhã sem graça, ela abaixa os óculos de sol e traça o horizonte ao redor, em busca da origem da sombra.


Só vê janelas sujas, paredes carcomidas, plantas apodrecidas, telhados manchados. E em um dos sobrados de um edifício amarelado, logo em frente ao parapeito onde Fília está apoiada, um urubu.


Um urubu descomunal, com uma envergadura exagerada, mesmo de asas fechadas. Seu corpo negro destoa dos arredores cinzas. E seus olhos igualmente negros encaram Fília. Em sua cabeça, sempre desprovida de muitas preocupações, agora soa um alarme primitivo, natural de todo ser vivo. Uma mancha de medo, um frio na barriga.


Fília lembra imediatamente de uma aula que teve na terceira série, sobre condores. Ela sempre achou o condor um pássaro interessante, mas sempre teve certeza que iria desmaiar se visse um de perto simplesmente pelo bicho ser muito maior que ela e, principalmente, por ser selvagem.


Fília não era selvagem. Nem para isso ela tinha energia. Fazia escolhas cotidianas que seriam caracterizadas como "rebeldes" por alguns, mas para ela eram só escolhas intuitivas. Descolorir o cabelo. Colocar piercing no nariz. Almoçar miojo, cigarro e refri. Dormir toda torta vendo TV. Não era nada de rebelde, porque não havia contra quem se rebelar. Os pais de Fília só queriam saber de cheirar, injetar, dormir, suar, escarrar. Ninguém se importava com ela, nem ela mesma.


Mas Fília ainda tinha um instinto de sobrevivência em algum lugar de seu corpo esquelético. Ela tira os óculos para o lado e tenta ver melhor o urubu gigantesco que a encara. É quase um condor morto-vivo, com as penas escuras apodrecidas e corroídas por uma cor igual à de cinzas. Fília respira fundo e decide relaxar… É só um bicho.


✽ • ✽


Cheiro fétido de carniça no terraço. Fília desperta de uma soneca dolorida - o braço está totalmente tostado e arde profundamente. Fília se prepara para voltar ao buraco que chama de casa quando olha ao redor.


Três grandes urubus a encaram de maneira sinistra, com seus pequenos olhos redondos e vítreos. Os três estão espalhados ameaçadoramente pelo terraço.


Nesse momento, o coração de Fília bate alto, forte, desesperado. Um quarto urubu, de pescoço torto e cinzento, pousa na frente da porta de saída. Fília está presa na arena urbana, castigada pelo sol ardente e ameaçada pelos pássaros gigantes. É quando mais dois urubus pousam em frente a ela, exalando um cheiro orgânico, forte, agressivo. Fília olha para cima outros três urubus já rondam acima dela, no típico círculo ritualístico de morte.


Totalmente em pânico, Fília enrola-se na toalha velha e segura o livro na mão, pronta para desferir golpes inúteis contra os gigantes funerários em frente a si. A toalha roça na pele em chamas, queimada pelo sol feroz, provocando ainda mais dor. Ela entende que agora faz parte de uma batalha. Eles, por comida. Ela, por uma sobrevivência, mesmo que vazia de sentido.


Fília anda na direção da porta, encarando seu tenebroso guardião. É quando sente uma bicada na panturrilha terrível, a dor lancinante irradia pela perna e sai do corpo de Fília através de um grito estridente. Ela vê: um urubu gigante tem seu bico sujo de sangue, bem como sua perna. Mas nela também escorre uma baba marrom, que exala um cheiro de chorume. Fília se afasta, tomada pelo pavor, se agarrando na toalha mas largando o livro no chão. Nada mais importa depois desse ataque.


Cinco urubus andam, com seus corpos purulentos e passos pequenos, na direção de Fília. Os bichos planam, babando de fome, aproximando-se dela cada vez mais. Chorando, Fília tenta proteger o rosto contra outro urubu que descende do céu, diretamente em cima dela. O braço leva uma bicada, o pescoço outra. Fília sente os bichos torcerem sua pele até rasgar. Seus gritos são abafados pelo farfalhar das asas pesadas, que agora são muitas e golpeiam o pequeno corpo dela.


Ninguém olha pela janela. Ninguém vê os urubus atacando o corpo, desesperado e se debatendo pelo concreto. Ninguém.


Fília se contorce e tenta chegar até a porta. Mas como um sentinela maldito, o urubu ainda está lá, observando o ataque. Arranhando o queixo no concreto cinza e carcomido do terraço, Fília desiste.


Urubus bicam e arrancam pedaços de seu corpo, mas Fília sente um alívio. Não precisaria mais fingir ler livros abstratos. Não precisaria mais aguentar os gritos dos pais. Nunca mais ia passar pelo estresse da fome, do sono, do suor.


Com a consciência se esvaindo, Fília novamente sente um cheiro de carniça. Mas, agora, ela percebe, em pânico, que vem dela mesma.


Conheça a autora


Jessica Gonzatto é roteirista, diretora e musicista brasileira. Seu primeiro curta, "Coágulo" (2018), foi premiado e selecionado por festivais como o Festival Internacional de Curtas de São Paulo (KINOFORUM / 2018) e outros. "Carcaça", seu segundo roteiro de curta-metragem de suspense, ganhou o prêmio MetroLab Best Project (BR / 2018). Seu terceiro curta de terror, "As dores de parto" (2020), foi premiado com o 1º Prêmio Machado DarkSide e tem produção marcada para 2021. Atualmente, desenvolve projeto na Writer's Room 51, um centro criativo, co-criado com seu sócio Guilherme Soares Zanella.


Leia uma matéria especial sobre o trabalho de Jessica Gonzatto neste link



Revisão e edição por Elisa Fonseca

Arte de vitrine por Filipo Brazilliano


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