Coisa de TV, por Karina Cruz

Atualizado: Nov 11

É estranho e até mesmo um pouco engraçado, começar falando sobre o medo. Estranho, porque é inacreditável a capacidade que o ser humano tem de se acostumar com tudo, até mesmo com a morte, mas não quando o assunto é o medo. Ele pode vir em forma de susto, espalhando uma carga de adrenalina no seu corpo com rapidez e precisão, acelerando seu coração instantaneamente. Você conhece a sensação, com certeza já passou por ela várias vezes, e definitivamente passará de novo.


Colagem digital feita por Filipo Brazilliano

O medo pode vir devagar, como um arrepio gelado que sobe pelas pernas e se aloja na nuca, arrepiando seus cabelos, fazendo-o sentir que está sendo observado ou pior, que não está sozinho, quando na verdade está. Ele te faz tremer da cabeça aos pés e some com a sua voz num piscar de olhos.


É essa a jogatina precisa do temor. Ele brinca com a nossa cabeça, cria monstros na escuridão e ecos vazios no silêncio. Inventa paranoias e motivos críveis para que se afunde cada vez mais nelas. Dá vida ao receio, ao pânico, angústia e desespero.


E ele, logo ele, o enfadonho e distinto medo, acabou se tornando meu camarada mais próximo, amigo chegado, irmão do peito, traidor e amante. Era verão quando os rumores começaram, e todo aquele alarde na TV só dava à situação um ar cada vez mais fantasioso. Você mudava o canal na esperança de se entreter com um programa de domingo e lá estava, com letras vermelhas, gritantes, em imagens coloridas e meio desfocadas, uma nova reportagem, um novo caso, uma nova aparição! Existem momentos nos quais você simplesmente desiste de acompanhar a temática do assunto e fica na sua. Eu, que nunca fui muito chegado em crendices e folclore, achava tudo aquilo balela.


A história começou com aliens, dizia o noticiário das 19h. Eles, os homenzinhos de marte com corpos cinzas e grandes olhos, haviam esquecido seu mascote por aqui, em uma de suas várias visitas ao planeta para colher informações sobre a vida humana. Agora ele estava à solta por aí e faminto. Besteira. Nem eu, que lia muito sobre essas coisas, conseguia acreditar nisso.


No jornal da emissora concorrente, a repórter dizia que era um trabalho religioso, que aquilo tudo fazia parte de algum ritual de religião pagã e que a criatura nada mais era do que um demônio oriundo das profundezas mais profanas e cruéis do Inferno. Essa era uma das teorias em que o pessoal mais acreditava, já julgando todo tipo de religião não cristã no pacote.


Mudando novamente o canal, você encontrava fazendeiros de Campinas dizendo que o bicho não passava de um canguru, outros tagarelando que eram homenzinhos verdes com enormes olhos vermelhos, peludos e desengonçados.


Havia algumas reportagens que até mesmo pregavam que a criatura tinha nascido da mistura extraterrestre com animal terrestre. Isso causava algumas risadas, mas, parando para pensar, quem em sã consciência deixaria um animal inocente com uma criatura da qual pouco (ou nada?) se sabe e os faria cruzar?


De novo, nada disso me apetecia como deveria. Meu terreno era pequeno, poucas cabeças de gado, algumas galinhas e meus cachorros. A fantasia obscura da ficção na TV jamais chegaria até mim, isso não acontecia com pessoas comuns, eu estava protegido pelo manto da ignorância, onde aquele que pouco tem e pouco sabe, pouco age e pouco é atingido.


Ou, ao menos, era nisso que acreditava.


Fui assombrado pela minha própria descrença pouco antes das quatro da manhã numa quarta-feira qualquer em maio de 97. O alarde começou com a cacofonia inconfundível dos meus cães atacando algo, as dezenas de patas agitadas percorrendo a terra com violência e seus latidos esganiçados avançando no que quer que tivesse invadido minhas terras.


Tão logo a violência de meus amigos caninos iniciou, a quietude sobrepujou até mesmo o coaxar dos sapos no brejo e o barulho dos insetos. Em menos de dois minutos, o silêncio tomou tudo o que me cercava e, por um breve instante, fui capaz de ouvir meu coração acelerado, gritando a plenos pulmões de que estava em perigo, que não deveria me mover.


Há quem diga que portar uma arma torna o homem valente. Na época, achava que aquilo me tornava um covarde. Saltei da cama buscando o facão na gaveta do criado-mudo, que soltou um som arrastado ao ser aberta. Mordi os lábios em antecipação. Se fosse um bandido, com certeza teria me ouvido e me esperaria numa emboscada. O mal sempre anda preparado para causar mais desgraças.


Deixar o conforto dos lençóis e o calor do cobertor não foi a decisão mais difícil, mas talvez tenha sido a mais impensada. Calcei meus chinelos gelados e me arrastei no breu aterrador que parecia querer me comer vivo.


Para minha surpresa, o silêncio foi quebrado quando já estava a dois passos da porta. O pequeno corredor entre meu leito e a saída nunca pareceu tão longo. O caos parecia ter tomado conta do meu galinheiro. O cacarejar assustado e desesperado, unido a um rosnado assustador, rouco, como se saísse do fundo da garganta de um bicho extremamente alto, animalesco e surreal, como se saído diretamente de um filme de terror, se fazia ecoar.


Abrindo a porta com uma pequena lamparina na mão esquerda (acesa com alguma dificuldade), lembro ter me dado conta de que uma peixeira não faria muito estrago no que quer que fosse, que talvez devesse ter ficado em segurança dentro de casa, ainda que sozinho e atormentado por aqueles barulhos desumanos dos quais jamais me esqueceria.


Nutrido de uma curiosidade típica da insensatez, caminhei. Pé ante pé, tremendo mais do que pensava ser capaz aguentar. Avistei meus cachorros escondidos, chorando quietinhos e amuados, todos unidos, como se protegessem uns aos outros debaixo das bananeiras opostas ao galinheiro.


Eles, outrora tão valentes e dispostos a me defender, independente do risco, cheiravam a urina e medo. O mais puro e visceral terror já visto, aquele que torna os animais mais ferozes em bebês assustados e indefesos. Talvez, naquele momento, eu devesse ter percebido que caminhava direto para a boca do leão, o que, claro, não aconteceu.


Cheguei até o epicentro do ataque depois de muito me autoencorajar, e nada lá havia então. Nem criatura, nem ataque e muito menos vida. Meus animais estavam ali, inertes na terra como se nunca antes tivessem andado sobre duas pernas. Me agachei na terra a tempo de pegar nas mãos um galo ainda morno, o maior deles. Seu pescoço pendia debilmente com a marca de pequenos furos, nenhuma mancha de sangue para contar a história de seu assassinato, nenhuma ferida de tamanho considerável e nenhuma defesa.


Ouvi o estalar das folhas sendo pisadas atrás de mim e virei a tempo de fitar duas bolas de fogo, extremamente vermelhas e profundas, como se carregassem toda a fúria e horror presentes na dor, reluzindo entre a folhagem densa no mato. Meu Deus, pensei, é o chupa-cabra, e para pagar minha língua, serei eu agora sua presa?


Conheça a autora


Karina Cruz é paulista, ama filmes de terror desde que se entende por gente. Não vive sem música e acredita que as noites foram feitas para colocar a leitura em dia e as ideias no papel.


Karina Cruz (@a.h._kz)

Karina, pode nos contar sobre a sua trajetória como escritora?


Em torno de 10 anos. Comecei a escrever sem compromisso na internet com as famosas fanfics. Na época era somente um passatempo. Inclusive conheci muitas escritoras do cenário atual da literatura em sites do tipo, como Natália Mussato, Francine Porfírio e Alessandra Galvão. Porém, só decidi ser escritora mesmo do ano passado para cá, quando a Natália Mussato me informou a respeito dos concursos literários da Cartola Editora. Até então, eu acreditava que era complicado publicar algo ou que meus textos não seriam levados a sério de alguma forma.


Participei da Antologia "Superpoderosas" da Cartola dessa forma. Enviei um conto por insistência da Natália, fiquei super ansiosa pelo resultado e felizmente passei. Depois disso comecei a investir mais na escrita e tive a honra de participar de outras antologias. Acho que o crédito em me fazer tentar é todo da Natália.


Participei de várias antologias com a Cartola, conheci muitos autores incríveis lá. Além da "Superpodersas" organizada pela Thais Rocha, minha segunda antologia com a editora foi "O mundo onde o tempo parou", organizada pelo Alec Silva, seguida da duologia "Condenados" da Bruny Guedes, todos do ano passado.


Ainda esse ano fiz parte da "Horrores da Inquisição" e "Maçãs da Imortalidade", também da Cartola.


Hoje em dia tenho a honra de participar do Ficções Pulp!, um projeto criado pelo ilustre Diego Quadros, que conheci na Cartola. Acho que nunca me senti tão feliz escrevendo como estou com o pessoal da Pulp. Temos alguns e-books com temas específicos e o "Insólito! Assombroso! Inimaginável!" que é livre desde que se enquadre na proposta do próprio título.


O grupo de autores é bem dinâmico. Discutimos temas, ortografia, gramática, enfim. É algo que realmente me instiga e impulsiona a escrever.


Quais seus gêneros de preferência?


Costumo escrever principalmente com drama e terror. Cresci consumindo muito material do gênero e acabei virando fã. Acho que o suspense, o próprio clima que o terror gera, causa um certo encanto. É estranho falar dessa forma, mas dá para criar e explorar muito o "medo". Sobre o drama, acho que dá um tempero a mais, talvez um toque de humanidade a tudo? Algo assim.


Como você enxerga a influência do drama no terror e quais elementos você utiliza para trazer essa mistura?


Acho que com uma dose de drama, tudo se torna um pouco mais realista. O próprio medo se descrito de forma simples, acaba ficando raso. Quando você envolve os sentimentos, angústias do personagem em união da cena, isso acaba criando um vínculo de proximidade (ou algo perto disso), com o leitor.


Conhecer um pouco do que o personagem está sentindo, pode fazer com que você se imagine naquela situação e pense no que faria se fosse você ali.


Em boa parte do que escrevo, a situação está ali diante do personagem, ela confronta. Enquanto isso, geralmente tomado pelo desespero, ele tenta seguir alguma lógica e acaba recorrendo a lembranças ou sentimentos conflitantes.


Todo escritor tem suas inspirações, quais as suas?


Conheci Edgar Allan Poe e Stephen King por culpa do cinema. No caso do Poe, foi pelo Vincent Price (que também tem filmes inspirados em obras do H.P. Lovecraft). Já o King, bom, qual criança dos anos 90 não assistiu nada dele?


Meus filmes favoritos quando comecei a escrever eram "The Evil Dead", de 81 (com o "Necronomicon"), e "Creppshow" do King (são vários filmes baseados em HQ`s). Atualmente isso mudou um pouquinho, mas continuo fascinada pelo estranho, mórbido e desconhecido.


Gosto dessa pegada diferente, que choca, mas que ao mesmo tempo parece vinda de outro mundo, outra realidade perdida que colide com a nossa. Tento passar um pouco disso em alguns contos, mas escrevo há pouco tempo, então, bom... É algo a ser trabalhado.


Hoje em dia minha estante é dividida entre quadrinhos (mangás, principalmente) de terror, muitos livros do Stephen King, alguns de autores que desconheço, mas comprei por curiosidade e clássicos.


Existe algum tema recorrente nas suas histórias?


Acho que solidão. Recentemente, enquanto relia meus últimos contos (inclusive os que ainda não foram publicados com a Pulp), me dei conta de que o silêncio presente na solidão é algo que utilizo muito. Talvez porque quando se está só, tudo parece um pouco mais aterrador ou mais nostálgico do que realmente é.


É na quietude que os pensamentos tomam forma, voz e até mesmo assombram. O silêncio consegue ser mais gritante que o barulho em si, dependendo da situação ou momento.


"Coisa de TV", mesmo, nós temos um personagem que lida diretamente com a solidão, né? Ele está meio que isolado ali por vontade própria e parece achar que está longe de todo alvoroço midiático em cima da criatura.


Sim, exatamente! Um dos meus contos favoritos publicados é "Café", da duologia Condenados. Nele temos uma dona de casa que sofre de violência doméstica e reflete sozinha enquanto ouve o noticiário e vê a cidade ruir pela janela, sobre o que deveria fazer em relação ao marido. Quando ele retorna do trabalho, já se transformando em um morto vivo, ela já tomou a decisão de se libertar dele, por bem ou por mal.


Enquanto em "Bluebird" da "O mundo onde o tempo parou", contado em primeira pessoa, há um universitário de coração partido que decidiu saltar de paraquedas com uns amigos, algo dá errado e eles acabam sendo levados de uma forte ventania para um mundo até então desconhecido.


O conto é curto se for parar para ver, mas é basicamente focado no desespero dele em morrer sozinho numa mata fechada e ser devorado por um dinossauro.


Como foi a concepção e processo de escrita de Coisa de TV?


A ideia surgiu de forma bem inusitada para ser sincera. Estava no trabalho, conversando com algumas amigas sobre lendas urbanas e casos sobrenaturais famosos que a gente via na TV quando crianças, e acabaram citando o Chupa-cabra.


Na época havia um concurso literário em aberto e acabei pesquisando mais sobre a criatura para ter uma base do que gostaria de escrever e enviar. No fim, o conto foi recusado; ele não se adequava ao tema proposto (olha a importância de se ater ao edital aí), mas foi algo bem divertido de escrever.


Acabei usando um pouco do que minha mãe contava do meu avô, sobre quando foi caseiro de um sítio e que a qualquer alarde dos cães, precisava sair independente do horário e verificar o que tinha acontecido. Isso é basicamente loucura. Como você pode sair no escuro, sem muita proteção e ir de encontro ao perigo?


Li algumas matérias antigas sobre a aparição do Chupa-cabra em Campinas, e até mesmo algumas atuais pelo Chile, Argentina, e decidi que seria ele a assombrar meu protagonista.


Deixei a descrição bem livre: os olhos vermelhos, algo grande na mata, e o medo dos bichos. Além de manter um final aberto a interpretações. Ele pode ter fugido, pode ter atacado ou até mesmo desaparecido, quem sabe?


E quanto aos projetos atuais?


Tenho pelo menos mais dois contos para sair no Ficções Pulp, ambos de terror, mas com temas um pouquinho diferentes. Ainda esse ano vai ter assombração, mais vampiros, talvez alguns mortos vivos... Inclusive, a quem se interessar ao ler essa entrevista, pode vir conhecer a Pulp e enviar um conto pra gente. Temos o “Seja Pulp!”, onde você pode enviar um conto sem compromisso, ele é lido pelos responsáveis por essa captação e se ele se enquadrar em uns dos temas próximos, já é publicado conosco em e-book pela Amazon.


Além da Pulp, estou escrevendo uma antologia com a Natália Mussato. Ainda não definimos o título, mas já temos boa parte das ideias estruturadas e resumidas no papel, para variar... É terror (hahaha).


Comecei recentemente a rascunhar uma HQ também. Como a ideia é recente, só tenho os personagens principais e um resumo do que terei que pesquisar para montar tudo. É baseada no planeta terra depois da perda da lua.




Conto por Karina Cruz

Entrevista por Filipo Brazilliano

Edição e revisão por Elisa Fonseca

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