Como usar plataformas de auto publicação

Atualizado: Mai 21

O relato de uma trilha, por Fabiana Souza



Arte por André Mello

Já perdi a conta de quantas vezes testemunhei o descaso e o preconceito quando disse que publicava no Wattpad. Aqui no Brasil, pelo menos, parece que o estigma de uma plataforma que só produz subliteratura para adolescentes não descola mais. E isso é bastante triste, porque o potencial de ferramentas como essa para melhorar a escrita é gigantesco.


Publico na plataforma laranja há quase dois anos. E, como não sou adolescente, tive uma orientação mais pragmática desde o início. Muitas pessoas não sabem o que fazer quando publicam no Wattpad. Acham que é só colocar o texto, a capa e pronto. Acabam dessa forma se frustrando porque ninguém os lê. Outras, já sabem que é preciso dar as caras e interagir, pois a plataforma é uma rede social de autores. Mas fazem isso da forma errada. E isso é o que vemos em qualquer rede social com proposta semelhante: trocas de curtidas, trocas de seguidores, spams para desconhecidos. Tudo pela ânsia de crescer rápido e aparecer para o algoritmo.


O problema maior — que nós, que já não somos adolescentes, conseguimos ver de saída — é que isso é ilusório e não se sustenta. Não se o seu objetivo é ser reconhecido como um escritor.


Meu trabalho oficial é com o secretariado remoto e uma das áreas que atuo é a gestão de redes sociais. Por lá, ainda vemos empresários tentando usar essa tática de ganhar seguidores na marra, mas já faz tempo que percebemos como “curtidas e seguidores não pagam as contas”. A estratégia que esse modelo de interação pede é mais pessoal. Seguidores comprados podem jogar contra você, em vez de te ajudar.


Então, como fazer isso do jeito certo? De forma orgânica? Não existe um caminho fácil, mas a resposta é bastante óbvia: procure pessoas que se afinam com você. A primeira coisa que eu fiz quando criei minha conta na plataforma laranja foi procurar algo para ler. O fato de conseguir ler em mais de uma língua ampliou meu leque, mas vamos supor que eu lesse apenas em português. O perfil dos embaixadores foi o primeiro que segui. Lá descobri a página do Wattys e os outros perfis oficiais de língua portuguesa. Explorando as listas de leitura desses perfis, fui escolhendo o que queria ler, de acordo com a minha preferência.


Para minha sorte, o primeiro livro que li se chama “Vícios”, é de um fofo que tem muita atenção com seus leitores, além de escrever super bem: o Ikker (@ikkering), e que hoje é um amigo das redes. Das interações nesse e em outros livros que encontrei nos perfis oficiais, fui descobrindo mais obras, não tão famosas, que eu lia e comentava porque realmente eram histórias que me interessavam. Até hoje acho difícil comentar em histórias que não me cativam, quando participo de grupos de leitura — e, por isso seleciono muito bem os que participo. Mas, se você está disposto a participar deles, seja um bom leitor.


É bastante desagradável perceber que alguém leu seu livro correndo, por obrigação, e comentou qualquer coisa genérica ali só pra cumprir tabela. Isso volta à ilusão anterior, sobre trocas de curtidas e seguidores, trocas de leituras que não tem nada a ver com você, também não vão te acrescentar nada como escritor. E só vão inflar seu ego se você for realmente muito sem noção para não perceber que quem está lendo ali pouco liga para o texto que você escreveu.


Não tem truque de mágica que dê jeito. O leitor que você quer só vai chegar no seu texto por vontade própria, não por obrigação. Então, você precisa aparecer para ele.


Após um tempo lendo, resolvi começar a publicar e a participar de concursos de contos dos perfis oficiais. O legal desses concursos é que os participantes gostam de conhecer os concorrentes, então sempre rola uma interação bem legal, além de ser muito útil para exercitar a escrita. Dos primeiros que participei, ganhei apenas leituras e alguns seguidores. Mas são, novamente, pessoas que me seguem e que eu sigo até hoje. Isso é um alcance orgânico.


A base era essa: escrever, interagir e tentar aparecer onde o leitor que eu queria ter poderia me encontrar. Não foi um processo rápido, porque nenhum alcance orgânico é rápido, mas eu não tinha pressa. O segredo é curtir o processo. A cada concurso que eu participava, minha escrita melhorava. De concursos de contos, passei para um de novelas, em inglês, e concluí minha primeira narrativa, “Devaneio de um escritor de meia-idade” — que agora está ganhando outros lares, e, inclusive, a publicação impressa.


Depois da novela, me atrevi a escrever o primeiro romance, que foi um dos vencedores do prêmio Wattys, em 2020, “Rock’n’roll de ninar”. Este, finalmente, achou seus leitores e está crescendo sem que eu precise me esforçar diariamente para isso — graças à visibilidade permitida pelo prêmio.


Hoje eu caminho para fora do Wattpad. Comecei a deixar os textos no Sweek (onde eu tinha uma conta que nunca usei) e no Inkspired. O Inkspired, por ser uma plataforma mais nova, está naquele período áureo que o Wattpad e o Sweek já passaram, onde os embaixadores estão muito ativos, então acho que compensa bastante conhecer a plataforma e participar dos concursos. Existem várias outras: Spirit, Inkitt, Dreame... mas eu parei por aqui. Sempre vou levar o Wattpad no coração e já não tenho mais pique para reproduzir toda a interação que tive lá em outros lugares.


Meus objetivos, agora, são mais amplos. Só pude começar a pensar neles por ter tido essa experiência construtiva. Para quem está iniciando, a dica de ouro é: não tenha pressa. A verdadeira satisfação demora a ser conquistada. Quase tudo o que vem rápido, é uma ilusão que pode até acariciar o seu ego, mas dificilmente te transformará num escritor melhor.



Conheça Fabiana Souza


Fabiana Souza é uma escritora bilíngue e ilustradora. Escreve contos, poesias e narrativas longas e aventura-se por todos os cantos independentes que encontra.

Fabiana Souza (@soul2faraway)

Fabiana, pode nos contar como foi o processo de passar de leitora a escritora? Se estabeleceu em algum gênero?


Eu não me identifico com um gênero específico. Leio desde muito cedo e sempre li de tudo, desde os clássicos até as ficções populares mais bobinhas. Escrever é uma necessidade, porque quando escrevo me torno mais comunicativa. Pode não parecer, mas sou bem antissocial, dependendo do contexto.


Mas, precisava estabelecer uma linha se quisesse escrever profissionalmente. Nunca gostei de romance romântico, mas acabei escrevendo um no Wattpad (Rock'n'roll de ninar). Gostei da experiência e da recepção, porque ele é diferente dos clichês que fazem sucesso lá, e ainda assim tem tido boa aceitação


A ficção especulativa também é um gênero que gosto muito de ler e escrever e tem tido muitas oportunidades no mercado literário ultimamente. Levando em conta essa ideia, também tentei essa via.


E quais temas e elementos você percebe serem recorrentes em suas histórias?


Tenho sempre uma curva evolutiva ascendente. Ainda quero trabalhar um personagem moralmente ruim, mas até agora, meus personagens sempre vão de um ponto ruim a outro bom. Crises são outra constante nas minhas histórias.


Na sua opinião, qual é o diferencial em Rock'n'Roll de ninar, sua obra contemplada no prêmio Wattys 2020?


O livro relata um período curto de tempo, chamam de enredo "slice of life" em inglês. E o foco é a transformação da personagem principal, mudanças emocionais e tal. Não tem aquele enredo de novela das nove, cheio de reviravoltas, gente poderosa e linda sabe? São pessoas comuns, mas não tão comuns assim, porque as personalidades são bem raras. E toca em alguns temas polêmicos. Escrevi de uma forma leve, então não ficou chato


Quais são os autores e obras que você consome? Como acha que eles contribuem com a construção das suas narrativas?


Gosto de autores pesados como Machado de Assis, Clarice Lispector, Borges, Saramago... Meu preferido de todos é o Ítalo Calvino, do realismo mágico italiano. Mas também adoro séries populares, li todos os Harry Potters, amo Gaiman, a Gillian Flynn`. Recentemente iniciei Os Magos do Lev Grossman, que virou aquela série da SyFy, mas ainda não consegui concluir.


Mas assim, eu não me espelho, conscientemente, em nenhum deles, porque nunca os li como autora. Estou começando a fazer isso agora, percebendo os recursos narrativos que utilizam e tal. Mas as temáticas que me atraíram como leitora aparecem nas coisas que escrevo. A questão do sentido da vida, os problemas de relacionamentos humanos, o absurdo das coisas que achamos normais. O Calvino acho que é o único que sigo mais como um espelho, porque ele é diferente de tudo que já li. Nada que ele escreve é desnecessário e eu busco muito isso no que escrevo, ser essencial.


Existem ferramentas, técnicas e estruturas que você aprendeu e utiliza em sua escrita?


Eu sei que tem o pessoal que planeja tudo, mas eu mesma não consigo. Só tenho umas linhas-guias de saída, e, às vezes, onde quero chegar. A Clarice Lispector disse uma vez que ela escrevia pelo inconsciente, ou subconsciente dela, sem pensar muito. As palavras estavam lá e ela era só um meio. Eu acho que faço um pouco assim. Sento e escrevo. E quando releio, vejo algo que pode continuar a ser desenvolvido. É muito intuitivo. O que aprendi com o tempo, e ainda estou aprendendo é a deixar essas coisas intuitivas mais polidas depois. Reescrevo muitas vezes, corto muita coisa, acrescento outras. É bem demorado.


Gostou da Fabiana Souza? Descubra mais sobre a autora em seu Instagram @soul2faraway e seu novo lançamento: Desvaneio de um escritor de meia-idade





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