Deixando a Idade Média, por M. P. Neves

Atualizado: 11 de mar.

Não me entendam mal, adoro uma boa fantasia medieval. Mas cá entre nós, colegas escritores (leitores, também, já que todo leitor é um escritor em potencial), já está na hora de nos desprendermos um pouco da Idade Média, não acham?

É óbvio que isso não é uma condenação a quem escreve obras ambientadas ou inspiradas no período Medieval. Seria hipocrisia da minha parte fazer algo do tipo, pois minhas próprias obras bebem bastante desse momento histórico. Se você, que escreve e que lê, mantém um amor ferrenho pela Idade Média, não se preocupe com esse artigo. Escrevo aqui para todos que desejam ampliar seus horizontes e diferenciar suas obras do restante da literatura fantástica, especialmente no campo da alta fantasia.

Sei que “O Senhor dos Anéis”, “A Roda do Tempo”, “As Crônicas de Gelo e Fogo” e outras obras seminais do gênero têm uma ligação profunda com o período. Mas a fantasia pode ser muito mais do que isso. Há tantas épocas a explorar, tantas culturas fora da Europa para nos inspirar. Por que nos restringimos ao modelo tão batido de monarquias feudais ou absolutistas, casas nobres em conflito, guerras por sucessão e outros tropos?


Claro que todos são livres para escrever o que bem entenderem, mas fica aqui o meu alerta: se você escreve fantasia medieval, sua obra será sempre comparada a alguns dos maiores livros do gênero, e é muito difícil sobreviver a uma comparação com o trabalho de George R. R. Martin, por exemplo. Acredito que muito dessa ligação com o medievalismo vem desses grandes autores, cujas obras são formativas para escritores jovens. Entretanto, um autor que deseja penetrar no mercado literário nacional precisa compreender certos fatores.


Primeiro, é um ambiente bastante competitivo, há ofertas de muitos best-sellers, nacionais e internacionais, do gênero fantástico. Autores como Leonel Caldela e Karen Soarele possuem público cativo e produzem ótimas obras de alta fantasia com inspiração medieval. Podemos seguir o exemplo deles, é claro, assim como seguimos o de Tolkien e Martin, mas se exagerarmos, se tentarmos pisar nas pegadas que eles deixaram na jornada da escrita, corremos o risco de nunca sairmos de suas sombras. Ainda, o mercado independente traz sua própria leva de autores de nível elevado que produzem alta fantasia nessa temática. Sabendo disso, fica evidente a necessidade de buscar um diferencial para nossas histórias.


Em segundo lugar, não existe uma regra que exige que a alta fantasia seja medieval. Os grandes expoentes tinham essa inspiração, e nós tendemos a ecoar suas obras, mas se sua história trouxer elementos culturais de povos no norte da África, ou mesoamericanos, ou do sudeste asiático, ainda será alta fantasia épica e, ouso dizer, um tanto mais original. Sugiro, então, que exploremos novos horizontes, por exemplo: o movimento da Afro Fantasia que ganha cada vez mais força.


N. K. Jemisin, com sua trilogia “, Terra Partida”, dentre outras, é uma das autoras de fantasia, ainda viva, mais inovadoras e prolíficas, enquanto Tomi Adeyemi, e sua “Trilogia Orisha”, revolucionam o mercado Young Adult com uma história cativante apresentando a mitologia Iorubá, a partir de uma pesquisa muitíssimo bem feita (na minha cidade natal, Salvador, onde a autora foi estudar e conheceu os Orixás). Obras inspiradas em culturas da Ásia também já começaram a ser traduzidas em peso para o português brasileiro, a exemplo de “Viúva de Ferro”, de Xian Jay Zhao e “Os Seis Grous”, de Elizabeth Lim.


Obras de M.P. Neves

Não nos faltam exemplos e inspiração na cultura e história humanas para dar vida a nossos mundos fantásticos. Eu, particularmente, gosto do Egito e da Idade do Bronze, e coloquei um pouco disso na minha trilogia “A Ruína de Noltora”, que já tem dois livros publicados: “Máscaras para os Mortos” e “Asas sob o Abismo”. Misturei essa inspiração com elementos mais tradicionais da alta fantasia, e ainda outras culturas menos conhecidas, como a da Rússia de Kiev. Falando na Rússia, a “Trilogia Grisha”, de Leigh Bardugo, nos apresenta uma alta fantasia bem diferente dos moldes tradicionais, justamente por ser inspirada na Rússia Czarista.


Mas se história não era sua matéria preferida, tudo bem. Alta fantasia pode alcançar outros níveis de construção de mundo, sem estar ancorada a alguma cultura ou período específico. Um sistema de magia bem elaborado, por exemplo, pode ter repercussões imensas em um universo ficcional, como em “Mistborn”, de Brandon Sanderson, onde a tecnologia e a sociedade evoluem ao lado da alomancia, magia que envolve o uso de diferentes metais. Há muitas possibilidades para escritores e leitores se deliciarem com universos diferentes e histórias cativantes. Por isso, reitero meu apelo: vamos sair um pouco da Idade Média?



Sobre o autor


Nascido em Salvador, formado em Direito e mestre em Estudos de Linguagem pela UNEB, M. P. Neves é autor de fantasia, com predileção pela fantasia sombria. Possui duas obras publicadas na Amazon: Máscaras para os Mortos e Asas sob o abismo, ambas fazem parte da série A Ruína de Noltora.


Obras / Instagram / Twitter



Edição por Elisa Fonseca

Revisão por Gabriela Marra

Edição de imagens por Filipo Brazilliano


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