Despedidas sangrentas, por Adson Leonardo


Colagem digital feita por Filipo Brazilliano

A corneta soou, anunciando a chegada de algo. Todos os homens se levantaram, chutando os bêbados ou dorminhocos dos seus lados e se posicionaram, armas em mãos. As quase três dúzias de soldados aguardaram sob o sol poente, ansiosos por detalhes. As batalhas haviam acabado e eles já se preparavam para voltar para casa. Não demorou muito para saberem que não havia inimigos. Pelo contrário, na verdade um companheiro retornava.


John Doe fora capturado no início da campanha. Não tinha patente, família e nem dinheiro. Sua vida não valia de nada para os captores. Todo o batalhão imaginava que, a este ponto, o jovem já estivesse morto. Mas cá estava, retornando juntamente com os batedores do dia.

O jovem estava envolto em uma capa, agarrando-se ao tecido como se fosse a saia de sua mãe. Por baixo do capuz que usava, estava pálido e tinha expressão vazia. Ao ser trazido para o acampamento, todos que o viam tentavam imaginar os horrores pelos quais ele passou nas mãos dos captores.


A última batalha fora complicada. O esquadrão inimigo era famoso por sua eficiência e domínio na arte da guerra. Os mais poetas os comparavam a predadores perfeitos e máquinas de matar. Claro que isso ajudava a inflar o ego dos ali presentes, que conseguiram enfrentar de igual para igual os famosos adversários. Houveram poucas baixas e um capturado.


Ele foi inundado de perguntas e o sargento precisou ameaçar com buracos de balas para ser ouvido. Todos estavam empolgadamente curiosos, mas as perguntas ficaram sem respostas.

O médico do batalhão examinou como pôde o jovem catatônico, encontrou ferimentos leves mas nada mais grave. O corpo, até onde era possível avaliar, estava saudável. A preocupação estava com a mente.


Quando perceberam que não tirariam nada do jovem e que ele estava abalado demais para interagir, a multidão se dispersou. O sargento deixou o relatório para outro dia e foi descansar em sua barraca.


Um prato de ensopado e pão foi dado ao jovem, mas permaneceram intocados. Doe não abria a boca nem para respirar, e o ar raspava suas narinas em uma respiração alta e inconstante.


Doe permaneceu sentado no mesmo lugar até o anoitecer. A dupla de sentinelas não o viu ir deitar ou tocar na comida, que já havia esfriado a muitas horas. Desta, um conhecera Doe no exército e o chamava de amigo, arriscou uma aproximação. Uma garrafa de álcool forte tiraria uma reação, nem que fosse enjôo.


Ele se aproximou de Doe e esticou o braço, oferecendo a garrafa, de onde o vapor alcoólico escapava rapidamente. Suas esperanças não eram grandes e, após alguns segundos, desistiu da tentativa. O que ele não esperava é que Doe agarrasse seu braço em um movimento brusco, segundos de imobilidade e silêncio constrangedor.


Seu companheiro sentinela observava, assustado e atento: “Doe, qual o problema? Aceita um trago?”. John Doe fitou o antigo companheiro com olhos vermelhos e a pupila transformada em um filete no centro do globo ocular. O sentinela forçou o braço para se livrar do agarrão, mas não tinha força suficiente.


Doe de narinas dilatadas, aproximou o rosto do pulso do soldado e sentiu o aroma. Ele salivava e sorria instintivamente, exibindo as presas em sua boca. Ao fitar aquele rosto que em uma fração de segundo, passara do jovem soldado à uma face animalesca, o sentinela berrava.


Junto do grito veio a mordida. A boca arreganhada da criatura atacou só uma vez. Sua mandíbula rompeu pele, músculo e osso, separando a mão do sentinela de seu braço, fazendo um jorro de sangue cruzar o ar noturno e encharcar os dois. O sentinela caiu ao chão, tropeçando em seu próprio desespero e chorou até morrer. Tripas expostas na noite fria.


Os homens, acordados pelo barulho, saíram das barracas. O segundo sentinela, vendo toda a cena, atirou em Doe e os demais presentes viram como a bala, mesmo com toda a força gerada pela explosão que a impulsionava, rasgou as roupas mas apenas ricocheteou na pele da besta humana.


Quem não viu foi o atirador. A nuvem de fumaça encobriu o seu rosto, visão à qual se acostumou durante as escaramuças com mosquetes. A criatura que agora o agarrava parecia vinda de uma densa névoa entre o mundo mortal e o mundo dos monstros. A fera agora o abraçava, quebrando seus ossos e as presas perfuravam seu pescoço.


Os breves segundos de violência explosiva deixaram todos paralisados. Os primeiros a expulsarem o medo das pernas correram para seus mosquetes enquanto Doe devorava seu companheiro. Outros tentaram fugir da base, deixando tudo para trás.


John Doe, mais vivo do que nunca, sentia a adrenalina em seu sangue, a fome em sua barriga e todos os seus sentidos ampliados. Ergueu a cabeça e urrou, chamando por seus irmãos e todos ali ouviram as dezenas de vozes respondendo ao chamado das sombras da noite. Foi nesse momento que perceberam que ninguém voltaria para casa. Os predadores haviam chegado.



Conto por Adson Leonardo
Colagem por Filipo Brazilliano
Edição e revisão por Elisa Fonseca

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