Especial: Dia do Palhaço

Atualizado: 12 de Dez de 2020

A revista Perpétua preparou um Cinema em foco diferente hoje. Não somente com uma, mas duas resenhas escritas por Maria Moreschi sobre filmes nacionais.


Filme brasileiro “O Palhaço” - 2011




"Eu faço o povo ri, mas quem é que vai me fazer rir?" 48:36

Dirigido, produzido e atuado pelo mais conheci ator Selton Melo. Esse filme conta a história da descoberta de um homem de circo sobre si mesmo e seu pertencimento.


O personagem principal Pangaré nos é apresentado em conflito interior sobre o que realmente quer fazer de sua vida após perceber-se preso às responsabilidades para com o circo de seu pai, o palhaço Paçoca, representado pelo ator Paulo José Gomez.


Selton como Pangaré nos traz uma de suas mais comoventes representações através de um palhaço que faz os outros rirem, mas que não alcança essa graça para si próprio. E se faz várias questões como: Quem sou eu? O que eu quero? O que me faz feliz?


Essas são perguntas que atingem o nosso protagonista quando esse depara-se com a infelicidade do cotidiano cheio de cobranças. Ao mesmo tempo que vê seu pai ser traído por sua sócia e companheira no circo, Lola. Sua doçura e ingenuidade perante sua própria condição de filho e homem é o que mais comove. Ao ponto que, para um personagem construído sobre essa personalidade empática, é necessário ir até seu limite para perceber que sua felicidade também importa. Ele percebe que sua escolha de desgarrar-se da sua zona de conforto desconfortável é a única salvação daquele estado interior em falência. A atitude do pai ao discretamente perguntar-lhe o que ele é, é o ponto principal da virada da ação.

Nosso personagem vai atrás de seu próprio imaginário de felicidade, demonstrado brilhantemente pela escolha da direção do filme, à medida que é aplicado um apelo rítmico mais acelerado dos acontecimentos da vivência de Pangaré fora do âmbito rural do circo, ou seja, na cidade, para logo em seguida percebermos essa inquietação por alcançar nosso destino platônico, no caso um amor. Nesse sentido, é um filme sobre o encontro entre nós mesmos. A direção de arte é impecável e nos transporta para uma realidade única construída para esse personagem e seu dilema. Ao final, Pangaré afirma-se perante a si mesmo e recupera sua completude interior.


Filme brasileiro “Bingo: o rei das manhãs” – 2017



O que eu sou? "O gato toma leite, o rato come queijo e eu, sou palhaço." 1:14:16

Bingo: o rei das manhãs tem a direção do estreante Daniel Rezende, mais conhecido como montador nos filmes “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite” e “Robocop”. Em 2007 fez uma reportagem intitulada “O Palhaço de Deus”, contando a vida de Arlindo Barreto, o famoso apresentador palhaço Bozo (por questões de direitos autorais no filme, no entanto teve que trocar o nome para Bingo), transmitido pelo canal SBT na década de 80.


Com essa bagagem de altas produções, Rezende decidiu por ficcionar a trajetória de vida de Arlindo Barreto (atualmente pastor evangélico, fato que exigiu ter como final do filme) colocando o roteiro dessa narrativa nas mãos do cineasta Luiz Bolognesi. E assim juntos eles criaram uma das obras de melhor destaque técnico no cenário atual brasileiro. Que o levou a ser cogitado como representante do cinema brasileiro no Oscar em 2018, o que infelizmente não ocorreu.


Bingo nos traz como protagonista o ator Vladmir Brichta, interpretando Arlindo Barreto, no filme Augusto Mendes, que conseguiu com maestria representar se não o melhor, um dos seus melhores trabalhos. Com um drama pesado da história por detrás dos bastidores da vida de Bozo, Rezende explorou magneticamente os conflitos familiares e amorosos, bem como o lado mais sombrio da vida desse personagem ao render-se a dependência de álcool e drogas.


Ao mesmo tempo que o filme é dramaticamente pesado, envolvendo-nos profundamente nos dramas vividos pelo personagem principal, há um humor ácido em conjunto, dosado brilhantemente, (o que nos faz lembrar de um filme de palhaço mais recente, Joker). Com jogo de câmera inteligente que mescla televisão, cinema, figurino e direção de arte primorosos, o resultado nos mostra o ponto alto do nosso cinema e torna Bingo: o rei das manhãs um filme extraordinário.


E você, já assistiu um desses filmes? Conta pra gente.


Até a próxima.

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