Framboesas e bengalas - Uma história natalina


Um  papai noel assassino sendo observado por um buraco de fechadura. Ele está carregando um corpo e fazendo gesto para manter silêncio.
O Estranho Papai Noel por @_arteros

Para o nosso amigo Papai Noel.


Se pedir, ele vai ouvir.


Acredite em mim.



25 de janeiro de 2020


A mamãe me deu esse diário. Sim, foi ela, não o papai, como alguns estão falando na escola. A Carol acha que só porque meu pai trabalha na usina do centro, tudo que a gente tem em casa foi ele quem comprou, mas não é verdade. A mamãe também me dá muitos presentes legais. Esse diário é um deles.


Ela e a nossa amiga, a Dra. Bianca, disseram que seria uma boa ideia eu ter um diário. Não sei se elas têm razão, mas a cada palavra que coloco aqui, enfim, sinto que talvez exista um pouco de verdade nisso. Estou me sentido melhor. Elas disseram que, como leio bastante, escrever pode ser um tipo de remédio pra mim. Ainda não entendi o que uma coisa tem a ver com a outra. O último livro que li foi Harry Potter e a Ordem da Fênix. O que isso pode ter a ver com um diário? Bem, ainda não sei, mas que estou me sentindo um pouquinho melhor, eu estou.

Ah, elas também falaram pra eu me apresentar, de novo. Não sei qual a lógica disso. Eu já me conheço. Pra que me apresentar pra mim mesma?


Tudo bem. Eu gosto da mamãe. Eu amo a mamãe. Também gosto da Dra. Bianca. Então, vou me apresentar.


Meu nome é Gabriela Menezes, tenho 13 anos e moro com meus pais em Campo Limpo. Fica no interior de São Paulo. Eu gosto daqui, embora ache a cidade muito pequena e fedida. O rio que passa perto de casa tem cheiro de peixe o ano inteiro e o que eu realmente queria era poder sair com a mamãe para ir no cinema, como vejo as pessoas fazendo nos filmes.


Acho que é isso, não é? Me apresentei pra mim mesma. Acho que por hoje é só. O papai acabou de chegar. Vou para o quarto.


Ele bateu a porta com muita força.


10 de março de 2020


Hoje foi o meu aniversário. Mamãe me deu um iphone 8 plus, era exatamente o que eu queria. Faz menos de meia hora que ela me deu, mas já baixei a trilha sonora inteira do filme "Nasce uma Estrela". Aquele filme que a Lady Gaga fez com o cara do Se Beber Não Case. O papai não sabe, mas assisti os dois filmes com a Carol no final de semana passado, pouco antes de irmos dormir. A Carol disse que não via a hora de assistir a esses filme e desconfio que seja por causa do cara, porque ele é lindo demais. Mas ainda assim, acho que ela não entendeu muito a história, só sei que quando ela viu o corpo do cara pendurado na garagem com uma corda no pescoço, chorou até os olhos caírem. Eu tive que consolar ela por horas, até que dormiu e eu tive um pouco de paz.


Não sei porque ela ficou tão triste. Ele era infeliz, afinal. Morrer, nesse caso, não devia ser algo tão ruim, né?


22 de abril de 2020


O papai brigou com a mamãe ontem a noite. Eu achei que a briga do domingo era só porque ela tinha me dado um livro da Agatha Christie, mas descobri que não era por isso. Ele gritou muito e mesmo que o quarto deles esteja a muitos metros do meu, era fácil ouvir cada um dos gritos. Ele dizia que “foda-se a pandemia” e que “se eu disser pra ela sair sem a máscara, ela vai sair e ponto final”.


Eu não entendia muito bem o que isso queria dizer. Pandemia, no caso. Não até ouvir essa briga ontem. Como todo o uso do meu iphone é monitorado pelo celular da mamãe, ela acabou proibindo o meu acesso aos sites de notícias e tal.


Então na teoria, eu não sei o que está acontecendo no mundo. Na teoria.


Não gosto de mentir pra mamãe, mas não me importo em mentir pro papai. Às vezes ele também mente pra mim, então porque é que eu deveria me importar em mentir pra ele? Não tem motivos, não é? O que importa é que eu sei o que está acontecendo no mundo, mas finjo que não sei. Se eu demonstrar que sei, ele vai brigar com a mamãe e isso é a ultima coisa que quero nessa vida.


Depois da briga de domingo, a mamãe acordou com o olho roxo. Ela disse que foi porque caiu da cama depois de um pesadelo, mas eu sei que é mentira.


E esse é o problema nessa casa, parece que todo mundo resolveu mentir pra mim.


4 de maio de 2020


Hoje eu fui dormir na casa da Carol. Ela estava me esperando na porta e usava a máscara, diferente de mim, que fui com o nariz de fora. Meu pai disse que eu não precisava dessa porcaria. Deve ser verdade, já que vi um monte de gente andando na rua sem usá-las. Por mim, tudo bem, porque eu odeio a sensação de ter um pano no meu rosto. É desagradável, embora eu tenha medo de ficar doente.


Meu pai me deixou e disse pra eu me comportar. Ele estava fedendo. De novo. Quando ligou o carro e foi pra casa, fiquei olhando da calçada enquanto ele fazia a curva na esquina. Um cara buzinou pra ele, porque papai acabou virando pelo meio da rua. Mas tudo bem, eu estava com a Carol e seria bom ficar longe de casa por alguns dias, mesmo que só dois. Um minuto sem precisar ouvir os gritos da mamãe no quarto, seguido da batida forte da mesinha ao lado da cama dela caindo no chão, já era maravilhoso.


No sábado nós brincamos de Imagem e Ação. Foi super divertido. A Carol é muito inteligente e engraçada, como sempre foi. Eu acertava todas as mímicas dela, e ela, sempre que eu acertava, corria pra me abraçar.


No domingo assistimos ao Divertidamente, um filme da Pixar lançado anos atrás, mas que é muito legal. Eu só não gosto muito da Alegria, porque ela é exagerada demais e grita demais. Parece até que está doente. Papai diz que você sempre deve desconfiar de pessoas muito felizes.


Talvez seja por isso que ele acabou casando com a mamãe. Ela parece tão triste.



28 de maio de 2020


Hoje eu descobri que sou assintomática. Pelo jeito, isso deve ser muito bom, porque eles disseram que sim, eu fiquei doente, mas que não, não peguei sintomas.


O problema foi a Carol. Ela ficou doente e morreu. Pelo menos não ficou pendurada na garagem. Nesse caso, acho que eu choraria muito.


19 de junho de 2020


Hoje fomos ver a Dra. Bianca no final da tarde e diferente das outras vezes, não fomos no consultório, mas na casa dela, que fica no centro, perto da cafeteria que vende aqueles biscoitos de chocolate onde a mamãe sempre comprava pra mim na época em que trabalhava. Eu fiquei bastante surpresa dessa vez, porque a Dra. Bianca quase não conversou comigo. Ela disse que eu poderia ficar brincando com o Billy na sala enquanto ela conversava com a mamãe no escritório. Por mim, tudo bem, já que eu não estava muito afim de conversa mesmo.


Mas isso não quer dizer que eu não tenha ficado curiosa com a conversa delas. Foi a primeira vez que eu ouvi sobre as “surras”.


Enquanto Billy corria pela sala com um ursinho na boca, eu tentava segurar a risada. A mamãe falava baixinho para que eu não ouvisse.


Poxa mamãe, eu sempre soube das surras.


01 de outubro de 2020


O papai saiu em viagem por causa do trabalho. Brigou com a mamãe de novo porque ela pediu pra ele levar a máscara. Dessa vez não houve surra, o que foi muito bom. Sempre que ele brigava com a mamãe, ela ficava quieta e mal saía do quarto, a não ser para ir ao banheiro. Eu gostava dela andando pela casa, assando bolos de morango e cantando alguma música na sala enquanto esperava assar. A última vez que ela fez isso já faz algum tempo. Nunca vou esquecer da música. Era aquela que tocava no Guitar Hero chamada Carry on Wayward Son, do Kansas. Eu particularmente odeio rock, mas a mamãe adora. Ela diz que gosta de balançar o esqueleto.


Foi pensando nisso que corri até ela e pedi por um bolo. Ela fez uma cara de desânimo que demonstrou o cansaço que devia estar sentindo, mas mesmo assim foi fazer o bolo. Quando ela colocou o avental, eu corri até a tv e liguei no YouTube pra colocar uma música. Claro que coloquei a que ela tanto gosta. Porém, dessa vez ela não parecia querer balançar o esqueleto. Ela pegou o controle da minha mão e colocou outra música, o nome era Dust in the Wind.


Uma música triste para uma mulher triste.


Ah, como eu amo a mamãe. Queria tanto vê-la sorrindo de novo.


05 de novembro de 2020


Já fazem 8 meses que a Carol morreu e eu ainda não derrubei nenhuma lágrima, mas não consigo parar de pensar nessa coisa de assintomática.


Eu estive pensando nisso nos últimos dias e uma coisa esquisita passou pela minha cabeça: será que eu matei a Carol?


Isso faz sentido, afinal. Se eu sou assintomática, isso quer dizer que eu estive doente, mas sem saber, e no processo, acabei passando a doença para a Carol, que por fim morreu. No final das contas, eu sou uma assassina.

Eu meio que sou a corda no pescoço dela. A corda que foi convidada a ser amarrada no pescoço dela e que arrancou todo o ar dos seus pulmões.


Acontece que ela não me convidou para passar aquele final de semana na casa dela, fazendo papel de corda. Não fiz mímica nenhuma de corda. Eu era amiga dela e eu amava a forma como ela me fazia rir todos os dias. O que realmente aconteceu foi que o papai não queria que eu usasse a máscara.


Acho que quem matou a Carol foi o papai.

Como se não bastasse né? A mamãe não sai mais do quarto faz duas semanas e ainda por cima descubro que ele matou a minha única amiga.


Eu amo a mamãe, mas descobri que odeio o papai.


20 de dezembro de 2020


O natal está chegando! A mamãe disse que se eu for uma boa menina posso pedir qualquer coisa pro Papai Noel que ele vai me dar.


E eu já tenho uma ótima ideia.


24 de dezembro de 2020


Estive pensando no pedido que vou fazer para o Papai Noel a cada segundo que passa. Já são 20h35, mas eu ainda não sei.

Semana passada a mamãe depois de finalmente sair do quarto, me pediu pra escrever uma cartinha pra ele. Claro que acabei escrevendo qualquer coisa, mas antes de entregar pra ela, mudei de ideia. Será que o Papai Noel poderia atender a dois pedidos? Eu espero que sim.


Escrevi uma nova cartinha e pedi por um buquê de flores. Quando a mamãe leu e começou a rir, eu expliquei que o buquê era para a Carol. Eu levaria no túmulo dela no dia 26. É muito triste que ela não possa passar o natal aqui, entre os vivos, e se eu pudesse levar qualquer lembrança para ela, era o que eu faria.

A mamãe me deu um abraço e chorou (ela chora tanto!).


Agora estou aqui, sentada no meu quarto e pensando no meu segundo pedido. Pensei em pedir para o Papai Noel fazer a mamãe parar de chorar. Parar de se machucar. Parar de aparecer com o olho roxo ou pelo menos ter todos os dentes de volta na boca.


Espera, acho que tive uma ideia.


Se o Papai Noel realmente existe (a Carol achava que não), acho que ele pode acabar matando dois coelhos numa cajadada só.


Ou seria bengalada?


25 de dezembro, 03h30, 2020


Eu tinha razão. Ele realmente pode realizar dois desejos.


Alguns minutos atrás, pouco antes de eu desistir de ver o Papai Noel e ir dormir, vi uma luz muito forte do lado de fora de casa. Corri para a janela, mas a luz era tão brilhante que eu não conseguia ver nada. Corri lá para baixo. Quando cheguei, lá estava ele.


Um homem alto e barbudo. A roupa era muito vermelha e muito bonita, assim como mostram nas fotos e desenhos. Tinha por cima do ombro um saco de presentes gigante e na mão direita uma bengala que usava para caminhar. A bengala estalava no chão de madeira a cada passo que dava.


“Onde estão a mamãe e o papai?” ele me perguntou e eu disse que estavam no quarto, lá em cima.


Eu o segui. Ele me pediu para esperar do lado de fora, mas eu estava tão curiosa que precisei ver através da fechadura.

Eu vi quando ele subiu na cama e com muita força começou a enfiar a bengala na garganta do papai. O que espirrava dos buracos parecia geleia de morango, talvez de framboesa. Era lindo, maravilhoso. O papai tentava gritar, mas estava sufocado com tanta geleia. O Sr. Noel resolveu que a garganta já não tinha mais onde furar, então, desceu até a barriga e começou enfiar a bengala ali. E depois no peito. Depois nas pernas. O papai continuava gritando.


A mamãe a essa altura, tinha se levantado e estava de costas para a parede com a boca aberta e lágrimas nos olhos.

“Faça ela parar de chorar, Papai Noel”, eu falei bem baixinho. “Faça ela parar de chorar”.

E ele fez. Mas com ela, foi bem rápido e quase não saiu geleia de framboesa.


Obrigada, Papai Noel.


01 de janeiro de 2021


Agora eu estou morando com a Dra. Bianca. Ela é bem legal comigo, só não gosto muito do namorado dela.


Ele também não gosta da pandemia e a chama de “putaria”.


Será que o Papai Noel aceitaria um pedido antes da hora? Acho que ouvi a Dra. Bianca chorando baixinho no quarto.



Conto escrito por Douglas Noleto (@dougrasls)

Arte de vitrine por Wellington Duarte (@_arteros)

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