Jojo Rabbit e o Nazismo pela psicologia infantil

Atualizado: Mai 14

Por: Maria Moreschi




Premissa:

“Um garoto alemão treinado no exército infantil de Hitler descobre que sua mãe esconde uma judia em sua casa"

A dramédia foi a brilhante ferramenta usada para explorar a psicologia infantil através do filme sátiro: Jojo Rabbit (2019), dirigido, roteirizado e atuado por Taika Waititi (45), um cineasta Neozelandês mais conhecido pela academia cinematográfica pela sua indicação ao Oscar em 2004 com o curta-metragem autoral “Two Cars” ou “Dois Carros, Uma Noite”, que assim como Jojo Rabbit tem protagonistas crianças. Mas talvez você o reconheça em uma posição muito diferente, dos filmes da Marvel. Sim. Taika dirigiu nada mais, nada menos do que Thor Ragnarok. Mas não se engane. Para um cineasta chegar ao patamar de um filme dessa escalada não significa ter alcançado o ápice.


Nesse sentido, a assinatura de produções cobertas de efeitos especiais e soluções fantásticas tem seguido o currículo do diretor, carimbando seu passaporte para o tão famigerado time de diretores da zona ultra comercial. No entanto, Taiki Waititi veio humildemente nos surpreender e reavivar a sua origem autoral e sua capacidade de visão ampla como um diretor que, acima de tudo, preza pelo artificio dos gêneros e não do comodismo de uma fórmula.


O toque de comédia explorada em todo os filmes do universo Marvel e em Thor Ragnarok veio se juntar ao drama de suas primeiras produções, e juntos esses dois gêneros se tornaram a sua real marca registrada, algo já notado pela academia. É com Jojo Rabbit, um filme ambientado na Alemanha durante Segunda Guerra Mundial que, em minha humilde opinião, Taiki desenvolveu a sua mais interessante obra utilizando-se da sua assinatura. Não bastasse isso, o diretor conseguiu embarcar as análises Freudiana no que tange a psicanalise Infantil na trama inteira do filme, e pela perspectiva do personagem principal Jojo Betzler (Roman Griffin Davis).



Essa sacada genial de achar uma brecha cômica no olhar ingênuo da criança para a realidade impiedosa, e até caricata, da qual ele não entende realmente o funcionamento, acabou nos tirando mais gargalhados do que choros. Prova disso é Jojo criar a sua própria e particular versão de Hitler (performado pelo próprio Taika Waititi, um tipo de decisão comum em filmes autorais) que o acompanha durante toda a trama como um fantasma, ou melhor, um amigo imaginário, materializado em um ícone a ser impressionado. Ou será mesmo que Jojo estava querendo impressionar Hitler? É nessa conjuntura, que Jojo nos é apresentado sobre suas três bolhas: a social, por pertencer a uma família alemã tradicional aos olhos do povo e pela figura fisicamente caucasiana, loira, que lhe aumenta o respeito e o ego. Como também, pela bolha familiar, imbuído por sua mãe Rosie Betzler, ao dar-lhe carinho, proteção, muita dança e conselho, desconstruindo levemente sua cabeça contra o sistema nazista que ela finge apoiar para a sobrevivência de sua família, e o qual Jojo acredita ter que exaltar. A última bolha que cerca nosso personagem é a do universo da criança, que questiona as coisas, portanto, o protege de ser engolido imediatamente pelo sistema vigente mais forte do que a sua pureza em relação a temas como preconceito e violência.


Em conseguinte, segundo as análises clínicas de Sigmund Freud, a criança está muito mais conectada ao seu inconsciente do que com seu consciente. Isso porque esse ainda está em formação. Portanto, a imaginação da criança é um artificio de salvaguarda único e fundamental para a sua sobrevivência e desenvolvimento. É nessa relação que experienciamos amigos imaginários e desejos exaltados. Algo que acompanhou o personagem Jojo desde os primeiros minutos do filme. É na percepção da sua própria imaginação e inconsciência na figura de Hitler que o aconselha por todo o filme com as suas próprias expectativas instigadas pela sociedade que o cerca, portanto, pela sua parte inconsciente, que nosso personagem acaba se afundando em seus próprios conflitos não solucionáveis. Esses acabam transformando-o, pois só ele, conscientemente, consegue responder suas questões, já que sua falsa consciência que o aconselha travestida de Hitler ou sua versão a priori desejada, não sabe como ajudá-lo a solucionar questões legitimas e não inventadas como “Há uma judia inofensiva, a qual estou apaixonado, morando no meu sótão”.


Ano do filme: 2019

Direção: Taiki Waititi

Roteiro: Taiki Waititi

Produção: Chelsea Winstanley, Carthew Neal e Taiki Waititi

Nota IMDB: 7,9

Duração: 108min



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