Maldita seja Eva, de Julie Pedrosa

"Tenho a impressão de que quanto mais nossa mente nos consome, mais nos sentimos confortáveis com os demônios internalizados dentro de nós, até chegar um ponto em que nos acostumamos com a queda infinita."


Maldita seja Eva, da autora Julie Pedrosa, publicado em 2021 de forma independente, é um livro de suspense que te prende desde a primeira página. A narrativa, de 249 páginas, tem linguagem objetiva em primeira pessoa, o que torna o narrador complexo e misterioso, principalmente porque nessa trama a protagonista sofre de amnésia dissociativa.


Esse é um livro de crime, cujo propósito não é desvendá-lo, ao menos, não é o único propósito. Logo no início sabemos que Eva é uma assassina declarada. Este e outros crimes são descritos sem muitas delongas, porque Julie escolheu uma outra abordagem para imergir o leitor: a decodificação da mente de Eva.


Eva Borges, com 27 anos, foi a principal suspeita do assassinato de seu padrasto, Wellerson Moreira, em legítima defesa, depois de uma discussão regada a preconceito fundamentalista e bifóbico. Porém foi absolvida quando o juiz percebeu os efeitos psicológicos traumáticos oriundos do crime, além dos testemunhos, como da Alexia, a amiga presente no momento, e de outras pessoas que conheciam o histórico do padrasto.


Depois de alguns anos, Eva retorna para a cidade bucólica em que ocorreu o crime, mesmo com as perdas de pessoas queridas após o incidente. Eva e seus amigos, Guilherme e Talita, tentam a todo custo descobrir detalhes do acontecido. Flashbacks repletos de sentimentos confusos nos fazem questionar a sanidade da nossa protagonista narradora o tempo todo e nós, leitores, ficamos à mercê dessas doses de informação dadas pela autora.


Em meio à confusão que ronda nossa protagonista, ela conhece Alex, um rapaz encantador que a conquista de pronto. Eva tem um déjà vu quando um rosto conhecido morre e começa a se desesperar pela possibilidade de ser uma assassina em série. A morte decerto a ronda, mas quem será o responsável por isso?


A complexidade com que Eva e outros personagens foram desenvolvidos nos traz identificação com eles. Esse livro tem a dosagem necessária entre leveza e drama para prender o leitor. Temas como o preconceito, crítica ao fundamentalismo cristão e transtornos psicológicos são tratados de forma orgânica ao longo da trama, também.


Recomendo a leitura para adultos e jovens adultos que prezam por um thriller de qualidade, mas tenham em mente que esse não é um livro leve, apesar da linguagem.



Conheça a autora


Julie Pedrosa é uma escritora apaixonada por criminologia, psicologia e aviação. No tempo livre, é criadora de conteúdo no Instagram @escritoradebordo. Autora do suspense "Maldita seja Eva".

Julie, pode começar nos contanto de onde vem o seu interesse pela literatura? Quais as suas primeiras leituras e seus primeiros escritos?


Meu primeiro livro foi escrito aos 8 anos, era um romance baseado em uma viagem que fiz nas férias do colégio, foi quando acabei conhecendo um menino e me apaixonei, mas nós nos separamos dramaticamente no fim da viagem e nunca conseguimos nos despedir. Para lidar com a tristeza, comecei a escrever. Antes disso, minha avó e mãe sempre incentivaram muito a leitura e escrita. Um dos livros que elas me deram e que alimentou minha paixão por escrever foi "Poderosa" de Sérgio Klein, cuja história é de uma menina que escrevia e tudo se tornava real. Eu vi aquela minha paixão como um superpoder e na minha visão infantil era tudo que eu precisava pra concertar todos os problemas do mundo.


E por que você escolheu trabalhar com suspense?


O suspense foi uma surpresa agradável que surgiu graças ao Prêmio Machado Darkside. Eu já tinha tentando escrever narrativas de crime e policiais na adolescência, mas "Maldita Seja Eva" foi o primeiro romance original de suspense que me envolvi. Acabei me apaixonando pelo gênero, pois é um ótimo modo de extravasar minhas emoções e mostrar minha personalidade. Maldita Seja Eva foi meu primeiro e por enquanto único, romance publicado pela plataforma da Amazon, conta a história da Eva, uma mulher que sofre de amnésia dissociativa e por isso se esqueceu de ter cometido um assassinato, após sair da clínica psiquiátrica em que se internou, se depara com uma série de suicídios ligados a ela em sua cidade natal. Posso dizer que Maldita Seja Eva é uma história sobre a autoconfiança de uma forma brutal, trazendo a tona o quanto confiamos em todos, menos em nós mesmos.


Você conseguiria apontar temáticas e elementos que costuma abordar nas suas histórias?


Acho que algo muito presente em todos os meus textos é a questão psicológica e o interior do ser humano. Meus personagens, assim como nós, têm questões angustiantes sobre passado, existência e a vida em um geral. Além disso, adoro por um crime e serial killer! É algo que você provavelmente sempre vai achar nos meus textos.


Julie, uma coisa que eu reparei é que você utiliza sua formação e sua profissão na escrita. Pode dar mais detalhes de como funciona essa relação?


Escolhi minhas formações e profissão por amor, então foi muito difícil abrir mão de uma delas quando criei o Instagram e comecei a escrever Maldita Seja Eva. A escrita, aviação e psicologia não são apenas áreas de conhecimento, mas fazem parte de mim. Acredito que pra muita gente seja assim, mesmo quando não gostamos de algo, é inevitável inserir aquilo que estudamos no nosso repertório, quando amamos o que fazemos não é diferente, nós só conectamos esses assuntos com mais paixão. Acabou sendo algo natural pra mim conecta-las, não só uso minhas experiências acadêmicas pra escrever, como uso a escrita na universidade, também.


Quais são seus projetos atuais e "vem aís?"


Meu próximo livro vai ser lançado no primeiro semestre de 2022, e se "Maldita seja Eva" falou sobre autoconfiança, esse próximo fala sobre autoaceitação. Nenhum ser humano é 100% ruim ou bom, somos seres de falhas e por errar muito às vezes nos colocamos em um papel de vilão que não nos cabe. Meu livro é sobre isso, mas também é sobre o preconceito da sociedade com quem foge do padrão, sobre a dor de ser abandonado e sobre como somos donos da nossa narrativa, independente dos nossos traumas. Ah, tudo isso com onças. É o que posso dizer...


A sua campanha de lançamento chamou a atenção de muita gente. Conta um pouco sobre como surgiram essas ideias e de onde você tira a sua inspiração?


Não posso mentir pra vocês, as ideias de marketing que fiz durante a campanha de lançamento de Maldita seja Eva foram puro surtos. Como eu disse, gosto de articular meus prazeres da vida com meus estudos e trabalho, sendo assim, devo dizer que fui atriz por quase sete anos da minha vida, storytelling e criatividade é algo que estão na minha vida desde sempre e esses anos no teatro me ajudaram muito a pensar fora da caixa. As ideias só vêm, basta eu ter confiança de alimentá-las. O lançamento de Maldita Seja Eva foi assim, eu queria "atuar" um pouquinho ali, engajar o público em uma história que fizesse parte deles também. Quando a ideia surgiu, achei meio absurda porque nunca vi nenhuma autor independente fazer isso, mas depois de conversar um pouco com algumas amigas, decidi dar continuidade. Saibam que foi um gesto arriscado, eu podia não ter vendido nada, mas caso eu visse que não engajariam já tinha um plano B. Planejamento e falta de vergonha na cara são a chave. Ah! Não ter medo de dar a cara a tapa é muito importante.


Julie, o que essa experiência de primeira publicação te ensinou?


Confiança é tudo. Confie no seu trabalho, que os outros vão confiar. Passar uma imagem confiante é o segredo pra ter algo próximo de "sucesso".




Edição de arte e entrevista por Filipo Brazilliano
Resenha, revisão e edição textual por Elisa Fonseca
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