Nomadland e o luto solitário da mulher nômade

Atualizado: Ago 22

Texto por: Maria Moreschi


Nomadland – Sobreviver na América (2021) é o mais novo filme de sucesso de crítica e público do mercado. Vencedor de três das seis categorias indicadas ao Oscar 2021, dentre eles de melhor filme, melhor atriz para Frances McDormard e melhor direção para Chloé Zhao. Como se isso não bastasse, também carregou com ela o título de segunda mulher da história a ser premiada na categoria de direção no evento, sendo a primeira asiática. Essa que é uma obra sem excesso de diálogos, porque mostra a necessidade do silêncio quando buscamos as respostas da alma ferida. Em termos menos filosóficos, nos deleita com Fern, uma mulher nômade na estrada, enfrentando o estigma do luto em sua vida, durante a recessão econômica dos Estados Unidos em 2008.


É disso que se trata o filme realizado pela diretora chinesa Chloé Zhao. Portanto, vamos entender juntos como essa narrativa conseguiu conquistar Hollywood até chegar ao Oscar de melhor filme na categoria principal.

A atriz Frances McDarmand disse de forma precisa:

"Fern is not homeless, she is just… houseless. Not the same thing, right?" | "Fern não é uma sem lar, ela só é... sem casa. Não é a mesma coisa, certo?"

Primeiro, observamos a particularidade do olhar oposto ao convencional ocidental, que Chloé traz ao tratar sobre o luto em um contexto associado à liberdade em boa parte dos filmes americanos. Salvo a meia exceção do filme "Into the Wild" de 2007, que tratou a liberdade da estrada de forma selvagem, e que rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante para Hal Holbrook. Nesse sentido, o nicho dos Road Movies, ou filmes de estrada/contexto de viagem, é, nessa obra, o seu diferencial. Justamente por quebrar a abordagem comum. Ou melhor, a romantização do nômade, visto como um hippie desapegado, descolado e jovem. Nesse sentido, foi extremamente tocante, além de bem executado em sua proposta.



Ainda em relação a singularidade posta pelo trabalho criativo de Chloé, podemos perceber uma linguagem em Nomadland que fora começada com outros filmes da carreira da cineasta. Como o que lhe rendeu excelentes críticas do New York Reporter, seu primeiro longa-metragem, "Songs My Brothers Taught Me" de 2015, o qual foi desenvolvido durante uma oficina no Sundance Institute. Nesse filme, como em Nomadland, Zhao traz uma visão sobre a América fragilizada e pouquíssimo explorada.


No caso do primeiro filme mencionado, o personagem principal Johny vive na maior reserva indígena dos Estados Unidos em estado de pobreza. Na intenção de melhorar de vida, ele começa a produzir e vender álcool caseiro, algo ilegal nas aldeias, e se muda para Los Angeles. Já em Nomadland, são retratados nômades, através de um grupo marginalizado na América que vive entre acampamentos de vans e sub empregos em multinacionais, como a Amazon, durante a crise econômica em 2008. Nesse sentido, podemos ter uma noção de como essas obras carregam uma linguagem narrativa particular da cineasta, que por si só pode ser vista como "marginalizada" por ser uma diretora chinesa em contexto americano, no auge do #StopAsianHate (#ParecomoódioaÁsia). Com efeito, essas narrativas carregam muitas camadas de assuntos delicados e inflamados da sociedade moderna capitalista. Claro que sim, fala sobre Fern e sua luta diária como uma nômade, mas o seu contexto é fulcral, como em todo o trabalho da realizadora.


Esse filme não é um roteiro original. Ele foi baseado em uma short story, ou conto, com o mesmo nome escrito por Jessica Bruder, o qual a atriz Frances McDorman obteve os direitos muitos anos antes de chamar Chloé Zhao para adaptar o roteiro. Não foi por menos, essa história parece ter sido feita sob encomenda para Zhao. E é por isso que o filme foi indicado também para melhor roteiro adaptado. Caso viesse a ganhar, renderia a cineasta duas estatuetas e mais um título inédito.


Um filme de sucesso também se faz pelo contexto/momento certo em que é lançado.


A personagem Fern começa sua jornada com uma amiga chamada Linda May, uma senhora mais velha. Ambas trabalham nas indústrias da Amazon em empregos braçais exigentes, porém temporários, para sobreviver. Conseguimos perceber a pobreza e a vulnerabilidade que as envolvem, ao mesmo tempo em que isso se torna ínfimo e dispensável de maiores atenções quando a relação leve das duas toma conta dos espaços e da narrativa. São as coisas simples da vida. É demonstrar amor em momentos de sofrimento. É mostrar que tudo pode ser diferente se nós fizermos ser assim. Chloé nos joga na cara o óbvio e o necessário.


Mesmo assim, porque nos comovemos tanto com momentos simples? Talvez faça mais sentido entendê-los nesse filme, quando ele é lançado no segundo ano de uma pandemia mundial. Estamos em uma situação econômica parecida com a recessão de 2008, quando diversos países que se encontram numa crise econômica. Agregado a isso temos o fato da redução brusca do contato humano. A morte e o luto da personagem também pode ser sentido, principalmente pela sensação de luto em massa que o mundo vive nos dias de hoje.

Todas essas questões no filme foram fundamentais para ele ter sido premiado. Para tornar tudo ainda mais real, toda a equipe de atores e figurantes que comportam a equipe de figurantes para trabalhar nesse projeto eram verdadeiros nômades da vida real.



As paisagens naturais monumentais, selvagens, isoladas e fortes escolhidas durante a trajetória da personagem Fern se conjuga com a passagem e o processo de entendimento da sua luta interna. Ela começa o filme encaixotando o seu passado de forma dolorosa em uma paisagem de inverno rigoroso, enfatizando o início do ciclo natural de introspecção. Termina com a volta da personagem a sua antiga casa como uma forma de despedida final, e a decisão de seguir em frente. Tudo nesse filme faz sentido, seja ele sútil com essas conexões naturais, seja em diálogos extremamente marcantes e pesados, como o momento em que um dos colegas de acampamento de Fern conta, em uma roda de conversas na fogueira, como é difícil entender e seguir em frente depois que o filho adolescente tirou a própria vida.

Com o desenrolar do enredo, percebemos que Fern não é uma pessoa completamente sozinha. Ela tem uma irmã e uma sobrinha, além de muitos amigos que ela constrói ao longo do caminho. É importante prestar a atenção nos personagens de diferentes idades que interagem com Fern, principalmente, pedindo o seu conselho. Uma hora é a sobrinha, outra um jovem cowboy nômade que deixou a família. Também temos a possibilidade de um novo parceiro de vida mais velho que surge em sua caminhada, assim como uma colega mais idosa lutando por uma doença terminal sozinha.


É nesse momento que percebemos uma virada mais forte no processo interno de Fern. Ela tem que lidar com uma segunda perda. Toda essa vivência da personagem na estrada lhe amadurece sobre o luto, sobre a perda e sobre o autoconhecimento. Quando ela é confrontada com a possibilidade de voltar a viver em uma casa convencional pela primeira vez, Fern tem dúvidas. Quase aceita. Mas decide seguir sua intuição. Quando é confrontada novamente ela já tem certeza. Sabemos disso porque a segunda vez é muito mais forte e convidativa, ou seja, Fern tem a possibilidade de ter uma família sua de novo. Mas quando isso acontece ela já está mudada. E ao final, a sua jornada na estrada, a qual havia sonhado em viver com o falecido marido, já havia criado nela um novo sentido, novas experiências. A sensação do verdadeiro lar.





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