O absurdo do século 21 retratado em Não Olhe Para Cima


Rubens Duprat


O gênero sátira sempre foi meu favorito, principalmente quando envolve humor ácido, aquele tipo de humor que ri da desgraça como forma de lidar com ela. Não foi à toa que eu logo me interessei em ver Não Olhe Para Cima, uma sátira ao negacionismo.




Desenvolvimento



Lançado pela Netflix no final de 2021, o filme é dirigido por Adam McKay, cuja carreira no cinema começou com comédias rasgadas como O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy, Ricky Bobby - A Toda Velocidade e Quase Irmãos, todas elas estreladas por Will Ferrell, e prosseguiu dando uma guinada para sátiras mais sutis como A Grande Aposta e Vice, ambas indicadas ao Oscar de Melhor Filme. A Grande Aposta, inclusive, lhe rendeu o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Ele também está envolvido com a série Succession, da HBO, que segue a mesma linha de seus últimos filmes e já ganhou oito Emmys, incluindo o de Melhor Série Dramática em 2019.


Adam McKay

Não Olhe Para Cima começou a ser desenvolvido em conversas de McKay com seu amigo David Sirota, um conceituado jornalista investigativo, sobre as mudanças climáticas causadas por atividades humanas como desmatamento e queima de combustíveis fósseis. O próprio MacKay relatou numa entrevista à Entertainment Weekly: "Você acredita que isso não está sendo coberto pela mídia? Que está sendo empurrado para o fim da história? Que não há manchetes?" e Sirota replicou "É como se um cometa estivesse vindo para a Terra e fosse destruir a todos nós e ninguém se importasse". Foi baseado nessa ideia que MacKay escreveu o roteiro do filme, creditando Sirota como co-autor.


Elenco


É fácil entender por que o roteiro conquistou um elenco de estrelas como Leonardo DiCaprio, ativista do meio ambiente, e Jennifer Lawrence, forte opositora da política do presidente Donald Trump, que chegou a retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, o importante tratado internacional que visa reduzir as emissões de gases de efeito estufa.


DiCaprio e Lawrence interpretam os protagonistas, uma dupla de astrônomos que tenta alertar o mundo sobre um asteroide vindo em direção à Terra e, causando a extinção da humanidade se nada for feito.



Meryl Streep, 2017, Globo de Ouro.

A consagrada Meryl Streep, que em 2017 fez um discurso contra Donald Trump na cerimônia do Globo de Ouro e, um ano antes, fez uma hilária personificação de Trump durante um evento do The Public Theatre, no Central Park, está bem à vontade no filme como a presidente do Estados Unidos, novamente satirizando Trump. Representando o poder político, sua personagem também faz referência a características de presidentes anteriores, incluindo Barack Obama com seu hábito de fumar, George W. Bush, com sua indicação de alguém desqualificado para o cargo da Suprema Corte e Bill Clinton, com seu envolvimento num escândalo sexual. A performance de Streep é cômica, mas é mais contida do que suas atuações anteriores em comédias, como em Ela é o Diabo ou A Morte lhe Cai Bem.


A performance mais escrachada do filme é surpreendentemente a de Cate Blanchett, a eterna rainha dos elfos de O Senhor dos Anéis, com o estereótipo tradicional da apresentadora de um programa de TV matinal. Ao seu lado, está o comediante Tyler Perry, muito conhecido nos Estados Unidos por interpretar a personagem Madea, uma mulher idosa e mal-humorada no teatro, na TV e no cinema, algo similar ao que Paulo Gustavo fazia no Brasil com sua Dona Hermínia.


Representando o poder econômico, Mark Rylance interpreta o bilionário e megalomaníaco CEO de uma empresa de tecnologia. A escolha do ator foi emblemática, pois ele já havia feito um papel semelhante em Jogador Nº 1. Seu personagem é um misto de Steve Jobs, Mark Zuckerberg e Elon Musk, e aparece pela primeira vez fazendo uma apresentação no exato estilo do que é feito anualmente pelo atual CEO da Apple, Tim Cook.


Também no elenco estão o comediante Jonah Hill, de Superbad, um incompetente chefe de gabinete que só conseguiu o cargo por ser filho da presidente; Rob Morgan, conhecido por seu papel de alívio cômico em todas as séries Marvel da Netflix, desta vez num papel sério de chefe do Departamento de Coordenação de Defesa Planetária; o jovem ator revelação Timothée Chalamet, de Duna, em um rebelde skatista; Ron Perlman, o Hellboy, um lunático veterano de guerra tratado como herói; a cantora Ariana Grande, o rapper Kid Cudi e a comediante Sarah Silverman em papéis que lembram eles mesmos; Michael Chiklis, o Coisa do primeiro Quarteto Fantástico da Fox, como um outro apresentador de TV; e Chris Evans, o Capitão América, no papel do astro de um filme catástrofe.


Mesma temática


É claro que Não Olhe Para Cima não é a primeira comédia apocalíptica já feita. Talvez o melhor exemplar dessa temática seja o clássico Dr. Fantástico, de 1964, uma hilariante sátira à possibilidade de uma guerra nuclear, dirigida pelo gênio Stanley Kubrick e protagonizada por outro gênio, Peter Sellers, fazendo três papéis. Pode-se dizer que Não Olhe Para Cima seja uma atualização desse tema para o século 21, em que o futuro da humanidade é ameaçado, muito mais pelo negacionismo do que por uma possível guerra nuclear.


Idiocracia, de 2006, usa um humor mais debochado para retratar um futuro distópico em que a humanidade emburreceu, o que não é muito distante do que vemos no presente retratado na comédia de Adam McKay. O filme é dirigido por Mike Judge, o criador de Beavis & Butt-Head. Num registro mais melancólico está o emocionante Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo, de 2012, uma comédia romântica em que Steve Carell e Keira Knightley interpretam dois estranhos solitários que decidem passar juntos os últimos dias da Terra, que, como em Não Olhe Para Cima, está prestes a ser devastada pela chegada de um imenso asteroide. E o próprio Jonah Hill já se envolveu com a temática ao participar de É o Fim, de 2013, uma espécie de bromance auto-satírico em que ele e seus amigos James Franco e Seth Rogen, entre outros, interpretam a si mesmos reunidos na casa de Franco para uma festinha que acaba sendo arruinada por um repentino apocalipse.


Reflexão


Não Olhe Para Cima não chega a provocar tantos risos quanto Idiocracia ou É o Fim, e nem chega a provocar lágrimas como Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo, mas é eficiente em sua proposta de mostrar o desespero de cientistas e ativistas diante de uma sociedade que ignora totalmente seus avisos de que se nada for feito para conter, o quanto antes, as mudanças climáticas, a humanidade será extinta.


A angústia dos personagens de Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence é sentida desde o começo do filme, e vai se agravando conforme vemos políticos se preocupando apenas com as próximas eleições, jornalistas com a audiência e empresários com o aumento de suas riquezas, enquanto a população é manipulada, distraindo-se com futilidades que só trazem benefícios aos poderosos. Por outro lado, além de questões como machismo e racismo, também é abordada a incapacidade dos cientistas de se comunicarem de forma clara com os leigos.


Segundo a Netflix, Não Olhe Para Cima estabeleceu um novo recorde de horas assistidas da plataforma, tornando-se o segundo filme mais visto dentro de 28 dias do lançamento. O Oscar também reconheceu sua relevância, com indicações a Melhor Filme, Roteiro Original, Edição e Trilha Sonora. Ainda assim, o filme teve recepção mista da crítica, recebendo, no site agregador de resenhas Rotten Tomatoes, 78% na avaliação do público e apenas 55% na dos críticos, o que pode ser um reflexo dos jornalistas serem, justamente, um dos alvos de sua sátira. Cientistas e ativistas, por sua vez, acharam o filme excelente, sentindo-se plenamente representados, como observou a astrofísica Stephane Werner em seu Twitter:


"Algumas pessoas comentaram que fez mal pra visão dos cientistas, a mina ter surtado. Mas gente, essa é a realidade dos doutorandos, quase todo mundo é surtado. Seria fake se ela tivesse tranquilona... Existe de fato uma correlação de necessidade de ajuda psicológica com o meio acadêmico. Isso é real. E acho que também foi intenção deles trazer isso à tona. Inclusive precisamos falar mais sobre isso".

De fato, os absurdos do filme, em vez de torná-lo fantasioso, o tornam extremamente real. É um retrato preciso das atrocidades que vivemos, numa época em que pessoas acreditam em coisas como Terra plana e kit gay. Tanto que, mesmo escrito antes da pandemia, o roteiro também ecoa perfeitamente o modo como a Covid-19 foi tratada. E, ainda, mesmo baseando-se em personalidades dos Estados Unidos, para os brasileiros, o roteiro parece falar do Brasil, o que prova sua universalidade. Mais do que uma comédia, Não Olhe Para Cima é um convite à reflexão.



Artigo por Rubens Duprat
Edição por Gabriela C. Marra
Revisão e edição de imagens por Elisa Fonseca

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