O Filme Adaptation e Como Não Ser Um Escritor

Texto por: Madu Moreschi

Filme Adaptation de 2002, dirigido por Spike Jonze

Fracassamos todos, até aqueles que não fracassam; fracassar faz parte de tudo o que já foi sucesso.

Esse quote foi escrito por eu mesma. Não sou um nome de sucesso. (Intromissão da editora — pra mim, é sim) Madu Moreschi


Adaptation, filme de 2002, dirigido por Spike Jonze, é conhecido tanto pelo elenco, que conta com Nicolas Cage (Donald Kaufman) como protagonista, Meryl Streep (Susan Orlean) como coadjuvante, entre outros nomes importantes como John Malkovich e Judy Greer, quanto por ser um filme para profissionais da escrita no geral. É um filme que fala sobre o fracasso e a rejeição, uma obra de metalinguagem sobre a indústria cinematográfica que conversa com as realidades tanto dos escritores quando dos roteiristas. Pois, assim como o título da obra sugere, é um filme sobre a adaptação de um livro. Nesse sentido, se você está procurando um filme que inspire confiança, auxilie a sair do limbo criativo e a vender seu original para um streaming que irá adaptá-lo; saiba que vai estar apostando suas fichas no filme errado. Porém, se você é um escritor buscando embarcar na complexidade e na destreza que é ser um profissional da escrita, com todas as nuances da realidade complicada dessa profissão. Então, essa história é para você.

Em sua análise, não é, de forma nenhuma, um filme desprezível. No entanto, é bastante desconfortável e complexo. Mas também, verdadeiro e ácido em suas referências e críticas. Por isso, a primeira lição que se aprende ao ver o filme, é: deixe de lado o seu ego de escritor.

Em uma trama psicológica, muito próxima da realidade, ele nos coloca à prova com nossas mentiras diárias. Como, por exemplo, recompensas que sabemos que fazemos para amaciar nossa culpa por procrastinar. Do tipo uma pausa para um lanchinho no final da escrita de um parágrafo; concluído em cinco minutos, depois de duas horas de enrolação e autosabotagem.


E dentro dessa gama que é a proposta de cinema moderno deste filme, vemos uma narrativa que nos entrega o tema de: Como é ser um roteirista de verdade?


Em paralelo ao filme, na vida real infelizmente a resposta não é tentar vender seu longa metragem para uma produtora ou uma editora, (caso estejamos falando com um autor), e ser recebido de braços abertos. E, nesse caminho encontrar o melhor produtor ou agenciador ou editor que vai cortar as linhas desnecessárias do seu texto e melhorar sua escrita de forma HONESTA, colocando seu filme ou seu livro para deslanchar como uma super potência do século XXI, é ainda mais difícil.


Pois é, a realidade cambaleia mais para escritores e roteiristas que obviamente estão tentando vender o seu primeiro manuscrito *sem revisão ou edição de um profissional competente* por uma mixaria de contrato, que muitas vezes são abusivos e dizem querer ficar com os direitos do seu livro por dez anos, sem te pagar direito de autor. Isso porque "eles passaram por um período muito complicado na pandemia e estão sem dinheiro". Acredite, isso já aconteceu comigo. Somos escritores, mas não somos burros.


Sabemos que a escrita não é vista com bons olhos. Ser escritor muitas vezes é sinônimo de uma figura que herdou uma herança e por isso pode passar horas a fio lendo e escrevendo para seu belo prazer. Ou o sinônino de pobreza. As pessoas olham com certo peso para os escritores. E esse tópico também é explorado no filme Adaptation, através da insegurança excessiva do personagem principal.


Esse é um filme, que além de um ótimo reflexo da realidade, nos traz uma abordagem da fantasia muito interessante. A fantasia faz parte do trabalho de quem cria. E eu diria que o fantasioso do filme é bem pontuado, pois vem justificado com as alucinações e divagações do roteirista interpretado por Nicolas Cage. Com muitas sacadas gênias do personagem duplo, como um exemplo do constante pingue-pongue do perfeito e do imperfeito, da tentativa e da falha, de como ser um escritor e como não ser um escritor. Então, algumas perguntas aparecem ao longo da narrativa:


Como a cabeça de um roteirista/escritor funciona? Quais os anseios? As divagações? O processo criativo? Ou o que bloqueia o processo criativo? Esse filme nos dá a possibilidade de analisarmos todos esses cenários próximos a nós escritores com um olhar de fora.


Sobre o ponto dos anseios e divagações, o filme nos faz entender o quão convencidos somos e às vezes egoístas, ao acharmos que nossa voz de autor, escreve algo "tão necessário que o mundo, ou seu público, precisa ouvir/ver para mudar suas vidas". Se não, não vale a pena, não é? Eu sei que todos nós já pensamos nisso. Quando, na verdade, a realidade é que não sabemos falar nem sobre nossas questões mal resolvidas. O ponto prático dessa ideia é quando um escritor iniciante quer juntar milhares de plots e visões externas para explicar um conceito psicológico e filosófico. Vemos isso no filme com o personagem X. E o interessante é que o personagem não é nem novo nem iniciante, mas mesmo assim comete esses erros.


"Não escreva sobre o Homem, escreva sobre um homem."

-E.B. White


Eu gostaria de finalizar com a passagem do livro que li recentemente chamado "Manual de Sobrevivência de um Escritor" escrito por João Tordo, um autor português, ganhador do prêmio Saramago de literatura e que já vendeu milhares de exemplares dos seus inúmeros livros pelo mundo e hoje escreve como roteirista para a Netflix com a série "Três Vezes Paixão".

"Porque não há nada de natural no acto de escrever. É um ofício calculado, inorgânico, solitário, supérfulo e, em última análise, inútil, que te afastará irremediavelmente dos que te são mais próximos. Levado ao extremo, é causa de discussões, problemas em casa, rixas entre amigos, divórcio e horríveis demoras (...)". - Página 33, capítulo "Olhar para a vida".

Tordo não diz isso como quem quer desencorajar a profissão ou expressar o quão verdadeiro é o discurso de quem olha para o escritor com olhos pesados. No entanto, diz honestamente como entregar-se para o ofício de escritor é render-se a necessidade de contar uma história. De crescer na dor que é buscar a verdade das palavras, quando levadas a sério por si. A profissão, como gosta de dizer, é tediosa, solitária. Porém:

Ninguém escreve sozinho, a tradição literária de cada um -suas influências, as suas leituras- dita a sua futura mestria ou, pelo menos, uma base sólida onde as preferências aprumam o sentido do gosto. - Página 87, capítulo - "Técnica".

Agradeço a leitura caro escritor e leitor.

Nos vemos na próxima.



Sobre a autora



Madu Moreschi é o pseudônimo de Maria Eduarda Rodrigues Camargo, uma escritora e cineasta paranaense com alma carioca. Em 2019 publicou seu primeiro livro de alta fantasia intitulado "As Crônicas do Mundo Escondido - Volume I. Castelo Branco: a herança", de forma independente pela Amazon Brasil. Em 2020 participou e ganhou um concurso de contos com temática feminista pela Editora Fora da Caixa, com "A Queima dos Punhos", sobre a primeira pugilista Londrina e seu desaparecimento dos registros históricos. Também é colunista de cinema e escreve para a revista independente Perpétua. Hoje estuda cinema na Escola Superior de Teatro e Cinema em Lisboa, bem como, literatura e roteiro na Universität Hildesheim na Alemanha, enquanto prepara o lançamento do seu primeiro curta metragem.



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Artigo por Madu Moreschi
Preparação por Elisa Fonseca
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