Os Sete Monstrinhos e o Holocausto

Vida, obra e memórias de Maurice Sendak


É bastante comum que, quando se descobre sobre estereótipos antissemitas, tente associá-los a obras já conhecidas. Partindo dessa associação, acredita-se que “Os Sete Monstrinhos”, desenho animado baseado um livreto de Maurice Sendak, seja antissemita. Mas a verdade não pode estar mais distante disso.


Primeiramente, é importante lembrar que o livro no qual o desenho foi baseado é extremamente curto. No total, são apenas seis páginas com, no máximo, dois quadrinhos em cada.


Os sete monstrinhos não são tratados por nomes, e sim números e é comum que, no contexto da obra, isso seja associado aos números com os quais se marcavam os prisioneiros em campos de concentração. Número Sete veste roupas extremamente parecidas com os uniformes que nazistas obrigavam judeus a vestir em campos de extermínio e número Dois possuiu um nariz extremamente grande, o que é um estereótipo bastante comum de judeus. Além do mais, os monstrinhos são maltratados e odiados por outras pessoas de sua vizinhança.


Não sabendo da história de vida do autor, é comum que se diga que a história tem um fundo extremamente antissemita, cheio de caricaturas maldosas. Mas a realidade é que Maurice Sendak, roteirista do desenho, além de judeu, perdeu boa parte de sua família no holocausto.


Sendak nunca confirmou em vida que a história é baseada no holocausto, mas já disse que muitos de seus livros são inspirados em sua infância. Em entrevista, afirmou que seus pais lhe contavam histórias sem censura alguma e que, em sua adolescência, descobriu que seus parentes que moravam na Polônia morreram no holocausto.


Maurice já afirmou que “Onde Vivem os Monstros”, livro que foi adaptado para filme duas vezes, é baseado em histórias que seu pai lhe contava quando era criança. E assim como seus pais não o pouparam da verdade, ele acreditava que não deveria poupar crianças de coisas grotescas, como suas obras, incluindo seus monstros e criaturas assustadoras.


É inegável que seu estilo honesto e cru tenha tido grande influência pelos horrores que sua família enfrentou no holocausto, e pelo clima geral da Segunda Guerra Mundial. Theodor Adorno, filósofo alemão de pai judeu, uma vez disse: “Escrever poesia após Auschwitz é monstruoso”, e se perguntou como poderia haver poesia após tudo o que aconteceu nos campos de Auschwitz-Birkenau. Com um evento traumático na escala do holocausto, a arte parece supérflua, banal. Nada parece fazer sentido, já não existe mais poesia que se possa chamar assim. Porém, parte importante da humanidade é saber pegar o pior do pior dos tempos, honrar quem partiu e lutar por um mundo melhor. E se a poesia construída em cima disso é monstruosa, nada melhor para expressar isso que os monstros de Maurice Sendak. Tão grotescos, mas, ao mesmo tempo, tão próximos de humanos.


Poucos ilustradores conseguiram transmitir tanto com tão pouco quanto Sendak. Suas histórias se mantiveram como parte importante da literatura infantil judaica estadunidense por mais de meio século e mesmo após seu falecimento, em 2012, ele se mantém cada vez mais importante.



Existe algo único, sublime e quase imperfeito em suas ilustrações, algo indescritível. Maurice Sendak era abertamente gay e viveu por mais de meio século com seu parceiro, Eugene Glynn, até o seu falecimento em 2008. Maurice era um homem genial, à frente de seu tempo, e é possível encontrar entrevistas com Sendak sobre os mais diversos assuntos.


Seu legado foi de grande importância não só no meio cultural, mas no que diz respeito ao interior de cada um, e a mensagem obtida com sua história e o seu trabalho. Maurice Sendak, que sua memória seja uma bênção, pois suas obras com certeza foram.


Artigo gentilmente concedido pelo perfil @judeuqueescreve

Judeu Que Escreve surgiu como uma iniciativa de divulgação do cenário cultural judaico, ainda tão pouco falado e, muitas vezes, estereotipado. Administrada por Maxine e Esther, buscam trazer curiosidades, fatos, biografias, resenhas, tudo que popularmente possua ligação com o judaísmo, e mostrando o que há de mais belo e atrativo em sua rica cultura.

Edição e revisão do texto por Elisa Fonseca

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