Perfeita Obsessão, por Amenartas Platz


Está um belo dia lá fora.


Isso passa pela sua cabeça, mas não consegue erguê-lo da posição atual: sobre o chão de madeira escura perfeitamente encerado, onde descansa também um cavalete com a imagem dela. Sua diva perfeita e etérea, de madeixas loiras e um abismo no olhar. Seu vestido é uma obra de arte à parte. Rubro como as rosas que florescem no jardim, renda negra cobrindo a frente do busto e as laterais, o decote é fechado, comportado… A jovem moça deve ser tão recatada, uma perfeita princesa de contos de fadas, o que é salientado com a tiara prateada que foi pintada sobre os seus cabelos compridos.


Ilustrado por Elisa Fonseca


Sabe que é uma pintura, mas continua com a noção de que tem “algo a mais”. Talvez seja a forma com que ela trançe os dedos delicadamente sobre o próprio colo, ou talvez seja o sorriso escaldante, ou talvez a maneira que seus olhos parecem lhe seguir aonde quer que vá. Será mesmo que sua diva não o observa do outro lado?


Tão patético isso, apaixonar-se por um quadro.


E, sabe, existem pessoas demais em sua vida que poderiam ficar no lugar dela. Belas mulheres, doces senhoritas, cortesãs e rameiras. É tão rico e nobre, pode ter o que bem lhe agradar. Contudo, fixa o pensamento em um pedaço de tela. As pessoas à sua volta estranham, dizem que é uma obra de arte, sem sombra de dúvida macabra, mas não lhes dá a menor atenção.


Afinal, ela parece entrar nos seus sonhos.


Juntos, caminham por um vale onde rios adoráveis correm e florestas verdejantes suspiram, fadas mergulham no ar e pegasus galopam sobre o vento. Ali todas as formas de arte são capazes de existir simultaneamente. Ali, no sorriso dela, no som que saía de seus lábios, no seu jeito leve e descontraído de dançar.


E em um desses sonhos se transportou. Tão de repente como quando adormece. Era mais um dia observando a bela em sua moldura, então, de repente, estava em meio aquele vale, corriam e festejavam, trocavam palavras de amor e gestos de loucura.


Algo, em compensação, parece deslocado.


Talvez seja apenas impressão… impressão de que ela não está lá como deveria, ou que algo observa. O vento sopra, mas sua cadência lembra muito um uivo. Galhos estalam, sem que haja pés para atingi-los. O mal estar, antes superficial, transforma-se em pavor quando observa as árvores, outrora tão frondosas e belas, secando e morrendo, com folhas esfacelando antes mesmo de tocar a terra. Elas balançam como se fossem vivas, estendendo seus galhos encurvados na tentativa de capturar-lhe.


Passos ansiosos, afastando, mantendo-se o mais longe possível da orla da floresta. O rio que era tão cheio de vida, agora parece morto, nem a correnteza ondula sua superfície. Percebe que há coisas boiando nele, mas rapidamente desvia o olhar, com receio do que pode haver ali.


O sol que constantemente iluminava seus sonhos, ficou vermelho, uma estrela moribunda respingando algo negro e gosmento, uma mistura caída sobre o horizonte, fora de seu campo de visão. O que poderia ser? Não faz a menor ideia, e também não quer descobrir.


Infelizmente, querer nem sempre é poder.


Um vulto surge, vindo daquela direção. Sem saber se isso é um efeito do pavor crescente, apenas percebe que não é capaz de designar seus verdadeiros contornos. Cada vez que pisca, a coisa parece modificar algo em sua aparência bizarra, paralisando a atenção aos detalhes… O que permanece é a pele da criatura, uma gosma negra e gotejante. Enquanto observa, ela se mantém parada, mas basta piscar uma vez para que apareça bem mais perto.


A esse ponto, o coração está uma confusão sombria. Dispara contra o externo dolorosamente e a respiração descompassada torna ainda mais difícil colocar os pensamentos em ordem. Deveria tentar correr? Os pés estão firmes, plantados sobre o solo seco, eles não se movem por mais que implore por isso, mesmo tentando.


Desce o olhar para o próprio corpo. Paralisado. Não importa o quanto o cérebro grite contra isso. Um calafrio sobe pela espinha. A sensação de terror avassalador engasga.


Não deveria tirar os olhos da coisa, deveria?


Ela está muito mais próxima agora, quando volta a fitá-la. Perturbadora, a alguns passos de distância. Se havia qualquer chance de fugir, essa dissolveu-se e a única, real esperança, é que isso não passe de um sonho ruim. De que vai acordar, mais uma vez surpreso por ter adormecido tão repentinamente, em frente a beldade que observa do quadro, presa à moldura.


Pensar sobre isso é algo que não quer fazer, porque o medo infiltrado no coração está começando a dar conexões. As árvores, o rio, o sol… A coisa. Uma compreensão gélida está surgindo no fundo da mente. Apenas luta contra ela, sem querer acreditar nessa suposição. Negando veementemente a própria desgraça, faz o possível para não desviar o olhar, pois sabe bem que a qualquer minuto ela estará próxima o bastante para capturar-lhe.


E o que uma coisa saída dos pesadelos como essa poderia fazer? Tolo, nobre alienado por pinturas?


Você não sabe.


Você não quer saber.


Infelizmente, querer nem sempre é poder…

Um dia, sua falta será sentida. Um dia, as pessoas vão procurar. E, neste dia, quando seus parentes, suas mulheres ou qualquer amigo seu resolver entrar no quarto onde deixara a dama que tanto amava – e todos os outros tanto odiavam – eles verão:


Agora não é apenas uma coisa gosmenta e desagradável em uma paisagem moribunda, doentia e retratada em uma tela… mas duas.


Conheça a autora


Amenartas é uma garota apaixonada por livros, jogos, animes e mangás. Cosplayer, auto-intitulada escritora de fantasia e possuidora da gata mais manhosa e fofa da face da Terra.




Como foi seu primeiro contato com a literatura? O que te atraiu para o ramo da escrita? Quando você decidiu ser escritora?

Meu pai me ensinou a ler desde novinha. Minha irmã mais velha também lia bastante e escrevia então acho que acabei tomando-a como exemplo. Pelo que me lembro o primeiro livro mais sério que li foi O Príncipe Invencível de Virgínia Lefevre. Penso que o que me faz gostar de escrever é um misto: em parte eu sou muito imaginativa e é uma forma de colocar essas coisas pra fora e torná-las algo útil, em outra eu aprecio a capacidade que a escrita tem de passar nossas ideias e pontos de vista adiante.


Quais gêneros você escreve e por que os escolheu para trabalhar?

Principalmente Fantasia e aventura. Eu me arrisco em outros gêneros, mas esses são os principais. São os gêneros que eu gosto de ler e pessoalmente gosto dos elementos que os compõem.


Que tipo de histórias você conta?

Penso que escrevo apenas o que quero escrever, mas se analisar a fundo sobre, gosto de explorar relacionamentos interpessoais e o desenvolvimento pessoal dos personagens. Eu tendo a usar diálogos filosóficos com certa frequência e carregar no drama (e às vezes no humor sem ter algum motivo).


Existe alguma mensagem que busca passar?

Não é que eu deseje especificamente passar isso adiante, mas enquanto escrevo percebo a importância que tem a empatia e a capacidade das pessoas de ouvirem umas às outras e resolverem seus problemas por meio de uma conversa franca e educada.


Quais os segredos do seu processo de escrita?

Eu tenho uma ideia, faço um roteiro com os pontos básicos e trabalho em cima dele. Na grande maioria do tempo eu apenas escrevo algo que sinto que gostaria de ler, e isso influencia na minha narrativa. Primeiro eu escrevo, depois penso sobre o que acabei de produzir. Se há algo que eu deseje mudar ou que ache que está muito fora do que eu queria dizer, faço isso.


Quais suas principais influências?

Aprendi com Neil Gaiman o quanto uma fantasia pode ser bela e profunda, com J.R.R. Tolkien o quão complexo um sistema para criar um mundo inteiro pode ser, com Agatha Cristie sobre como são importantes as reviravoltas (embora eu nunca na vida tenha tentado escrever um mistério), e com Rick Riordan que podemos remodelar um conceito já existente sem destruí-lo no processo.


E tenho uma longa lista de mangás que colaboram com minha escrita por incrível que possa parecer.


Pode citar os mais importantes?

Tsubasa Cronicles, o primeiro manga que eu realmente peguei para ler até o final, e XXX holic que é diretamente conectado a ele. Ambos tem uma história bem complicada, envolvendo magia, sobrenatural, universos paralelos e paradoxo temporal, mas com uma filosofia bem interessante por trás. Principalmente pelo lado de XXX holic, que possui uma personagem feminina forte, sábia e equilibrada que tem muita presença em quase toda a trama.


Pandora Hearts me fez sofrer bastante. Ele é recheado de plot twists muito bem elaborados, e me fez tomar mais cuidado com o que eu escrevia, pensando no que seria revelado mais para frente. Além de ser uma história trágica, mas linda em essência.


Houseki no Kuni, ou Land of The Lustrous é uma obra de arte. É simplesmente a coisa mais diferente e inusitada que peguei para ler nos últimos anos. A história se passa em um planeta Terra pós catástrofe, onde humanos foram erradicados e a única forma de vida (inicialmente) são pedras preciosas antropomórficas com consciência que estão em guerra com os Lunaris - criaturas que vem da lua com o intuito de quebra-las e levá-las embora. É uma obra que fala muito sobre existencialismo, sobre mudança.


Por fim, há Bungou Stray Dogs. Seu roteiro parece uma peneira, mas o desenvolvimento dos personagens, em questão de background e personalidade, é maravilhoso. Destaque para o fato de que os personagens principais e secundários (talvez 99% do elenco) são baseados em escritores famosos, a maioria japoneses. Está longe de ser um estudo detalhado sobre o assunto, já que cai mais para a fantasia do que qualquer outra coisa, mas há referências suficientes sobre os escritores e suas obras, o que nos inspira a procurar saber mais sobre eles.


De que forma os mangás influenciam sua escrita?

Creio que ler mangas influência muito na parte da minha estética de escrever lutas ou algumas situações específicas. A cultura oriental também é muito rica e oferece uma boa quantidade de ideias, na maneira que eles cuidam e respeitam a natureza, alguns tipos de relacionamento, a maneira de pensar sempre no coletivo. Colocando frente a frente com coisas mais ocidentais, o choque entre ambos gera situações e conceitos interessantes pelo menos na minha opinião.


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Conto de Amenartas

Colagem por Naiana Iris

Edição por Elisa Fonseca

Revisão por Maria Eduarda

Entrevista por Filipo Brazilliano


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