As entrelinhas do Wattys na perspectiva do Fantástico

Nessa reportagem daremos continuidade à série iniciada em janeiro. O foco será o tema Fantasia e para isso trouxemos três dos vencedores da categoria. Decodificamos também um pouco sobre o funcionamento da plataforma.


Conheça os escritores


Henggo Italo Anatércio Luiz Horácio

Henggo é jornalista, artista plástico e autor de trinta livros com gêneros diversificados no Wattpad, sem contar participações em antologias. Na adolescência a escrita era como uma brincadeira, contudo, ao amadurecer passou trazer os textos para a realidade em que vive afim de provocar reflexão nas pessoas. "Jardim das confissões perdidas" foi sua primeira obra premiada com o Wattys, e "O Bailarino de Arcéh", a sua mais recente, em 2020.


Italo Anatércio nasceu no interior de São Paulo, mas cresceu entre os Estados de Alagoas e Sergipe. Desde criança, era fascinado pelas histórias e fábulas que ouvia. Durante a faculdade de Letras, em 2004, surgiu o desejo de se expressar por meio de seus desenhos e escrita. Sua obra mais conhecida “O Inventor de Estações” foi vencedora do prêmio Wattys 2019 na categoria Fantasia e “Além da Floresta” em 2020, além de ser o seu livro de estreia na Amazon. Se vê como um amante perdido da Fantasia, seu gênero de leitura e escrita favorito.


Luiz Horácio é nascido em São Carlos, São Paulo, e sempre demonstrou interesse pela contação de histórias, a princípio, por meio de seus desenhos e quadrinhos e depois por meio de seus contos e romances. Formado em Letras e mestre em literatura, lecionou inglês por mais de quinze anos, sempre se dedicando a cursos de desenho e de escrita criativa. Aos 36 anos, mudou-se para São Paulo para realizar o sonho de se tornar um quadrinista profissional. Atualmente, estuda na Academia Quanta e produz quadrinhos de temática LGBTQI+ no instagram. Seu livro “Os Fabulosos & O Artefato Milenar" foi outro destaque entre os vencedores do Wattys 2020.



Discorrendo sobre a fantasia


Segundo o dicionário online Dicio, fantasia pode significar dentre outras coisas: ‘imaginação criadora, ficção' e ‘Pequena obra de arte em que o autor se deixa levar pela imaginação caprichosa'. Entretanto, esse gênero ultrapassa definições. Fantasia é um compilado de sonhos e mundos que não subsistem em nossa realidade. Assuntos mágicos, elementos sobrenaturais, são peças fundamentais para esse tipo de obra.


Esse gênero se distingue da ficção científica e do horror de três modos diferentes: a temática do autor, a atmosfera criada e o aspecto geral da história. Porém, existe um compilado que acontece com a junção do horror, da fantasia e da ficção científica, chamado de ficção especulativa. A fantasia permeia diversos meios, desde desenhos até músicas. Sendo tão antiga que se pode encontrá-la em obras mitológicas da antiguidade.


Na literatura fantástica, assim como na ficção especulativa, o universo ou os personagens se diferem da realidade. O que é explicado, na maioria das vezes, por intervenções de divindades, magias, forças ocultas ou sobrenaturais, não necessitando de uma explicação científica ou tecnológica.



O autor Ítalo se guia principalmente pelo fantástico brasileiro, como as histórias folclóricas que escutava durante a sua infância dos interiores de Alagoas e Sergipe. Luiz Horário é outro apaixonado pelo folclore. Uma referência do autor é a mitologia greco-romana, que foi despertada curiosamente através do anime “Cavaleiros do Zodíaco”. Já Henggo prefere escrever o realismo fantástico contemporâneo para lidar em seus textos com os fardos da sociedade e assuntos delicados como o racismo e o machismo.



Obras premiadas


O Bailarino de Acéh



O livro de Henggo, "O Bailarino de Acéh", conta a história de uma garota que vive entre a rebeldia e a tradição da ilha onde mora. Cansada, a garota sonha com uma oportunidade de romper com tudo e mostrar o atraso da cidade. A chance aparece no dia do seu décimo terceiro aniversário, quando Sâmia é convidada pela avó para visitar a Ponte de Arcéh à meia-noite, exata hora da chegada do inverno. O convite seria agradável, se não houvesse um problema: em milênios, nenhuma pessoa conseguiu sobreviver à essa aventura. Entre a magia dos deuses e a iminência de uma guerra contra o continente, a jovem Sotein carrega o fardo dessas descobertas.


Sobre essa obra, Henggo contou que observou seu entorno familiar e social. Ele buscou representar em pequenos recortes a realidade de São Luís. O que trouxe uma base política para seu livro, representando aspectos como desigualdade social, machismo e homofobia. A obra foi iniciada quando o autor ainda tinha 19 anos e o contexto de construção e reconstrução da personalidade contribuiu para moldar a narrativa. Sua experiência de viagens às serras gaúchas foram a base para o clima invernal.


A Literatura para o autor representa a chance de estender a mão para alguém e inspirar pessoas a verem o mundo com outros olhos. Heranças que carrega desde que tivera contato com “A casa de bonecas” de Katherine Masnfield e “Antes do baile verde” da Lygia Fagundes Telles. Ele busca, através da escrita, provocar a reflexão das pessoas, e assim o fez em “O Bailarino de Acéh”.


Além da Floresta


No livro "Além da Floresta", de ítalo Anatércio, Ellaija, a protagonista, vive em uma ilha misteriosa, que repentinamente passa a sofrer uma sequência de ataques sobrenaturais causados por segredos sombrios de uma ferida não cicatrizada. Ao lado de Rivana e Uggo, seus dois melhores amigos, Ela inicia uma perigosa missão de tentar descobrir o que realmente há além da fronteira entre seu vilarejo.


Além da Floresta nasceu da fascinação do autor por fábulas, criaturas mágicas e misteriosas. Através de um processo de escrita intuitivo, ítalo trouxe vida a essa personagem bastante humana, com erros e acertos, que vive em um vilarejo conservador no meio de uma floresta. A inspiração de cenários se deu pelas imagens clássicas dos contos de fadas e pela releitura do filme “Branca de Neve e o Caçador”.


O romance fantástico é o primeiro livro do autor escrito em primeira pessoa. Para conseguir essa técnica ele pesquisou livros que se pareciam com o que ele queria escrever e passou a estudar formas de guiar o leitor sem deixá-lo preso a um enredo parado ou repetitivo, que é um grande risco nessa técnica.”


Os Fabulosos & O Artefato Milenar


O livro do autor Luiz Horácio retrata um universo onde onde anjos e bruxos são inimigos mortais. Quatro garotos, tal como em Jumanji, descobrem através de um jogo de RPG que os dentes que as crianças oferecem à Fada do Dente são, na verdade, ingressos para um passeio por Aca.L.An.Tu.S: a renomada escola de guardiões tutelares. O protagonista é um jovem negro desaparecido misteriosamente após a queda de ser dente. A partir daí deixamos o mistério para os leitores.


“Os Fabulosos & O Artefato Milenar" era um conto chamado "Travesseiros e Travessuras" que o autor escreveu em 2005. O autor se expressou no livro tanto por por meio dos seus desenhos quanto da sua escrita e usou como referência alguns autores como Machado de Assis, Dan Brown, Raphael Montes, Chimamanda Adichie, Victoria Aveyard e J.K.Rowling.



O que é necessário para se destacar no Wattpad?


O prêmio Wattys celebra as obras que marcaram a plataforma ao longo do ano, mas afinal, o que é necessário para ter a sua obra notada no Wattpad? Pensando nessas questões, preparamos algumas dicas, para, quem sabe, a sua obra se tornar a próxima vencedora do prêmio.


O que mais faz com que uma obra se destaque no Wattpad é a quantidade de curtidas e comentários. Alguns dos fatores que tornam essa visibilidade possível são: o direcionamento apropriado; a comunicação com o público e o domínio das ferramentas no aplicativo. Para ítalo, o autor precisa acreditar na própria história, abraçá-la como a sua maior magia e decidir que ela é sua, e que nasceu da sua mente e coração. Suas percepções se voltam muito para essa questão de proximidade entre autor e leitor.


Para atingir esse direcionamento necessário é preciso definir qual o gênero de seu livro e para qual tipo de público você está escrevendo. Tendo cumprido esse requisito, é importante adicionar, se comunicar e manter um contato constante com o seu público. O Wattpad é uma rede social, então manter os laços de sociabilidade, provavelmente, fará com que você tenha mais interação. E por fim, utilizar as ferramentas do aplicativo ao seu favor, como fazer uma biografia intrigante e chamar a atenção pela capa e sinopse de seu livro.


Luiz Horácio resumiu bem a questão: "Creio que uma história envolvente com personagens cativantes consiga atrair e prender muitos leitores. Para se destacar é preciso uma capa chamativa e muito "social networking". Uma bela capa e uma ótima sinopse ajudam, mas o mais importante é a interação com outros escritores e leitores. Não basta publicar, é preciso ler as histórias dos outros e interagir com as pessoas. Se elas gostarem do seu livro, vão divulgá-lo para os amigos”.


Já Henggo, se volta para a questão da qualidade literária, que também não deve ser esquecida. O autor acredita que a qualidade envolve tanto questões ortográficas quanto questões narrativas, e esse é o diferencial necessário para se destacar no Wattys.



Alguns contrapontos sobre o prêmio Wattys


Apesar de ser uma plataforma bastante útil para autores independentes, como bem disse Henggo, “um meio de democratização da literatura”, o Wattpad possui algumas falhas no quesito de contemplação ao artista. ítalo considera que o fato de a plataforma não repassar nenhum lucro para ajudar o dono da obra é um problema: “É como você disponibilizar sua obra, para uma marca anunciar seus produtos nela, e você não ganhar nada com isso. Absolutamente nada”. O autor sugere que o Wattpad forneça mais oportunidade aos autores.


A relação com o prêmio é portanto gratificante, mas com alguns deslizes. O autor Henggo inclusive cita Gabriel García Márquez, pois também considera que o prêmio é somente uma etapa da jornada, não um indicativo de que ele tenha chegado no auge.


Trouxemos algumas reflexões, passeamos ao longo do gênero fantasia e conhecemos um pouco mais sobre esses três talentosos escritores e suas obras. No mês de março lançaremos a última reportagem da série Wattys, onde conheceremos um pouco mais do gênero romance e seus destaques no ano de 2020. Outra novidade para a última reportagem é a grande discussão que surgiu recentemente em torno do futuro da plataforma. Não está sabendo? Em março contamos para vocês.


Essa matéria foi produzida por Elisa Fonseca, Felipe Henrique, Jennifer Valverde e Michele Rodrigues.

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