The Damn Village, de Carolina Mello e Ester Cristina

Atualizado: Mai 13

“Parecia ser um anjo, somente devido à luz própria, porque o seu rosto era digno de uma atração do circo dos horrores. A falta de sua mandíbula mostrava, com exclusividade, a língua pendendo sem nenhum tipo de apoio, enquanto a saliva misturava-se ao pus e ao pouco sangue que escapava do canto do que deveria ser a boca e escorria livremente para o seu pescoço e tórax”


A resenha de hoje é sobre o livro "The Damn Village" das autoras Carolina Mello e Ester Cristina. A obra é um bom livro de terror. Demorei três dias a lê-lo e só não li mais rápido porque também senti necessidade de parar um pouco. A escrita das autoras soa muito a poesia. Elas descrevem o sentimento do personagem principal muito bem. Os sonhos do protagonista são trazidos à realidade pelo leitor e a narrativa é de uma qualidade incrível. É bastante visual, o leitor consegue perceber em sua mente o que está a acontecer e acaba por se sentir nauseado, tendo reações semelhantes aos personagens polícias.


The Damn Village tem temas pesados. A advertência é importante. Esta história nem todos podem ler. Tive que fazer várias paragens ao longo dos capítulos pelo enorme momento de tensão entre sonho e realidade. A questão nem é o tema, porque as pessoas que leem terror já conhecem as temáticas, mas pela forma como as autoras descrevem o enredo.


O livro começa com Jason, um homem pobre e cheio de dívidas que, encontrando-se sem saída e prestes a ser assassinado por agiotas, foge e acaba por chegar a uma vila estranha. Ali acontece um assassinato em série e ele tenta provar a sua inocência a todo o custo. Não há momentos “mortos”, como se costuma dizer. É um terror bem construído. Jason vai parar a um lugar meio esquisito, que nem sabe como foi parar, e o leitor também acaba ficando perdido porque o protagonista e a história do mesmo acaba por envolvê-lo.


Por lá, ele conhece uma anciã de ar fraternal chamada Abigail, porém sonhos asquerosos envolvendo a idosa se confundem com a realidade, fazendo com que Jason entenda que existe algo errado naquele lugar. Depois conhece Emma, uma jovem lindíssima, com uma beleza incomparável. Eles iniciam um romance, contudo o acaso os separa por momentos de tensão.


Jason é um homem preocupado, mas que dá um ar da sua graça no meio dos seus devaneios e pensamentos. Ele é um personagem que o leitor olha com carinho, embora não devesse. Quando ele conhece Claire, uma mulher que o chamou a atenção logo à primeira vista, todas as pessoas que ele conhece na vila se tornam importantes.


Há um capítulo em que ele e Emma vão até uma casa e ela conta a Jason que as crianças daquela vila nascem com algum defeito. Uma não tem uma perna, outra tem a língua presa, outros têm problemas mentais e isso tudo partiu de uma lenda de uma mulher que roubou um livro de uma outra mulher muito inteligente que era um gênio do ocultismo e da alquimia. Jason é muito medroso, mas Emma pede que ele vá com ela. Esta foi a parte em que não existiu originalidade no enredo pelas histórias e lendas da vila e florestas locais, mas, ainda assim, a qualidade da narrativa é incrível.


Toda a história envolvendo os dois, Jason e Emma, é algo importante para o enredo e a ligação entre eles é misteriosa. Não por parte dele, porque conhecemos bem, mas por parte dela. O lado engraçado do Jason quebra o momento de tensão, o que é bom para a leitura. As autoras cortam os momentos de tensão com uma interposição entre a história que é narrada por Jason e os ouvintes na polícia. Também por várias vezes lemos em pequenas frases o personagem principal adiantar algo mais sombrio. Ele fala que “o pesadelo é o começo” ou que ele “estava enganado”. É bastante interessante a forma como as autoras descrevem e narram tudo, como se o leitor estivesse no mesmo papel que os polícias, ou seja, que estivesse a ouvir, a imaginar e a visualizar mentalmente. Ao ler o livro entendemos que a lenda é real e que há personagens naquela vila que escondem segredos.


O final do livro é outro ponto interessante. Há uma explicação sobre o título deixado. E o epílogo termina em chave de ouro, com um final aberto fantástico. The Damn Village é um ótimo e realmente para maiores de 18 anos. Recomendo com duas dicas: Não acreditem no Jason e não comam nada enquanto leem este livro.


Diana Pinto



Conheçam as autoras



@annmaeve073 e @g4r0l


Quando você começou a escrever, Carolina?


Carol: Foi numa época turbulenta, onde sofria bullying e problemas familiares. Decidi escrever um livro. Eu já tinha escrito um monte de conto de terror e decidi juntar tudo em uma antologia que se passa no mesmo universo.


E como surgiu a ideia desse livro?


Ester: Caroline conversou sobre um enredo onde a criança nasceria com um deformidade, e a partir do nascimento dela todas as crianças do vilarejo nasceriam com uma deficiência diferente. A ideia inicial prevaleceu, mas mudamos bastante coisa.


Carol: Eu quis ajuda dela pra fazer o livro, porque sozinha só consigo fazer contos e a descrição dela é maravilhosa. Decidimos pôr um pouco de cada referência (algumas aos filmes do Ari Aster e características físicas dos personagens dos filmes de Jordan Peele)


Me contem um pouco da história!


Ester: O livro se trata de uma maldição gerada pela vingança. Pessoas morreram com ódio e seus espíritos voltaram para atormentar os descendentes dos culpados pelo crime. Gira em torno de um vilarejo onde o protagonista foi parar após uma fuga. As pessoas que caem lá, dificilmente saem. O começo do tormento é o terror noturno, seguido de alucinações e peças pregadas ao psicológico. Jason é como se fosse um portal para que a maldição tenha início.


Carol: Conforme Jason vai descobrindo a história do vilarejo, vê que a coisa é mais sombria do que parece.

Ester: À medida que o tempo passa, mais louco ele acredita estar ficando. O terror psicológico ficou como minha tarefa principal no livro.


Carol: Os relatos do protagonista são contados numa sala de interrogatório (ele foi preso depois de ser encontrado desmaiado com uma faca cheia de sangue), e é ali que se vê os reflexos da loucura que aquele vilarejo deixou nele. A minha tarefa dentro do projeto foi a descrição do gore. Tem muita carnificina no livro, coisa pesada mesmo.


Uma curiosidade que tive é: de onde surgiu essa relação com o terror?


Carol: A fascinação por esse tipo de narrativa surgiu quando eu comecei a pensar o tipo de punição que as pessoas deveriam ter em crimes reais. Stephen King foi a minha principal referência, mas o que me inspirou mesmo a criar essas histórias foi um canal de creepy pastas: "Sigma terror" Ambu play.


Ester: Eu gosto de terror faz anos, os filmes que mais vejo são nesse tema. Tenho interesse na área de psicologia, então tudo que envolve a mente para mim é válido.


Para finalizar, vamos falar um pouquinho sobre os projetos futuros de vocês?


Carol: A princípio uma coletânea de contos de terror baseada no limite psicológico. A partir daí eu estou querendo criar spin offs dos personagens. Pretendo lançar no ano de 2021.


Ester: Meus projetos pessoais se voltam em torno da saga TDV e algumas fanfics que tenho em mente.











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