A poética de Letícia Mariana em Entre Barbantes

Atualizado: Abr 24

Michele Bran


Conversar com Vitória me faz bem, ainda que a conversa seja macabra e assustadora. Pobrezinha, tão jovem e tão sofrida. A esperteza de minha aprendiz será mais do que necessária para sua sobrevivência. Constantemente seu existir será testado, argumentado e questionado. Ela precisa me conhecer. Está mais do que na hora de sua arte levá-la até mim, é impossível aguentar suas quedas, inadmissível esquecer suas dores como se fossem folhas no quintal da ilusão. Enquanto a pequenina conseguir caminhar como caminha agora, enquanto os seus inúmeros pensamentos permanecerem e guiarem seus passos, eu estarei aqui. Protegendo, alertando a pequenina”.



Hoje na coluna Clube do livro temso a resenha de “Entre Barbantes”, lançado pela editora Multifoco, da autoria de Letícia Mariana. O livro é um suspense entremeado de poemas.


A personagem principal, Vitória, é uma menina misteriosa que guarda segredos no coração. Todos os personagens a perseguem emocionalmente. (Leticia Mariana)

O livro é narrado majoritariamente em primeira pessoa por alguém que a princípio a gente não sabe muito bem quem é, apenas que é alguém que assume para si a tarefa de cuidar e orientar nossa protagonista: Vitória, uma garotinha de uns nove anos, que vive em um contexto familiar meio bagunçado. Não temos muitas informações sobre a mãe dela, é dito apenas que ela foi internada em um hospital psiquiátrico, mas não é dito o porquê. O pai dela ele é um misto de ausente com presente do jeito errado: a menina descobre logo cedo que tem uma aptidão para as artes e o pai se aproveita disso para enriquecer.


Pouca gente se importa com ela, além dessa narradora misteriosa, e eu queria destacar o papel do Jorge, que é o melhor amigo dela. Achei muito bonita a forma como ele cuida dela e até enfrenta os adultos (mesmo sendo só pouco mais velho que ela) para defendê-la, de como ele está sempre por perto. Há uma clara paixonite infantil, mas eles têm uma amizade muito bonita.


O livro apresenta 300 páginas divididas em 20 capítulos. Para quem, como eu, está mais habituado a um suspense cheio de ação, pode estranhar um pouco o começo, que é mais descritivo: exposição da trama; apresentação dos personagens; contexto vivido pela Vitória, além do fato de que tudo parece ver meio visto que por trás de um véu, a gente vê os contornos das cenas, mas não consegue ver com clareza algumas coisas. Parece meio confuso falando assim, mas é uma confusão intencional, apenas pra aumentar o efeito de surpresa que a gente tem quando as peças vão se juntando e a gente entende o que está acontecendo, aí vê que não tinha como ser contado de outra forma.


Outra coisa muito interessante da obra é que há poemas entremeando a prosa, casando bonitinho com o contexto e ampliando o impacto que a história causa em quem está lendo. Até queria destacar um aqui, lá pertinho do fim do livro, não lembro se no último ou penúltimo capítulo agora, mas enfim, deixei aqui salvo pra lê-lo porque achei muito bonito e sensível, além de combinar perfeitamente com o clima da história:


Ilusão do saber


Permaneço intacta sob o límpido

Digno livro de páginas amareladas

Saber divino, sensatas palavras.

Súbita vivência, jamais falada

Cantada, contada, um tanto fechada

Ilusão, nevada, o frio de tal alma

Charada em silêncio, saber que acalma

Iludida, perdida, resquício d’alma

O saber, por fim, absorve o trauma.


Por último, só tenho a dizer que o livro é muito interessante, tem uma reviravolta de deixar o leitor tonto e até quero aproveitar para dizer em público o quanto invejo a autora por ter tido essa ideia maravilhosa antes de mim. Espero que tenham gostado da resenha e decidido dar uma chance ao livro.


Michele Bran é escritora, blogueira e podcaster na Fabrica de Histórias.


Conheça Letícia Mariana


Letícia Mariana é escritora, palestrante e criadora de conteúdo na internet. Acadêmica da Academia de Artes, Ciências e Letras do Brasil (ACILBRAS), sendo também assistente administrativa da academia. Autora da obra ‘Entre Barbantes’, publicada em 2018 pela Editora Multifoco sob o selo ‘Birrumba’. Colunista do Jornal Cultural ROL e Acadêmica Correspondente da Academia Caxambuense de Letras.


Quando foi seu primeiro contato com a literatura?


Eu comecei aos oito anos de idade, quando tive a primeira aula sobre poesias. Minha professora ficou encantada com meus versos, e mandou-os para o extinto jornal "O Globinho". Quando eu vi o meu poema lá, nem acreditei! Percebi a minha vocação. Escolhi porque me apaixonei pelo trabalho, e porque é o que sei fazer verdadeiramente.


Com quais gêneros textuais e temas você se identifica mais?


Eu amo conto, crônica e poesia! Principalmente poesia, sinto que é o meu destino, que ainda trabalharei muito com poesia! Eu adoro temas repletos de emoção, talvez um bom suspense ou algo que mostre o psíquico do personagem.


Qual é a maior dificuldade para você?


O meu perfeccionismo. Sempre acho que posso melhorar e isso me trava.


E se alguém com essa mesma dificuldade lhe pedisse um conselho, o que diria?


Faça terapia! É o que eu faço. Sendo bem honesta, acho que eu é que preciso de um conselho. Vamos sentar e tomar um café!


Nos fale um pouquinho sobre seu livro "Entre Barbantes".


Entre Barbantes é um suspense entremeado de poemas. A personagem principal, Vitória, é uma menina misteriosa que guarda segredos no coração. Todos os personagens a perseguem emocionalmente, isso é o que parece ser. E será que é? Eu queria que fosse um livro somente de poemas, mas depois tive a inspiração para o enredo.


Como surgiu a inspiração e como foi o processo de escrita?


Eu sonhei com uma menina, desesperada, pintando num cativeiro e cortando o cabelo! Foi o que eu esperava para começar, de fato, o meu livro. Agora, o processo de escrita foi demorado, já que a obra tem 300 páginas. Eu andava pela casa e escrevia um parágrafo, andava mais um pouco e escrevia outro, nossa!


Me fala um pouquinho dos seus projetos futuros, Letícia?

Eu estou escrevendo um livro só de poemas! Também tenho uma obra em processo de publicação, ainda não posso revelar o nome, é outro suspense entremeado de poemas. Quero publicar esses livros, e só Deus sabe o que será. Tenho um sonho, e meu sonho é ter cada vez mais leitores, viver da escrita. Creio que é possível, mesmo que demore.


Ficaram curiosos para conhecerem um pouquinho mais da autora? Acessem seu Instagram!

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