Skincare, por Maurylia Loureiro

Atualizado: 17 de fev.

Florestas, oceanos, biomas inteiros. Tudo, um dia, foi uma imensa sopa cósmica. Quantas criaturas saíram desse caldo? Quantos segredos as profundezas ainda escondem dos seres humanos?


A Terra, anteriormente habitada por criaturas colossais, hoje abriga tecnologias capazes de destruir sua existência. A linha do tempo divide-se em animais bestiais do passado e máquinas mortais do futuro. O ser humano, no meio de tudo isso, consegue ver apenas lampejos da realidade.


Infelizmente, de tempos em tempos, a divisão das eras se estreita e monstros nascem na era das máquinas. O surgimento deles acontece onde ainda se preserva a pura natureza. Por isso, cidades pequenas são o grande palco das manifestações de lendas e mitos.


Em Cubas, uma dessas cidadezinhas no interior de Minas Gerais, contavam a história de um monstro imerso na floresta virgem que atravessava o município. Segundo os moradores mais antigos, alguns homens tiveram a infelicidade de se perder por ali, assim como alguns animais.

Colagem digital produzida por Filipo Brazilliano

Aconteceu com Adão, cerca de três décadas atrás, quando ele voltava de uma empreitada com o amigo, Afonso. A Kombi que os trazia da cidade vizinha os deixou à beira da estrada principal. Seria pouco tempo de caminhada até chegarem em casa. Conversavam animadamente para afastar o medo de assombrações, pois o relógio marcava quase meia-noite. De repente, Adão estacou como se tivesse sido enfeitiçado. Não ouvia mais o que o amigo dizia, sentia apenas a necessidade de adentrar a mata, antendendo o chamado da mãe.


Afonso protestava contra o rumo que o amigo estava tomando, mas sem conseguir captar sua atenção. Em dado momento de desespero, entrou na mata atrás de Adão, instantes depois, ao ouvir um som gutural, correu em direção à estrada e tentou achar algum esconderijo.


Detrás de uma árvore, Afonso viu a bocarra da criatura, o seu corpo bestial e sentiu o cheiro podre da morte. Sabia que Adão não existia mais. Esperou o monstro se afastar e fez o trajeto para casa o mais rápido que conseguiu, mesmo com as pernas teimando, às vezes, e o estômago se revirando.


No dia seguinte, depois de Afonso colocar toda a cidade a par do que havia acontecido, um grupo de pessoas se armou como podia: facas, foices, revólveres, terços e cruzes; e se enfiaram na mata. Encontraram apenas seus ossos ao pé de uma árvore imensa.


Com o passar dos anos, quando ocorriam desaparecimentos na cidade, os moradores se reuniam para investigar essa mesma parte da floresta. Nunca acharam a criatura, apenas ossos. Os corajosos diziam para que montassem acampamento para esperar a noite cair, mas eram sempre impedidos. De qualquer forma, não encontrariam nada além do já conhecido.


Longe dali, a irresponsável influencer Isabela voltava do mercado gravando stories enquanto dirigia. Falava sobre a importância das dietas e exercícios rigorosos, não se importava com as consequências fatais na vida de terceiros. Durante a pandemia do ano anterior, deu festas em sua casa e rebatia as críticas dizendo que as pessoas estavam com inveja.


Isabela era o modelo perfeito do padrão de beleza. Branca, 1,70m de altura, cabelos lisos e loiros, olhos verdes, pele sem nenhuma mancha ou acne, traços harmônicos, corpo magro e músculos bem definidos, a, os. Sua fortuna também impressionava. Inúmeras jovens a idolatravam.


Ao chegar em casa, iniciou a live para ensinar mais uma de suas receitas milagrosas. Lavou os ingredientes de seu suco matinal, picou e bateu. Transferiu a mistura para um copo de 500 ml e levou à boca.


— Isso aqui tá muito gostoso! Se vocês não conseguirem apreciar, é porque precisam urgentemente perder esse paladar de gordo — riu. — Vou me arrumar pra ir à academia. Vejo vocês mais tarde! Beijos, seguimores!


Desligou a câmera e jogou o copo de suco na pia. Uma de suas empregadas se virou assustada.


— Que foi?! Se quiser essa gosma nojenta, pode pegar.


Marta não disse nada, apenas abaixou a cabeça. Não entendia como Isabela conseguia manter aquela aparência sem fazer absolutamente nada do que pregava. Tampouco poderiam ser intervenções cirúrgicas. Trabalhava para a blogueira há cinco anos e nunca a viu voltar de nenhum procedimento estético. “Algumas pessoas têm sorte e a sorte dessa aí deve ser infinita” pensou.


Isabela caminhava em direção ao quarto quando sentiu um arrepio subindo lentamente pelas costas. Parou e olhou para as mãos, o dedo mindinho estava com uma descamação. Levou-o ao nariz e se enojou com o cheiro. Estava prestes a acontecer outra vez. Voltou para a cozinha escondendo a mão direita no bolso do short e agarrou a primeira garrafa de whisky que viu pela frente. Marta, ao ver a cena, sentiu pena. Que tipo de existência seria tão vazia a ponto de a pessoa precisar se embebedar às nove da manhã? Talvez a influencer não fosse tão sortuda assim.


***


Em Cubas, três vacas desapareceram, como se tivessem sido atraídas por aquele pedaço de terra infernal. Passaram seis anos desde a última vez que isso aconteceu. Boatos de que em breve a criatura apareceria fizeram um grupo de moradores se reunirem para ir ao local amaldiçoado. Quando chegaram, encontraram apenas a ossada dos animais e uma poça de sangue com barro.


— Crendeuspai! — Um dos homens falou, tapando a boca e o nariz com a camisa. Percebeu que o lugar onde estavam pisando era mole e barrento.

Mas não era somente a umidade do solo que destoava do resto. Naquela área da mata fechada, havia um círculo de alguns metros com apenas uma árvore, dentro dele nada mais crescia. Ali estavam as ossadas dos animais e nem as moscas ousavam se aproximar. — Vamo embora, seu Carlos. Deus te dá outras vacas, mas outra vida não tem como, não.


Carlos, em transe, queria chegar mais perto daquela árvore, se aconchegar naquele solo. Para ele, o lugar exalava colo de mãe. Foi necessário arrastá-lo dali. No meio da noite, porém, não resistiu ao chamado da terra. Não calçou os chinelos e nem trocou a roupa. Apenas caminhou por algum tempo até se encontrar no local insólito e virar apenas mais um crânio que seus colegas encontrariam dias depois. A terra envolveu seu corpo, que se decompôs em questão de minutos. Carlos foi o último nutriente para a criatura nascer forte e saudável.


Naquele círculo de lama sangrenta, algo começou a pulsar. Se projetava para cima a cada impulso, até romper a película que o separava do ar puro. Com um grunhido, a criatura emergiu.


Tinha cerca de um metro de altura e a mesma cor da lama de onde saiu. Seu corpo lembrava uma forma ovalada, se arrastava com cinco pernas e da metade do seu corpo saíam três braços de cada lado, longos demais, finos demais. A criatura não tinha olhos e nem nariz, apenas uma fenda na vertical que se abria de tempos em tempos, mostrando dentes afiados. Ela parecia ser toda feita de carne mastigada. Um rastro de lama podre era deixado por todo lugar que passava.


Os jornais sensacionalistas se prontificaram para publicar os relatos dos moradores. Ora faziam piada, ora aumentavam a história para o fato parecer mais assustador.


***

O estado de Isabela piorava e o mal cheiro de suas mãos poderia alarmar as pessoas que trabalhavam em sua casa, por isso deu folga de algumas semanas às empregadas. A mão direita teve que ser enfaixada para esconder as descamações. A influencer diminuiu a quantidade de lives e stories nas redes sociais.


Estava sentada no sofá tomando uma taça de vinho quando a melhor amiga encaminhou a notícia de uma suposta criatura rondando a cidade de São Paulo. Segundos depois, Isabela recebeu a mensagem de Letícia:


"Amiga, você viu isso? Hahaha


Esses idiotas estão inventando até bicho-papão.


Tenho certeza que é efeito da vacina. Hahaha


O que você acha da gente ir pra Fortaleza semana que vem?"


Jogou o celular no sofá. Estava cansada de sentir esse medo. Centenas e centenas de anos e nunca acabava. Lembrou o quão aterrorizante foi a primeira vez que aconteceu.


***


Isabela tinha outro nome, outra aparência. Era bonita, porém sua personalidade afastava a qualquer um. Queria ser poderosa e estava disposta a abrir mão de qualquer coisa por isso.


Associou-se às bruxas achando que assim alcançaria meios de chegar ao seu objetivo maior, mas se frustrou. As bruxas usavam a natureza e o conhecimento para cura do corpo e da alma. Elas tentaram dissuadir Isabela, mostravam todas as coisas pelas quais valeria viver e que o poder, como a aprendiz almejava, sujava a alma. A moça ouviu cada sermão pacientemente, entretanto estava disposta a conseguir os pergaminhos.


Olívia, uma das líderes, tinha em sua posse os escritos sagrados. Era por eles que as bruxas aprendiam poções e rituais. Isabela, depois de conquistar a confiança da comunidade, foi ensinada a ler e interpretá-los; sabia que existiam partes sombrias nos pergaminhos. Mais um pouco de paciência e eles seriam seus.


Naquela época, o símbolo do poder era o rei. Precisava conquistá-lo e, para isso, algo trágico deveria acontecer à rainha. O que Isabela faria com o rei depois de se casar com ele? Ainda precisava pensar. Não dividiria o trono com ninguém


Em uma noite de lua minguante, Isabela pediu para ficar a sós com Olívia. Inventou a história sobre seu coração ter sido partido, chorou e fingiu adormecer no colo da líder. Amorosa, Olívia deixou que a aprendiz continuasse em seus braços e adormeceu também. Isabela, atenta à respiração profunda da líder, se levantou com cuidado e conferiu se estavam realmente sozinhas na casa. Levantou os tecidos do seu vestido até o joelho e pegou a adaga que estava amarrada à perna.


Por um momento, Isabela vacilou. A respiração estava descompassada. Olhou para o rosto de Olívia, por alguns segundos, se sentindo triste por querer matar alguém que só fazia o bem. No entanto, como se tivesse sido tomada por uma determinação sobrenatural, ela se aproximou e rasgou a garganta da líder.


Além do pergaminho, precisava de sangue fresco para o ritual. Com um pano enxugou o sangue do chão de madeira e torceu o líquido dentro de um recipiente. Lembrou-se de um sermão sobre bondade, mas já tinha chegado longe demais. Nada poderia detê-la agora.


Caminhou até o local mais afastado que pôde, avistou a árvore grande e decidiu que o ritual seria feito ali. Salpicou o sangue de Olívia ao redor da árvore enquanto recitava as partes dos escritos sagrados. O fogo rosado se acendeu onde havia sangue e expandiu, até formar um círculo perfeito. Dentro dele, a grama morreu e a terra se tornou barrosa. Ao pé da árvore, duas flores marrons desabrocharam. Isabela colheu-as.


Na manhã seguinte, apenas se falava sobre o assassinato da líder das bruxas. Cidadãos de bem comemoravam a morte da maldita, diziam que fora providência divina.


Isabela estava agitada. Precisava fazer alguns homens tomarem gotas do chá que preparara com as flores colhidas.


O chá, segundo o pergaminho, multiplicaria a libido e turvaria a consciência. Para o plano dar certo, esses homens deveriam engravidar suas esposas ou amantes e, depois de um sono profundo, entrar em transe e caminhar até o círculo do ritual. Seus corpos seriam oferecidos voluntariamente. As futuras gerações dos filhos desses homens enfeitiçados sempre se entregariam, quando precisasse, à terra que os gerou.

A aprendiz se infiltrou em um prostíbulo e contaminou as bebidas que seriam oferecidas aos clientes. Nem todos eles engravidariam uma mulher naquela noite, nem todos eles seriam sacrificados. Assim como é necessário ter uma despensa com comida suficiente para um período de tempo, era preciso ter uma reserva para futuros rituais.


Na madrugada seguinte, Isabela chegou ao local do ritual e engoliu o grito de susto ao ver os ossos humanos dentro do círculo. Respirou fundo e se preparou para a terceira etapa. Deveria esfaquear o próprio coração com a raiz que foi gerada pelo sacrifício.


Caminhou até o lugar onde antes colhera as flores, se abaixou e puxou a raiz. Era dura e pontuda como a adaga que usou para matar Olívia. Suspirando pela última vez, recitou os versos do pergaminho e cravou em si o objeto. Seu corpo foi sugado pela terra tão rapidamente quanto os dos homens.


Em seus planos, Isabela voltaria à vida em sete dias com a capacidade de fazer turvar o raciocínio de quem desejasse e com poderes de causar a morte. Só precisaria tocar uma vez na rainha e seu objetivo estaria quase alcançado. Mataria a monarca espalhando uma doença infecciosa por sua corrente sanguínea e alteraria a consciência do rei.


Queria que todo o reino visse a sua ascensão, que sentissem inveja dela a cada passo em direção ao trono e, quando enfim fosse a única soberana, que dobrassem-se aos seus pés.


Quatro dias depois, Isabela foi dada como desaparecida, mas as bruxas entenderam o que de fato havia acontecido. Procuraram pela floresta vestígios de rituais e, quando encontraram, tentaram selar o portal entre o mundo dos mortos e dos vivos.


No dia do retorno, a terra pulsou e a criatura emergiu. Não tinha uma consciência clara, apenas se direcionava para o castelo. Seu instinto dizia que deveria chegar à rainha.


***


Isabela sentiu os pelos do corpo se eriçar. Estava se aproximando. Ela não conseguia parar o ciclo, precisava de ajuda. Avisou nas redes sociais que faria uma live em meia hora, mostraria sua rotina de skincare e ensinaria aos seguidores o segredo da pele perfeita.


— Oiê, meus seguimores! Que bom falar com vocês! Eu tava sumidinha porque precisei de um tempo pra desintoxicar das redes sociais, mas tô de volta! — Riu forçosamente.


Tirou a escovinha facial da necessaire, espalhou o sabonete pelo rosto e começou a limpeza. Falava sobre a importância de usar produtos de qualidade quando um rugido soou ao fundo. Isabela se virou para o lado, olhos arregalados. Nos comentários as pessoas perguntavam o que tinha sido aquilo.


— Não se preocupem, deve ter sido a tevê que deixei ligada — disse. Seus ombros estavam tensos e a voz vacilava.


Isabela se abaixou para lavar o rosto e, quando levantou, ficou paralisada olhando para a porta. A criatura de um metro, feita do que parecia ser carne prestes a se decompor, invadiu a live. Ninguém conseguiu identificar onde começava o rosto do monstro e onde terminava, a única pista era a fissura na vertical do tamanho de um antebraço, que agora se alargava para engolir uma Isabela já fora da câmera, caída no chão, resignada.


Foram segundos de gritaria e rosnados que se confundiam com o barulho nauseante da criatura engolindo os pedaços da influencer.


Os seguidores com o estômago mais forte ainda assistiam a live tentando entender o que estava acontecendo. Os barulhos pararam e puderam ver a mão direita de Isabela se apoiar na borda da pia ao tentar se levantar


Lentamente, ela voltava a assumir aquela forma tão amada pela internet. Metade do seu rosto ainda pertencia à criatura. Aos poucos, a pele macia, os cílios naturalmente grandes, a boca carnuda e rosada se refizeram frente à câmera. Após a transformação completa, Isabela estalou os próprios ossos para colocá-los no devido lugar.


Admirou a pele perfeita frente ao espelho.


— Vocês têm que entender, meus seguimores, que nem toda rotina de skincare e produtos caros do mundo podem fazer milagres. Às vezes, temos que nos submeter a procedimentos mais… — tirou da boca o grampo que prendia o cabelo da outra Isabela — Severos.


No passado, a criatura engoliu os pedaços da rainha e assumiu a sua forma, e a bruxa aprendiz retomou a consciência. Após sete meses, fez uma doença surgir nos pulmões do rei. Infelizmente, ainda restava a princesa adolescente e insolente que descobriu não ser sua mãe a mulher que ocupava o corpo da rainha. Isabela, após algumas tentativas, conseguiu envenená-la. A história foi deturpada, acharam que a rainha tinha matado a própria filha por inveja de sua beleza.


Isabela nunca havia mostrado a transformação assim, publicamente, como fizera na live. As poucas pessoas que descobriram a verdade, ao longo dos séculos, foram mortas. Algumas conseguiram matar a criatura, mas não importava o que acontecesse, o monstro sempre era gerado, de novo e de novo, pela terra sangrenta.


A criatura era atraída pelo poder. Ao encontrar as vítimas, engolia seus pedaços e tomava seu lugar. Isso aconteceu com o corpo que Isabela imitava, décadas atrás. Nunca ficara tanto tempo com uma aparência só. Teve que trocar de identidade muitas vezes e se mudar para lugares muito distantes.


Depois de alguns anos, o corpo começava a se decompor e uma nova criatura era gerada para se alimentar da anterior e melhorar a aparência da atual, de acordo com os padrões da época.


O monstro sempre encontrava Isabela. No final, eram um só.


Os internautas pensaram que a live se tratava de uma brincadeira de mau gosto e com efeitos especiais pitorescos.


Isabela estava mais bonita agora, tinha mais fama do que antes, mas os séculos de existência pesavam e aquela forma não a agradava mais.


Depois de alguns anos, os sintomas voltaram a aparecer. Os dedos descamados não mentiam: a nova criatura chegaria em breve e, se não a encontrasse, procuraria outra pessoa com poder econômico e social para lhe tomar o lugar.


Agarrou a primeira garrafa de whisky que viu pela frente, agora sem o olhar de piedade de Marta, e subiu para o telhado do prédio. Bebeu enquanto olhava a cidade. Ela não tinha mais os escritos sagrados, não sabia como parar o ciclo.


Analisou a distância entre o telhado e o chão.


— Foda-se essa merda.


Se jogou.


As pessoas que passavam por ali relataram ter visto o corpo da influencer morta no chão, no entanto, as autoridades encontraram apenas uma gosma de carne apodrecida com barro.


Muitas pessoas voltaram a analisar a live reveladora criando hipóteses.


A criatura nasceu sem saber que rumo tomar. Vagou por algum tempo entre cidades até avistar a nova vítima: um político em ascensão com sede de poder e sangue…


Conheça a autora


Maurylia Loureiro é mineira de Ipatinga. Tendo formado em Letras, seguiu a área como escritora e professora de português numa escola estadual. Também atua auxiliando em TCC`s de universitários desesperados.



Conta um pouco sobre como foi sua entrada no mundo literário?


Eu escrevo desde os oito anos. A infância foi difícil, então a leitura e a escrita se tornaram o meu escape. Mas eu nunca achei que seria publicada em algum lugar, nem sabia da existência de revistas literárias até conhecer A Taverna em 2019.


Fui publicada na revista Literomancia com o conto "Prato principal" e na revista Avessa com o Em verdade vos digo. As antologias que participei são: "Amado Ex" (Editora Psiu), com o conto Piada do Cosmos, que foi selecionado para abrir o livro; "A Sociedade das mulheres elementares" (Editora Corvus), com o conto A Veracidade dos feijões; "Lilith" (Cartola Editora), com o conto Filha de Lilith.


Me conta um pouco sobre o seu processo de escrita?


Eu sempre senti que não tenho escolha quando se trata da escrita. Se passo muito tempo sem escrever, meu cérebro cria um sonho mais louco que o outro e, ao longo das semanas, a situação vai piorando até atrapalhar meu descanso. Em um momento ou outro me vejo obrigada a transformar esses sonhos em contos. Gosto muito do estilo do Douglas Adams, me inspiro nas obras dele sempre que escrevo contos de ficção científica. Já tentei me organizar, estruturar a história antes de começar a escrever de fato, mas isso não funciona pra mim. Funciono melhor no caos.


Poderia falar sobre os autores e obras que corroboram com a sua literatura? E de que forma influenciam a sua escrita?


Douglas Adams foi extremamente importante para mim porque foi com ele que descobri que a leitura e a escrita não precisam ser engessadas e seguir determinado molde. O autor pode inovar, brincar com vários termos, mitologias, criar histórias inusitadas e estranhas, como quiser. Quando sinto que estou escrevendo de um jeito engessado demais, lembro do Adams e passo a me divertir.


Outro autor que me influenciou muito foi o Stephen King, mais pela trajetória que ele percorreu até o lançamento de "Carrie, a estranha" do que pelos livros em si.


E qual foi a sua inspiração para o conto "Skincare"?


Skincare surgiu de um miniconto que escrevi quando as rotinas de cuidado com a pele estouraram nas redes sociais. Apesar de hoje estar sendo um pouco mais debatida a questão da "vida falsa" que muitos influencers ostentam nas redes sociais, sabemos como essa ostentação sem limites pode impactar negativamente a vida das pessoas que consomem esse tipo de conteúdo. As pessoas tentam fazer de tudo para ter o corpo perfeito, o cabelo perfeito, a pele perfeita e se frustram por esses objetivos nunca serem alcançados.


O conto fala exatamente sobre essa ostentação do "perfeito" e a busca pelo poder.


Você consegue trazer um panorama geral das historias que já produziu e apontar elementos e temáticas que costuma trabalhar?


Os meus contos são protagonizados por mulheres, quase sempre LGBTs, e são divididos entre fantasia/ficção científica e terror. Nos contos de fantasia, gosto de brincar com o absurdo com o intuito de causar humor, como no conto "Em verdade vos digo", publicado pela Avessa, em que a personagem descobre que é terráquea porque sente a necessidade de usar ironia e contar mentiras, coisas inexistentes entre os nativos do planeta Verdade.


Já nos contos de terror, busco lendas da minha família ou meus próprios medos para transformar em história. Um exemplo disso é o conto "Prato principal", publicado pela Literomancia. Segundo pessoas da minha família, meu bisavô era um assassino que tinha pacto com o demônio e aterrorizava a pequena cidade onde morava. O conto "Prato principal" foi estruturado sobre essa lenda.


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Entrevista e colagem digital por Filipo Brazilliano

Revisão por Gabriela Marra

Edição por Elisa Fonseca


Se você é escritor(a) e gostaria de ter um conto publicado em nossa revista, envie email para perpetuatendimento@gmail.com



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