Sob o céu estrelado


“Tiveste sede de sangue, e eu de sangue te encho.”

Dante Alighieri



I


Poderoso e perfeito é quando há a união entre dois corações. De igual modo, coisas incríveis podem acontecer quando a arte encontra o caminho intangível da imaginação e se choca com realidades que nem mesmo a mente humana poderia, previamente, conceber. Foi assim, entre esses caminhos imaginativos e nebulosos que já existiam antes mesmo de uma concepção de tempo ter sido criada, que duas coisas se chocaram. A poesia da loucura e a doçura de um animal. Duas imagens distintas, mas que resultaram em uma só coisa.

Incrível e poderoso foi o que surgiu dessa mágica junção.

No entanto, como você bem sabe, coisas incríveis nem sempre são boas, e aquilo que surgiu nas vielas daquele pacífico vilarejo no interior, embora incrível, nada tinha de bom.

Aquela coisa tinha sede de sangue.


II


Pedro perseguia o pequeno Tobby, seu cãozinho, enquanto ouvia sua mãe terminar o demorado jantar. O céu lá fora era de um negro tão profundo e infinito quanto as garras de uma noite sem sonhos, e uma corrente de ar frio, não tão intensa, mas insistente, entrava pela janela acima da pia da cozinha, fazendo com que Maria fosse obrigada a colocar uma ou duas peças de lenha a mais do que o habitual na lareira que ardia na sala de estar. Ela olhava para fora com apreensão, e a cada movimento das árvores que rodeavam a casa, muito provavelmente por conta dos ventos, a fazia pensar que a espera daquele dia chegara ao fim.

As árvores balançaram uma vez mais. E a espera continuou.

— Mamãe? — Pedro falou, puxando-a pela barra da saia — Mamãe?

— Diga, meu amor. O que foi? — ela respondeu, saindo do transe e voltando toda a sua atenção para aquele projeto de gente com voz aguda e sorriso perfeito.

— Que horas o papai volta? Ele prometeu que iria ler comigo essa noite.

Tobby pulava aos pés de Pedro, tentando escalar a sua perna e tateando o ar com as patinhas.

— Não sei, querido, mas acredito que daqui a pouco ele esteja em casa. — Ela fechou a torneira da pia e secou as mãos no pano de prato. Ajoelhou-se para ficar na altura do filho. — Caso ele demore muito, eu também posso ler pra você. O que acha?

Pedro abriu aquele sorriso cheio de dentes de leite e levou uma mão ao queixo. Ergueu as sobrancelhas, como se tentasse analisar a proposta daquela mulher e bateu com o indicador na bochecha. Era o tipo de coisa que ele costumava fazer quando lhe propunham algo que a aceitação era certa. Uma das muitas brincadeiras que o garoto fazia e que Maria jamais descobriria onde é que ele havia aprendido.

— Acho perfeito! — ele disse, pondo fim ao suspense, e saiu correndo pela casa com Tobby em seu encalço.

As árvores se movimentaram novamente. A espera continuou.

Maria terminou o jantar e eles comeram na sala mesmo, com os pés em direção da lareira, permitindo que o calor do fogo os fizesse esquecer um pouco do frio que a ausência do pai deixava naquela casa. Aquela seria a décima vez que ele prometera algo ao filho que não iria cumprir? Talvez a trigésima? Maria já perdera as contas e também não se importava mais. Esperar é uma tarefa angustiante, opressora, faz com que as pessoas percebam o quão vazias são em detrimento da chegada de algo ou alguém. Quanto maior a espera, maior o vazio e até o momento em que a decisão de deixar de esperar seja tomada, um inferno gelado e particular se forma no coração dos pacientes.

Maria não queria viver esse inferno. Ela não esperaria mais.

Ela só precisava convencer Pedro a fazer o mesmo. Ele não merecia isso.

— Filho, posso te perguntar uma coisa?

A mão de Pedro voltou ao queixo e o sorriso retornou aos lábios. Ele podia fazer isso um milhão de vezes num mesmo dia, e Maria ainda iria se quebrar por dentro. Como o garoto era lindo. O seu filho. O seu amor.

Como alguém poderia abandoná-lo?

— Mas essa já não é uma pergunta? Se eu responder que sim e você acabar fazendo outra, serão duas perguntas.

Maria teve vontade de dizer que essa tirada já era velha na época de sua avó, mas antes de responder, guardou as palavras dentro de si. O garoto tinha apenas seis anos, e com exceção dela e do pai, que quase nunca aparecia — em especial após o início às buscas ao ladrão de animais — não tinha contato com mais ninguém. A cidade ficava a 20 quilômetros de distância, e o vizinho mais próximo não tinha filhos. Onde ele poderia ter aprendido isso?

Através da lógica? sua mente sussurrou. Ignorando a voz mental, Maria olhou para Pedro e juntou forças para dizer aquilo que já vinha cogitando há algumas semanas.

— O que acha de nos mudarmos para a…

O som das árvores ficou tão alto que, por um momento, Maria achou que uma tropa de gatos resolvera se reunir e gritar como se suas entranhas estivessem sendo dilaceradas por um cachorro demoníaco. Era um som rasgado, alto, quase ensurdecedor. Ela levantou-se e foi até a janela da sala, enquanto Pedro a olhava com súbito assombro.

— O que foi isso, mamãe? — disse ele, a voz tremendo tanto quanto os galhos secos das árvores lá fora.

Mas não era nada. Com os dedos, Maria afastou as cortinas e olhou para a escuridão impermeável da floresta, apenas para ver uma lua alta no céu e as folhas brilhando com a neblina que caia lentamente sobre as terras. O vento estava ainda mais forte, mas com exceção disso, não havia nada.

Através de uma minúscula fresta da janela, Maria sentiu um vento gelado atravessando para o lado de dentro da casa.

— Uma tempestade se aproxima — disse ela. — Vamos, querido, hora de dormir.

Sem sentir-se muito convencido, o garoto subiu as escadas e foi ao banheiro, enquanto Maria esperava no quarto com um livro repousado no colo. Ouviu o som do garoto tomando banho, assim como ouviu o vento lá fora e ouvia o palpitar de seu coração contra o peito. Ouvia tudo isso e, no entanto, não prestava atenção à nada. A verdadeira tempestade estava em sua mente, e essa, ao que parecia, estava longe de acabar.

Pedro entrou no quarto e deitou-se na cama. Maria leu uma história e ele dormiu.

E a espera continuou.


III


Pouco depois das cinco, Maria foi acordada por sonhos estranhos. Gritos e relinchos ecoavam pelos corredores de sua inconsciência como se os mesmos gatos imaginários tivessem sido, enfim, devorados. Porém, dessa vez, não eram gatos, mas sim, porcos. Não saberia dizer se apenas ouviu ou se acabou vendo o massacre, e após a névoa do sono se dissipar, qualquer resposta se tornava ainda mais vaga, mas Maria tinha a sensação dentro de si de que muito sangue havia sido derramado. Tripas espalhadas. Pele rasgada. Morte e dor.

Suando, ela pulou da cama e abriu a janela. O vento entrou em seu quarto com violência, e quando ouviu uma voz ao seu lado, soprando ao pé do ouvido, Maria achou que iria desmaiar.

— O que foi, amor?

Era ele. Ele havia voltado.

Maria olhou para o marido parado atrás de si e sentiu o ar escapar dos pulmões. Em que momento ele retornara? E como ela não havia percebido? Ele estava bem ali, parado na sua frente, mas ainda não conseguia acreditar. Poderia ser um sonho, certo?

Não, não poderia. Ele estava ali.

— Como entrou? — foi o que ela conseguiu dizer.

Tomasi acendeu uma vela ao lado da cama e pegou a chave de ferro de cima da estante.

— Até onde eu sei, querida, ainda moro aqui,

Ele sorria. Era o tipo de sorriso tão simples e singelo que parecia deslocado em uma noite tão confusa e tempestuosa.

— Cinco dias, Tomasi, cinco dias fora de casa e quando volta, é com essa cara de desentendido? É sério mesmo? Não acha que me deve uma explicação?

— Talvez eu deva — ele disse, o sorriso sumindo. — Mas não seria uma explicação diferente da anterior. E se a anterior não te satisfez, porque diabos agora satisfaria?

— Pelo amor de Deus, Tomasi, me convença.

Ele relaxou os ombros. Sentou-se na cama.

— Foram os porcos da dona Marta. No mês passado foi apenas um, assim como as galinhas do finado Gabriel, mas agora, essa semana, foram os outros cinco. Você tinha que ver, Maria. Era tanto sangue que parecia até mentira. Eu e os outros montamos vigília ao redor da fazenda e esperamos por mais um ataque, talvez contra os cães ou as vacas, mas nada aconteceu. Passamos o resto da semana esperando, até que resolvemos voltar.

— Tá me dizendo que você sumiu porque ficou em vigília com os seus amigos esperando pelo ladrão de animais, é isso?

— Não é um ladrão de animais, Maria, quantas vezes tenho que te dizer isso? Essa porra é um monstro. Que espécie de ladrão é esse que arranca a cabeça de cinco porcos e come até os olhos dos bichos? Uns três quilômetros ao sul do trevo, nós encontramos um deles, e se você visse, com certeza não pensaria se tratar de um ladrão.

Sabendo que se arrependeria da pergunta, Maria disse:

— E o que encontraram?

— O porco estava com a barriga aberta e uma metade do intestino ainda estava lá, o resto foi arrancado à dentadas. O focinho também desapareceu, deixando só um buraco sangrento pra trás. Mas o pior ainda não era isso. Nas costas do animal, onde deveria ficar a coluna, havia um rasgo feito por garras, e toda a coluna foi tirada, assim como desossamos um peixe ou frango. Só sobrou carne, e metade dela foi devorada.

— Meu Deus do céu.

— Já faziam uns três dias que estava lá. E essa é a parte curiosa, porque havia uns cinco milhões de corvos rodeando o corpo do bicho, mas nenhum descia nem pra fuxicar. Era como se eles tivessem… medo do corpo.

— Corvo com medo de carniça. Essa é boa.

— Sim, ria mais, é bem engraçado. — A irritação na voz de Tomasi era evidente, mas Maria não se deixou abalar. — Mas eu sei que o vi, e se quiser, pode ir perguntar pro Cazé que ele vai confirmar. A carcaça ficou lá por três dias e nem um maldito animal carniceiro tocou nela. Ficou lá tomando sol e chuva, e se a gente não tivesse enterrado aquela merda, teria ficado por mais três meses. O corpo estava amaldiçoado!

— Vai dormir, Tomasi, é sério. Aposto que tomou alguma coisa antes de vir pra casa. O cheiro deve estar exalando pela casa.

— Será que você não consegue ter uma conversa sem ao menos levar para o lado pessoal? Estou contando o que aconteceu lá fora, o que aconteceu comigo, o que eu vi. Porque é que você tem que dar um jeito de me ofender?

— Seria uma ofensa, realmente, se não fosse verdade. Você tá fedendo.

Tomasi se levantou e foi direto para o banheiro sentindo um amargor leve no peito. Seria difícil dizer se o amargor veio da bebida que tomara mais cedo com Cazé após aquelas ultimas cinco horas embrenhados na mata em busca da criatura ou das respostas ácidas de Maria. Fosse qual fosse a resposta, ele não estava apto para busca-la naquele momento. Fechou a porta do banheiro e passou pelo espelho sem olhar para ele, indo se banhar. Ao tirar a roupa, de forma rápida, como se estivesse fugindo de algo, tentou evitar olhar para as manchas de sangue que estavam espalhadas pelo corpo, assim como os tufos de mato e pelos de animais. Uma noite na floresta já era o suficiente para tornar um homem em uma espécie de monstro sinistro. Agora, cinco dias, sem banhos ou um lugar para se deitar, eram capazes de desfigurar qualquer ser em algo completamente novo e assustador.

Após o banho, ele deu uma passada rápida pelo quarto de Pedro, esperando ver o garoto acordado. No entanto, após abrir a porta, surpreendeu-se ao ver que ele não estava lá. Olhou para um lado, olhou para o outro, e nada.

Nada. O garoto havia desaparecido.

E então sentiu uma mão em suas costas.

— Papai! Você voltou!

Pedro pulou nos braços do pai em um abraço caloroso e apertado, e embora houvesse amor infinito impresso em seu toque, a única coisa que Tomasi conseguiu sentir foi decepção. Decepção por si mesmo, por suas ausências, por suas escolhas. Ele já não era um homem de muitas qualidades, é verdade, mas no que se tratava de seu papel como pai, evidentemente, ele se tornara uma completa decepção. Não era por isso que, nos últimos dois anos, ele evitara ao máximo vir para casa? Ele achava que sim, e ao sentir o abraço de Pedro, chegava próximo de ter a certeza. Como ele poderia aceitar tanto carinho daquele garoto quando, nas horas vagas, estava enfiando o pau em uma mulher que não era sua esposa? Estava andando de mãos dadas com a filha dela pelos bosques, fazendo piqueniques e vivendo uma vida dupla como se tivesse uma outra família, sabendo que o seu verdadeiro filho estava em casa esperando por sua chegada? Ele não sabia como poderia aceitar aquele carinho, e na realidade, achava que era impossível. Ele simplesmente não era merecedor.

Começou devagar, uma coisa depois a outra, e quando viu, estava afundado na merda sufocando com o sabor do arrependimento que invadia sua alma. Claro que enquanto vivia sua segunda face, não lhe faltavam alegrias, o problema era e, em sua opinião, sempre seria, olhar para Pedro. Essa era uma tarefa impossível.

— Porque demorou tanto, papai? — o garoto disse em sua voz aguda, soando, aos ouvidos de Tomasi, como uma nota solitária de uma melancólica melodia no vazio daquela noite. — A mamãe leu pra mim essa noite, mas não é a mesma coisa.

Tomasi respirou fundo e tentou encontrar forças. Após alguns angustiantes segundos, olhou para o garoto.

— Desculpa, garotão. Desculpa mesmo. Eu estava trabalhando.

— Mas a mamãe disse que você estava na cidade com os guardas. Que estavam procurando por um ladrão de animais.

— A sua mãe te disse isso?

— Disse sim. Ontem à noite, quando pedi pra ela deixar a janela aberta e ela não quis.

Tomasi pegou Pedro pela mão e caminharam juntos até o quarto. O garoto deitou-se na cama e o pai o cobriu com uma coberta surrada. Antes de responder a ele, Tomasi deu uma rápida olhada para a janela. Estava aberta.

— É isso mesmo, garotão, esse é o meu trabalho. Eu e o Cazé nos juntamos à guarda para encontrar esse ladrão. Mas vamos deixar isso de lado, tá bom? Está tarde e você tem que descansar.

Tomasi deu um beijo na testa do filho e foi até a janela para fecha-la. Ao caminhar até ela, sentiu o vento gelado que rugia do lado de fora e o atingia como uma cortina de maus presságios. Antes de tocar nas cortinas, no entanto, a voz de Pedro soou ao seu lado.

— Por favor, pai, por favor, deixa a janela aberta.

Aquilo fora uma suplica. Tomasi não estava preparado para isso. Olhou para o garoto.

— Está frio, filho. Vai pegar um resfriado. E além do mais, o ladrão de animais pode aparecer por aqui, e se ele ver a janela aberta, vai querer entrar em casa e roubar mais do que meros animais.

— Por favor, papai, deixa a janela aberta. O ladrão não vai aparecer. Eu juro. Eu juro.

Ah, meu Deus, só faltava essa, Tomasi pensou, sentindo as paredes daquele beco sem saída fechando-se ao seu redor. Se havia algo que Tomasi não tinha naquela casa era o direito de dizer como o garoto devia ou não dormir. Caso Pedro quisesse dormir com o cachorro em cima da cama, por exemplo, tudo bem. Não poderia dizer nada. Quem era ele, depois de tudo que fizera e que vinha fazendo, para dizer o que era melhor para a criação do garoto? Ele não era ninguém, e com aquela súplica, decidiu que iria ceder aos pedidos e deixar a maldita janela aberta.

— Tá bom, Pedro, mas se sua mãe aparecer… — Levou o indicador em frente dos lábios. — Eu não sei de nada. Esse é o nosso segredinho.

Pedro abriu um sorriso. Tomasi também. Com olhos rápidos e astutos, o garoto viu uma mancha de sangue no pescoço do pai que passara despercebida durante o banho. Ele não disse nada.

Eles tinham muitos segredinhos.


IV


A alguns quilômetros dali, Cazé folheava um livro antigo em companhia de seu bom e velho copo de conhaque. As imagens impressas naquelas folhas amareladas eram tão nítidas que pareciam frutos da própria realidade, mesmo sendo apenas gravuras. A maioria delas mostrava animais mortos das maneiras mais cruéis e sanguinárias possíveis. Membros decepados, olhos arrancados por garras, tripas e órgãos devorados. Até onde a imaginação poderia levar, aquelas imagens poderiam te mostrar.

Mais para o final do livro, as gravuras mudavam para representações de homens. Todos de igual forma.

— Puta que me pariu — ele disse, sem acreditar no que seus olhos estavam vendo. — Eu sabia que já tinha visto isso em algum lugar. — Ele fechou o livro e, evitando olhar para a criatura horrenda em sua capa, suspirou dizendo: — O homem é, realmente, o lobo do homem.


V


O sol nasceu cedo aquele dia, e quando Maria acordou, evitou abrir os olhos. Sabia que se os abrisse, daria de cara com Tomasi, e dentre as coisas e pessoas que tinha vontade de ver, ele com certeza não era uma delas.

Quando os abriu, porém, ela não o viu. Ele já havia saído.

— Claro que o filho da puta saiu. O que você esperava? — ela disse, levantando-se e indo para o banheiro. No caminho, ouviu os passos de Pedro pela casa, seguidos pelo som das patinhas de Tobby o perseguindo. Mais uma manhã normal.

Foi até o banheiro e lavou o rosto o mais rápido que pôde. As rugas ao redor de seus olhos estavam ainda mais fundas, e alguns fios de cabelo branco caiam em frente delas, como se tentassem esconder um dos sinais da velhice usando outro. Para Maria, nada efetivo. Ela ainda parecia velha.

Saindo do banheiro, arrastou-se até a cozinha e começou a preparar o café da manhã. Pela janela, ela conseguia ver Pedro no quintal brincando com o cachorro. O garoto gargalhava a cada queda e pulo que dava em direção do cachorro, e o outro, a cada queda e pulo, latia alegremente, como se aquele fosse o melhor dia de sua vida. E talvez fosse mesmo. Cachorros não possuem lá grandes problemas ou crises de identidade. Ao pensar nisso, Maria descobriu o tamanho do seu próprio problema, já que ao se pegar tendo inveja da porra da vida de um cachorro, isso só podia significar que as coisas não poderiam ficar piores.

Será mesmo? Sua mente acusou e começou a traçar uma lista de coisas que poderiam acontecer capazes de transformar sua vida em um inferno ainda mais horripilante. Não, não pense nisso, não agora. Ela balançou a cabeça de um lado para o outro, tentando mandar para o esquecimento aquelas teias de pensamentos que faziam parte daquilo que sua mãe, no passado, costumava chamar de “mania pessimista”. “Eu não sou pessimista”, Maria respondia nessas ocasiões, e com uma risada abafada, sua mãe costumava concordar dizendo: “É claro que não, minha filha. Você é o otimismo em pessoa”.

Maria fez o café e tomou ali mesmo, encostada na pia olhando para fora. Pensou em chamar Pedro para comer com ela. Porém, ao ver o garoto se divertindo naquela manhã de sol com seu cão, ela decidiu que não teria problema em deixá-lo atrasar o café. Não era todo dia que o sol saia de trás das colinas, e o pequeno merecia um pouco de liberdade às vezes.

Estava pensando nisso quando ouviu o som dos cascos de um cavalo. Da estradinha que levava até a floresta, saiu um homem velho sorridente com uma bolsa nos ombros. Era o carteiro.

— Olha só, Maria, tá vendo esse sol? — ele disse, lhe entregando um maço de papéis enrolados em uma cordinha. Nem ao menos desceu do cavalo. Apenas parou do lado de fora e esticou o braço para dentro através da janela. — Isso daí é um sinal do fim do mundo. É o que eu sempre digo. Sol forte antes do meio do dia em pleno outono só pode ser o fim do mundo. E é por isso que te aconselho: fique longe da floresta. Quando o mundo acabar, vai ser pela natureza que o seu fim vai chegar. Gostou da rima? Pois é, eu já quis ser poeta, mas obviamente não me tornei. Eu precisava aprender a ler antes de mais nada.

— Um analfabeto que entrega cartas. Eu sei que não tenho nada a ver com isso, Sr. Adoniran, mas é irônico, não é?

— Quando chegar na minha idade, querida, vai esquecer dessa merda de ironia e dizer apenas aquilo que seu coração realmente desejar. É o que eu sempre digo. Até mais, filha, se cuida.

Com essa incrível lição de moral, o carteiro voltou por onde veio e foi engolido pelas matas, ignorando o seu próprio conselho de ficar longe da floresta nos dias de calor.

Com um sorriso amarelo no rosto, Maria sentou-se à mesa e desatou o nó que amarrava as cartas. Separou as que continham o emblema do governo (impostos) e aquelas com letras floridas (sua irmã) e preferiu começar por aquelas que… espera, que carta era aquela?

Logo abaixo da pilha, havia uma carta do Cazé, o vizinho mais próximo e o cúmplice de Tomasi, endereçada para seu marido. Pela escrita no envelope e as manchas de bebida, parecia ter sido escrita às pressas. O que não fazia muito sentido. Os dois estavam juntos na noite anterior, e quando Maria viu que Tomasi não estava em casa àquela manhã, imaginou que tivesse ido até a casa dele. O que de tão importante Cazé tinha para dizer que teve de escrever uma carta tão cedo?

Ah, a tal da curiosidade. O nome do destinatário era Tomasi, mas naquele momento, isso não importava em nada para Maria. Ela precisava ler aquela carta.

Com as mãos tremendo por uma súbita ansiedade, ela começou a abrir o envelope. Estava quase tocando o papel quando a porta da cozinha se abriu. Ele chegou.

Maria escondeu a carta nos bolsos e olhou com cara de paisagem para o marido.

— Acho que faz uns dez anos desde a última vez que me olhou com essa cara de surpresa ao chegar — ele disse, indo até a pia e lavando o rosto. — Que calor dos infernos.

— O que esperava? Das ultimas vezes em que saiu, só voltou depois de dias. É claro que estou surpresa.

— Eu sei, eu sei, mas estou aqui, não estou? Fui na mercearia buscar um pouco de leite — ele se sentou à mesa e pegou as cartas. — Alguma coisa em especial por aqui?

— Só imposto pra pagar e a sua cunhada me enchendo o saco. De resto, nada.

Maria tremia como se estivesse nua em um bloco de gelo.

Tomasi ergueu os olhos. As sobrancelhas arqueadas.

— Algum problema, querida?

— Não, nada. Nenhum problema. E você? Algo pra me dizer?

Tomasi encarou a esposa, tentando decifrar o que aquelas palavras e olhar estavam dizendo sob a superfície daquela conversa trivial. Ela parecia saber de algo, não parecia? E mais: ela parecia estar esperando alguma resposta dele. Em todos esses anos de vida dupla, essa era a primeira vez em que Maria sinalizava estar atenta a alguma coisa. Será que ela havia descoberto? Era impossível saber, e ele não estava afim de entrar em assuntos espinhentos tão cedo. Quem sabe em uma outra vida, talvez.

— Não — ele disse. — Também não tenho nada pra dizer.

Ambos mentiram.

E agora, com excreção de Tobby, o cão, todos naquela casa possuíam algum segredinho.

Uma bela família.


VI


Dias de trabalho duro se seguiram após aquela manhã esquisita, e para a surpresa de Maria, o trabalho de Tomasi resumiu-se a cuidar da plantação de milho atrás da casa, assim como alimentar os animais e buscar lenha para a lareira nos fins da tarde. Quando entrava na floresta, nunca ia muito longe, e embora todos soubessem que a melhor lenha não ficava a menos de cinco quilômetros de onde moravam, ele ainda preferia buscar a madeira úmida e inchada daquelas árvores mais próximas. Pedro, por sua vez, lia um livro atrás do outro, sendo esse o seu passatempo preferido. Quando se cansava, brincava com Tobby até se cansar, o que costumava acontecer só depois das 17h00. E Maria, para completar aquele incrível círculo familiar, cozinhava como uma empregada refugiada e limpava a casa mesmo que cada um dos móveis ainda brilhassem com a esfregada anterior. Ela também desenvolveu o hábito de ser a primeira a acordar, fazendo longas caminhadas em frente de casa esperando pelo carteiro.

Ela sabia que o velho Cazé enviaria uma nova carta e como teve que dar um fim a anterior antes mesmo de poder lê-la, ela queria antecipar todas as outras que viessem em seguida.

Para o saboreio do sádico destino, ela realmente conseguiu antecipar a carta que chegou duas semanas depois. No entanto, assim que se sentou à mesa para ler, no silêncio daquela manhã, com todos ainda dormindo, foi surpreendida por Pedro perambulando pela casa em um ataque de sonambulismo. Quando o garoto irrompeu pelo corredor, falando uma série de palavras sem sentido, sua única reação foi a de amassar a carta e escondê-la no bolso.

Mas pelo menos ela ainda tinha a carta! Amassada, é verdade, mas provavelmente legível.

— Há, há, há! — diria o destino.

Pouco depois de ela ter colocado o garoto de volta na cama, Tomasi saiu do quarto e foi até ela, ficando ao seu lado pelo resto do dia, tentando puxar conversas aleatórias e desconfortáveis sobre o clima e a vida — sem graça — que levavam.

Ok, ok, talvez você diga: “ué, mas porque diabos ela não entrou no banheiro, pedindo um segundinho de privacidade, e leu a maldita carta?”

É um belo questionamento, mas vamos dar um pouco de crédito à Maria. Diferente de Tomasi, ela era uma esposa decente, e quando de fato entrou no banheiro e tirou a carta amassada do bolso, seu coração encheu-se de culpa e ela simplesmente rasgou o bilhete e o enfiou fundo na lixeira. Não é o que eu faria, e talvez você também não, mas foi o que ela fez.

Ah, doce Maria, ele havia acabado de plantar a morte, e em breve, iria colher sangue.


VII


Estimava-se que cinco dias era o que os separava da chegada da lua cheia.

Cazé já havia bebido todo o seu estoque de conhaque desde que mandara a primeira carta para Tomasi. Sentado em sua escrivaninha no quarto, ele estava prestes a escrever a terceira. Porém, antes mesmo de pegar a tinta, decidiu que não deveria fazer isso. Se ele realmente queria resolver o problema, deveria ir até lá e conversar com eles. Não poderia deixar a família de Tomasi à mercê de um monstro diabólico como aquele.

Mas você ainda não sabe se é real, ele pensou, pegando o livro de lendas que ganhara de sua avó décadas atrás e folheando suas páginas uma vez mais.

Se não for real, o que você irá perder? Nada, certo?

Certo.

Mas e se fosse? Ele iria entrar na floresta e enfrentar, a cavalo, mais de dez quilômetros de galope sabendo que uma criatura antiga poderia estar bem atrás dele, com sede e fome?

Ainda assim… ele precisava avisá-los. Sentia em seu íntimo que suas cartas não foram lidas. Afinal, não recebera nenhuma resposta. E não se tratava apenas de Tomasi, mas ainda havia o pequeno Pedro e Maria. Mesmo sabendo o risco que enfrentaria, será mesmo que ele os deixaria desavisados com um alvo em suas costas?

(Vamos, Cazé, levante e faça alguma coisa. Você ainda tem alguns dias. Você deve isso, não só ao Tomasi, mas principalmente a Maria e ao Pedro. Lembre-se, você é o cúmplice)

— E isso importa, caramba? cúmplice ou não, eles estão em perigo!

(Todos estamos, Cazé. Todos estamos…)


VIII


Foi na mesma noite em que Cazé decidiu, enfim, montar no cavalo e enfrentar a selva para ir até a casa de Tomasi, que este outro descobriu que não aguentava mais aquela vida.

Os olhares suspeitos de Maria. A forma como caminhava em frente da casa todas as manhãs, até mesmo antes do sol nascer. O tom de sua voz quando lhe respondia alguma pergunta. Tudo apontava para o fato de que ela havia descoberto. A questão era: porque é que ela ainda não havia surtado? Porque ela estava brincando com ele? Tomasi sabia se tratar de um homem ordinário e repugnante. Um péssimo pai e odiável marido. O cara que, se tivesse dinheiro e um vislumbre de oportunidade, teria dado no pé e fugido com Clara para além das colinas em busca de uma vida livre e sem o peso da culpa em suas costas.

Aliás, abandonar o garoto teria, sim, algum peso de culpa. Mas com esse ele já estava acostumado. Já havia aceitado a ideia de que não era merecedor de seu amor. Então, o que ele tinha a perder?

Muito. Caso fugisse agora, dando a Maria a liberdade de não precisar estar ao lado dele pelo resto da vida, ele ainda não teria dinheiro e nem sabia se Clara aceitaria fugir.

Mas não é uma má ideia, é? Ele pensou, já cogitando a hipótese de talvez, só talvez, voltar dali uns doze anos e olhar para o rosto de um Pedro já crescido e com a mente formada o suficiente para entender os motivos de um pai que desaparece da noite para o dia.

Meu Deus, eu sou um porco desgraçado.

Sim, ele era um porco.

E todos esses pensamentos, todas as escolhas e consequências possíveis, passavam pela sua cabeça como um caótico turbilhão interminável. Ele não sabia o que fazer. A verdade era essa. E sentado bem ali, de frente para Maria, na sala de estar, a única coisa que realmente sabia era que aquela vida ele não aguentava mais.

— Quer que eu leia pra você essa noite, querido? — Maria disse para Pedro, que estava sentado no chão com Tobby dormindo em seu colo.

Distante, Pedro não respondeu à pergunta. Permaneceu sentado enquanto acariciava o cachorro nas orelhas. Do lado de fora, a lua alta e redonda, acompanhada de um belo batalhão de estrelas, iluminava a noite como um paciente anjo da morte. Era uma noite fria e silenciosa, assim como tantas outras naquela região.

Mas aquela não era uma noite comum.

E Pedro estava quieto. Ele não havia respondido à pergunta.

— Está tudo bem, querido? – disse Maria. —Não quer ouvir uma história?

Despertando de um sono vigilante, o garoto olhou para a mãe. Os olhos desfocados encontraram os dela, e foi assim que Maria soube que o garoto estava, na verdade, morrendo de sono.

— Acho que não, mamãe.

— Já passou da hora de dormir, garotão. — Tomasi se levantou e foi até ele, sentindo o azedo em sua boca ao olhar para o filho. — Que tal ir se deitar?

Com um aceno, Pedro concordou, e Tomasi ficou agradecido por isso. Não via a hora do garoto ir para o quarto para que ele não precisasse mais olhá-lo. Sua mente já estava barulhenta o suficiente, e estar na presença do garoto só servia para acrescentar mais vozes àquela cacofonia estridente.

Dessa vez, Pedro não precisou pedir para que a janela ficasse aberta. O pai estava tão ansioso por sair do quarto que nem ao menos prestou atenção.

Que erro.

Foi naquela noite, quando os sinos da igreja, a 20 quilômetros dali, soaram doze badaladas, que a eterna espera terminou.

Cazé desceu do cavalo.

Maria sentiu algo em seu coração.

E o monstro apareceu.




IX


O vento forte balançou as árvores com violência. Com o som da tempestade que enfim chegava, foi difícil ouvir as batidas na porta, e ainda assim, Maria já estava de pé indo até ela.

Estava sentindo.

Pouco antes de tocar a maçaneta, no entanto, a porta se abriu, levando as dobradiças ao limite e trazendo um visitante inesperado para aquela casa.

O corpo dilacerado de Cazé tombou para dentro.

Maria deu um grito sufocado, levando as mãos até a boca e olhando com horror para os olhos do homem que rolavam para fora da órbita e caiam no assoalho. O nariz havia sido arrancado com uma mordida funda e poderosa. Metade do crânio também fora quebrado, e apenas a testa havia saído ilesa. Quando caiu de frente, Maria conseguiu ver as costas do homem, e as marcas de quatro garras longas formavam listras na carne estraçalhada e ensanguentada de Cazé. Estava prestes a sair correndo, a olhar para trás, mas algo a manteve congelada naquele ponto. Quase como se um feitiço antigo tivesse sido lançado em suas pernas e subido para o resto do corpo.

Ela soube, naquele momento, que a maldição não possuía distinções.

Um estilhaço. Outro grito.

Tomasi, que estava parado a poucos metros de Maria, absorto com a mesma cena, viu quando o pequeno Pedro atravessou a janela da sala e parou em sua frente. A coluna estava torta em um ângulo impossível, e garras imensas roçavam o chão. As presas saltavam para fora da boca deformada e sangue pingava em jorros de sua boca. Tomasi deu um passo para trás, e o som do estalar dos ossos de Pedro se espalharam pela casa. A coluna, que já estava completamente torta, continuou se entortando, e todas as outras articulações foram pela mesma direção.

Os olhos amarelados encaravam o homem, indicando que embora a dor da transformação fosse insuportável, ainda possuíam todo o conhecimento da mente que estava por trás daquela névoa de fome e ódio.

Havia muito ódio naqueles olhos. Um ódio ancestral.

— Filho? O que… — Maria começou a dizer, mas não prosseguiu.

Os latidos de Tobby invadiram a sala. O cãozinho, com seu instinto de proteção, correu na direção da criatura que, a cada segundo, ficava cada vez maior. E maior…

O monstro pegou o cão com uma só mão e o levou até a boca, arrancando a sua cabeça com uma só mordida. Ele já havia ultrapassado dois metros de altura, e os pelos grossos e acinzentados preenchiam cada centímetro de sua pele. Dessa vez, Tomasi também gritou, sabendo que perdera seu filho no instante em que a lua se revelou por trás das pesadas nuvens do céu. Tentou correr na direção de Maria, mas o monstro jogou o cadáver do cãozinho em seu peito com uma força sobrenatural, fazendo-o cambalear e perder o equilíbrio.

CORRA, MARIA — Tomasi conseguiu dizer, pouco antes de cair.

Mas Maria não correu. Ela acompanhou o olhar da criatura e, embora o medo preenchesse cada uma de suas células, ela ainda queria ver aquilo.

O filho, o seu filho, a criatura monstruosa com focinho alongado e presas afiadas, pulou na direção do seu ainda mais monstruoso pai e, com as garras, abriu um buraco em sua barriga. O sangue quente escorreu por todo o chão, e pela velocidade do ato, a consciência ainda permaneceu no homem que estava prestes a ser devorado.

Ele sentiu cada centímetro de dor.

Pouco antes de enfiar o rosto nas entranhas do pai, o lobo olhou para a mãe. Os pares de olhos se encontraram, e Maria poderia jurar que havia um sorriso naquele rosto. Não no seu, mas no do monstro. Ele uivou, e então, começou a mastigar o pai.

Justiça, Maria pensava, a justiça perversa do universo estava sendo feita. Ela esperou até que a recém amaldiçoada alma de Tomasi fosse entregue ao esquecimento da tortura eterna. Nenhum animal carniceiro visitará esse cadáver, ela pensou.

E esperou ainda mais.

Quando o lobo se cansou do homem destruído no chão da sala de estar, ele olhou para a mãe. Sua mamãe.

Sob aquela noite estrelada, sob a luz de uma lua cheia e de beleza sem precedentes, o lobo e Maria chegaram à uma conclusão em comum.

A fome não tinha fim.


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