Sobre os conceitos de justiça em Watchmen, por Marcos Roberto

Atualizado: Mai 13




Uma criança que lesse Watchmen esperando encontrar lutas infindáveis entre heróis e vilões com poderes impensáveis para a mente de qualquer pessoa que não o roteirista se decepcionaria mortalmente. Tal decepção, contudo, é reflexo da importância daquele quadrinho para a história dessa forma de arte. Para mostrar a forma como o quadrinho impactou seu mundo é necessário abordar um dos aspectos que o tornam revolucionário. Portanto trataremos dos conceitos de justiça abordados na obra.


Só o fato de não haver apenas um conceito de justiça evidencia a novidade trazida por Watchmen. Mas antes, esboçemos em linhas gerais a HQ (história em quadrinho), para que saibamos o contexto a partir do qual esta novidade é desenvolvida.


Watchmen é uma história em quadrinhos roteirizada por Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons cuja importância se assenta na inovação com a qual abordou o tema dos super-heróis. Ela pode ser caracterizada como ficção científica do tipo soft. Há diversos avanços científicos engendrados por uma inovação primeira. A partir disso vários problemas sociais e psicológicos são abordados como centrais na história. A diferença entre Watchmen e outras obras de ficção é que na HQ aquela inovação inicial não é um dispositivo tecnológico, mas sim um humanoide, Jonathan Osterman, vulgo Dr. Manhattan.


Jonathan Osterman, um físico nuclear, trabalhava na base de testes nucleares de Gila Flats quando ficou preso na câmara de testes de separação do campo intrínseco e é desintegrado. O campo intrínseco é uma força que mantêm o corpo de um objeto agregado, como a história deixa a entender. Dois meses depois do acidente, a aparição de um sistema nervoso assusta dois funcionários num banheiro da base de testes. Ainda em novembro um sistema circulatório caminha pela cozinha. No dia 14, um esqueleto com alguns músculos aparece próximo à cerca da entrada da base. No dia 22, ainda de novembro, Jonathan Osterman finalmente consegue se reconstituir, mas ele não é o mesmo de antes.




Jon agora é azul e consegue modificar estruturas moleculares, dentre outras coisas. E como ele surge no período de guerra fria, o governo estadunidense praticamente se apropria dele como uma carta na manga, impedindo, ou ao menos adiando, o apocalipse nuclear. A partir daí Jon é chamado de Dr. Manhattan, em referência ao centro de pesquisas que desenvolveu a bomba atômica. Contudo, o Doutor não atua apenas em assuntos relacionados à corrida nuclear. Como passa a ser chamado de combatente do crime pelo povo, o pentágono o obriga a agir como os vigilantes mascarados presentes na HQ, heróis não super, sem poderes extraordinários.


O sentimento que os humanos têm ao saber da existência desse ser é parecido com aquele que a tecnologia ultrapassada sentiria, se pudesse, ao saber da existência de um dispositivo inovador que desencadearia um progresso em alta velocidade.


No capítulo IV temos um esboço da incompreensão e medo dos reles humanos perante o super ser e o desenvolvimento tecnológico por ele engendrado. Em um diálogo com Janey Slater, que viria a ser sua ex-namorada, ela diz que está com medo :


...porque parece tão estranho. É como se tudo tivesse mudado. Não só você...tudo! Quer dizer, não sei o que você é. Ninguém sabe. Você foi desintegrado e se reconstituiu. Dizem que pode fazer qualquer coisa, Jon... que é igual a deus agora. (MOORE e GIBBONS, 1986, Cap. IV, p.11)


Ainda nesse capítulo temos o Capitão Metrópole respondendo de maneira nervosa à pergunta de como se sentiam os vigilantes a respeito do Manhattan: "Bem, hã...estamos felizes, claro" (MOORE e GIBBONS, 1986, Cap. IV, p.13). E ainda aparece o Hollis Mason surpreendido com a notícia da invenção dos carros elétricos, dada pelo próprio Doutor (MOORE e GIBBONS, 1986, Cap. IV, p. 15). Isso tudo retrata o clima de sufocante incerteza pelo que há de vir, que leva, consequentemente, à dúvida acerca da bondade humana.


A partir desta dúvida, a obra abordará um conceito controverso de justiça. Tratemos, antes deste, do primeiro conceito de justiça presente na obra para que fiquem claras as razões da mudança de concepção.


Esse primeiro conceito é aquele personificado por Hollis Mason, o primeiro coruja. Em sua biografia, ele fala: "Até hoje, nunca parei para pensar por que escolhi justamente esta carreira [de policial], mas suspeito que sejam inúmeros os motivos. O principal foi provavelmente meu avô" (MOORE e GIBBONS, 1986, Cap. I, Sob o Capuz, p.4). Tendo vivido até os doze anos em Montana, ou seja, no campo, sempre ouvia de seu avô, Hollis Wordsworth Mason, como o povo do campo é mais moralmente saudável que o da metrópole "e que as cidades não passavam de fossas sépticas, para onde toda a desonestidade, ganância, luxúria e ateísmo do mundo escorriam e ficavam para apodrecer sem restrição." (MOORE e GIBBONS, 1986, Cap. 1, Sob o Capuz, p.4)


Estas repreensões contra a cidade grande aumentaram quando o pai de Hollis decidiu se mudar para Nova York. Chegando na cidade, contudo, o garoto não notou tanto aquelas características sobre as quais seu avô falava, mas com certeza viu que algo precisava ser feito contra aqueles laivos de imoralidade, e por isso se tornou policial e, posteriormente, um vigilante mascarado.


Já trabalhando como policial, o Jovem Hollis Mason viu alguns garotos lendo a primeira edição da Actions & Comics, justamente a edição na qual o Super-homem aparece pela primeira vez. Pediu para folhear a revista a um garoto e só a devolveu depois de ter lido a história do Super oito vezes. E foi por este herói que Mason se admirou, reacendendo suas fantasias de criança. A pureza que a história transmitia era tudo aquilo que seu avô pensava a respeito do campo, e é essa pureza de justiça e outros preceitos morais que Hollis representa ao atuar como vigilante mascarado. Sendo este o primeiro conceito de justiça abordado na obra, o representado pelo "mocinho".


A 2ª guerra mundial e a guerra fria -contando com o aparecimento do Dr. Manhattan-, contudo, vieram para dirimir a prosperidade no futuro que restava aos estadunidenses, inclusive Hollis Mason, após a 1ª guerra. Com isso os valores morais se desgastaram cada vez mais, e é nesse contexto social que Rorschach surge, um personagem que representa um conceito no mínimo peculiar de justiça.


A seguir será relatada a história de Rorschach quando ele ainda era meramente Walter Kovacs, seu alter ego. A diferença entre eles não é apenas de nome, mas também de caráter. Isto ficará evidente com o decorrer do texto.



Walter Joseph Kovacs era filho de uma prostituta que não saiu do ramo mesmo depois de envelhecer e ter filho. Um dia, quando criança, ele a encontra tendo preliminares sexuais em casa, após acordar pelo barulho feito. O cliente acaba se irritando com a presença da criança e paga cinco dólares à mulher. Ela se irrita e bate em Kovacs. Em outra página, Kovacs, ainda criança, aparece sendo perturbado por dois garotos maiores que chamam sua mãe de puta e amassam uma fruta em seu rosto. O garoto se irrita ao ponto de apagar o cigarro que um dos maiores fumava no olho dele e morder a bochecha do outro. Outros presentes afastam o garoto aos gritos de "Um bicho! Um cachorro louco...!" (MOORE e GIBBONS, 1987, Cap. VI, p.7). O garoto foi internado no orfanato Lar Charlton para Crianças Problemáticas. Ao sair, com dezesseis anos, começou a trabalhar numa indústria de confecção, onde lidava com roupas íntimas femininas, e se constrangia por isso, como fica claro pelo primeiro quadro da página 10 do capítulo VI.



Em 1962, a indústria recebeu uma encomenda de Kitty Genovese, um vestido feito com o novo tecido criado pelo Dr. Manhattan. Ela não o levou para casa, o achou feio. Como ninguém queria comprar o vestido, Kovacs o levou para casa, fez algumas modificações, mas o guardou. Não tinha utilidade. Dois anos depois, Walter lê no jornal "Mulher é morta enquanto vizinhos assistem." A mulher havia sido "Estuprada. Torturada. Morta [...] No lado de fora do próprio prédio. Quase quarenta vizinhos ouviram gritos. Ninguém fez nada. Ninguém chamou a polícia." (MOORE e GIBBONS, 1987, Cap. VI, p.10) A mulher era Kitty Genovese.


Daí, Walter decidiu começar sua atuação como vigilante mascarado, usando partes do vestido de Kitty como máscara, um rosto o qual ele poderia tolerar, segundo o próprio. Não se infere, daí, que Walter havia realmente se transfigurado em Rorschach, apesar de utilizar o nome. Com a utilização da máscara, Walter apenas inicia um processo de afastamento da humanidade, para ele, naturalmente vil. O processo só é finalizado, contudo, em 1975.

Blaire Roche, uma garota de seis anos, sequestrada por conta de uma confusão dos sequestradores. O sobrenome dela era o mesmo que o nome de um laboratório farmacêutico. Os sequestradores acharam que o pai da garota era proprietário do laboratório, mas na verdade era só um motorista de ônibus. A partir de informações arrancadas em meio a gritos, Walter chegou a uma confecção têxtil abandonada. Lá encontrou os seguintes itens: roupa infantil em um forno à lenha, lâminas de corte de carnes grandes, além de uma serra, e dois cachorros disputando um possível fêmur humano. A conclusão à qual o mascarado chegou é óbvia. Em seguida ele matou os cachorros com um cutelo fincado em suas cabeças e, após o atual habitante da casa chegar, o acorrentou ao forno, jogou a serra aos seus pés, espalhou gasolina pela casa e disse "Não tente serrar as algemas. Não vai dar tempo." (MOORE e GIBBONS, 1987, Cap. VI, p.25). Em seguida ele incendiou a casa e ficou assistindo do lado de fora durante uma hora.


Daí em diante Rorschach, não mais Kovacs, passa a agir cada vez mais sozinho, sem a presença de seu antigo parceiro, o novo Coruja, Daniel Dreiberg. Os métodos que passaram a ser utilizados por Rorschach explicam o afastamento entre ambos.

Mas não só esta separação é explicada pelos métodos utilizados de Rorschach. A concepção de justiça representada por Rorschach também é explicada. Qualquer coisa necessária para que o culpado pague por seus crimes será realizada. Por isso os interrogatórios realizados por ele na HQ sempre acabam com alguém machucado. Com isso, ele acredita estar pagando a criminalidade com a mesma moeda. Nem mesmo um mal ocasionado para que um bem maior seja atingido é perdoado.


As suas anotações, contudo, são o que mais explicam a concepção de justiça que ele adota e representa. A mais célebre delas, no início da obra diz :


As ruas são sarjetas dilatadas e essas sarjetas estão cheias de sangue. Quando os bueiros finalmente transbordarem, todos os ratos irão se afogar. A imundície acumulada de todo o sexo e matanças que praticaram vai espumar até suas cinturas e todos os políticos e rameiras olharão para cima, gritando "salve-nos"...e, do alto, eu vou sussurrar: "não." [...] Não me digam que eles não tiveram opção (MOORE e GIBBONS, 1986, Cap. I, p.1)


Rorschach é fruto de uma criação completamente depravada, na qual o contato com a promiscuidade e o egoísmo eram premissas básicas. Tal criação, contudo, produziu um fruto podre, já que era esperado que ele contribuísse para tal promiscuidade e egoísmo. Ao invés disso, ele reage frontalmente, como se estivesse dentro de um carro e o chocasse com outros propositalmente. Sendo assim, para ele, aqueles que erraram também tiveram opção, têm total consciência de seus atos e devem assumir as responsabilidades. No fundo, não é Rorschach quem espanca e mata, são os próprios criminosos que assinam sua sentença ao cometerem o crime.


Percebe-se por meio desta exposição a singularidade de Watchmen. Não se trata de mais uma história de héroi e vilão, mas sim de uma abordagem social bastante profunda que inspira a forma de se fazer quadrinhos até hoje. Disso podemos constatar a validade da atribuição de genialidade a Alan Moore.


Conheça Marcos Roberto


Sergipano, nordestino, brasileiro e comedor de cuscuz. Amante de quadrinhos profundos, mas aficcionado pelos de entretenimento. Escritor que desde sempre repensa a cultura pop e fundador da Pulp Oficial.


@marcos_rsp00

Marcos, vamos começar falando da sua formação?


Claro, eu sou graduado em filosofia pela UFS (universidade federal de sergipe) e mestrando em metafísica pela UnB.


Como começou e como tem sido o seu processo de escrita?


Comecei a escrever justamente por causa da graduação, iniciada em 2014 e por um bom tempo fiquei escrevendo somente os trabalhos e provas da UFS. Até que comecei a cursar umas disciplinas optativas com o meu orientador, em que ele diversificava bastante a bibliografia. Aí, durante uma dessas, um dos textos tratados foi justamente v de vingança. Abordando principalmente o aspecto distópico dele. Isso me deu a abertura pra escrever sobre Watchmen e o texto que vocês têm em mãos é justamente esse. Desde então eu decidi escrever o máximo sobre quadrinhos que eu pudesse nesses trabalhos.


Outro quadrinho sobre o qual escrevi foi o do inferno, também do Alan Moore. Junto a isso, escrevi alguns textos para o Facebook e aí comecei a abordar aspectos mais literários, mas ainda assim inspirado por quadrinhos, principalmente Sandman, sobre o qual tenho um poema e um mini-conto poético.


Quais gêneros literários você prefere escrever?


Então, em termos de literatura acredito que eu não tive muito sucesso ainda, com os textos que já fiz, mas eles sempre têm uma carga muito pessoal envolvida. Não consigo escrever sobre algo que não vivi. Sendo assim, não tenho um gênero específico de preferência, mas comédia e drama é o que mais figuram nesses textos literários.


Os artigos e os ensaios que escrevo para a Pulp são algo com o qual tenho mais facilidade por causa da minha trajetória acadêmica.


Você falou um pouco sobre, comédia drama e quadrinhos. Quais suas referências literárias nesses sentidos?


Acho que "Memórias póstumas de Brás Cubas" é uma das coisas que mais me influenciam a escrever quando decido tratar de drama. Quando se trata de comédia não tenho muita influencia literária, mas de filme, stand-up e séries de humor.


As obras de Jorge Amado tbm influenciam muito quando escrevo algo mais relacionado a nordestinidade. Ele apresenta uma nordestinidade de forma sutil e universalizante, no sentido de que, apesar do local específico no qual se passa a história, são coisas que poderiam e acontecem em qualquer lugar.


Você teve influência de alguém para produzir seus conteúdos?


Na verdade justamente por não ter muito esse tipo de coisa que eu decidi formular a Pulp. Sempre há dois polos quando se abordam quadrinhos: ou você é profundo demais, ao ponto de ser pedante, e limitar bastante seu público ou você produz coisas bem superficiais, na maioria das vezes sendo só um elogio da obra. Eu particularmente tento achar um meio termo nisso tudo. A nossa proposta é justamente tentar apresentar questões mais profundas a respeito da cultura em geral.


Quando exatamente começou a revista?


Então, a Pulp surgiu de uma necessidade de trazer mais profundidade para os textos no Instagram. Antes a página se chamava Philoquadrinhos e era só minha. Eu escrevia os textos quando queria e da forma como queria, nem revisão tinha. Mas o espaço usado era o da legenda, que era bem pouco. O próprio nome limitava muito os temas abordados, pq eu queria escrever sobre filme, música e séries.


O estopim da mudança toda só foi dado quando Weslley, que escreve os textos junto comigo, disse que o nome não tinha tanto apelo junto ao público. Aí eu comecei a imaginar outros nomes, formatos e layouts. Com tudo estabelecido nós seguimos escrevendo textos até que Raphael Pacheco, amigo de colégio meu, falou que queria escrever algo. Ele não conseguiu se sair muito bem e propôs o podcast, o que eu prontamente topei.


Pode nos contar um pouquinho sobre quem está por trás da Pulpoficial?


Bom, nós somos um grupo de quatro pessoas que se revezam nos trabalhos. Eu, Weslley, Raphael Pacheco e Ana Carolina. Eu (Marcos) e Weslley somos os responsáveis pelos textos. Tanto na escrita como na revisão. Pacheco é responsável pela gravação do podcast. Ele elabora o tema e o roteiro e quando possível os outros integrantes participam. Ele também fica responsável pela interação com o público através de stories de indicação de obras. Ana e eu editamos o podcast, a gravação de alguns stories e vídeos


Para finalizar, nos conte sobre os planos para o futuro, como projeto?


Estamos tentando ir para o Youtube e Twitch, que são os principais meios pelos quais a gente acha que pode lucrar. O que mais queremos é viver da Pulp.


O que acharam do Marcos Roberto? Vocês podem acompanhar mais do trabalho dele no @pulpoficial

26 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo