Teletransporte ao infinito, de Bia Chaves



Tudo em excesso é um perigo, já nos diziam desde a infância. Açúcar, fritura, energia, até mesmo curiosidade ou ideias. Coisas que em quantidades razoáveis são consideradas saudáveis e positivas, já quando extrapolam os limites, se tornam um perigo. Não exagere. Modere seus impulsos. Quem nunca teve de escutar algo parecido?


Colagem de Fabiano Sorbara

Eu sempre tive excesso. Excesso de algo que muitas pessoas consideram essencial ao ser humano, à sua formação, e de maneira geral, à sua vida. Esse detalhe, normalmente tão prezado, tem o nome popular de imaginação. Lê-se imaginação, segundo o dicionário, como a faculdade de criar a partir da combinação de ideias; ter criatividade. Em suma, aqueles excessivamente imaginativos têm o dom ímpar de pegar mesmo a imagem mais banal, a situação mais simplória, para fermentá-la e transformá-la em sua mente a fim de que se torne um cenário repleto de magia, arte e novos, e infindáveis, horizontes. E esta é uma habilidade que, modéstia lá longe, eu sempre possuí.


Mas, se possuir tal dom parece tão esplêndido, por que seu excesso seria ruim? Como ter uma mente repleta de potencial criativo poderia ser prejudicial?


E eis, então, que ponho aqui o relato de uma vida vasta de imaginação. Imaginação elevada à sua máxima potência, eu diria. Na infância, a começar, esta era escancarada. Não que tenha diminuído com o tempo, mas é enquanto crianças que temos liberdade para expor nossas características mais incomuns sem sermos duramente julgados; afinal, crianças são feitas para serem crianças e essas invencionices são, muitas vezes, tomadas como infantilidade. Portanto, eu tinha carta branca para criar as mais diversas brincadeiras. Transformar minha escola num mundo encantado. Professores em bruxos com seus caldeirões, porteiros como dragões protegendo o forte. Não havia limites para o que o mundo poderia ser.


Essas brincadeiras muitas vezes atraíam coleguinhas; um aspecto positivo. Mas acontece que nem todo jogo atraía companhia, alguns causavam até estranhamento e exclusão. Para isso, eu tinha de procurar alternativas. Fazia amizade com pássaros, insetos, árvores, e com aa crença inabalável de que eles entendiam e respondiam. Criava amigos imaginários – que criança nunca teve? – e neles encontrava amigos fiéis, que jamais me abandonavam, afinal, eram regidos pela minha mente.


Mas com o tempo isso se tornou insuficiente. Amigos imaginários se transfiguraram em mundos imaginários. Eu fechava os olhos, abandonava a realidade e escapulia para universos infinitos: cidades encantadas, com direito a uma população de criaturas mágicas, alguns parques de diversões que se estendiam mundo afora e um suprimento inesgotável de brincadeiras. E não importava onde eu estivesse, escola, restaurante ou quarto de castigo. Sempre que a realidade se mostrava sufocante — e ela por vezes passava do ponto de perder o ar — eu me refugiava no espaço mais seguro que poderia haver: minha mente. Agora vocês veem onde quero chegar, certo?


“Ah, mas criança é assim mesmo. Quando cresce, passa”.

De fato, ao crescer percebi que já não era mais possível, abertamente, fechar os olhos em meio a uma reunião ou almoço de família e me perder num mundo imaginário. Precisei me adaptar aos mecanismos sociais, ou jamais poderia ingressar na vida adulta. Assim sendo, passei a controlar meus impulsos. Calei as vozes dos pássaros e das árvores. Tentei firmar os pés no mundo real.


(In)felizmente, velhos hábitos são difíceis de largar. E mesmo nos dias presentes, a minha máquina de teletransporte aos meus infinitos mundos particulares segue operando, ainda que de forma mais sutil. São muitas as situações sociais em que ainda não me sinto confortável, muitas as conversas em que não consigo marcar participação. E, com a mente já treinada, descobri que nem preciso do recurso de fechar os olhos, basta deixá-los vagar sem rumo, ou melhor dizendo, rumo a terras distantes. E fico assim, perdida em pensamentos, até que alguém sacuda meu ombro e me traga de volta à realidade.


Não me levem a mal. A imaginação já me levou a lugares incríveis. Pela necessidade de tornar meus mundos e criaturas mais reais, tornei-me escritora, e não há nada que me dê mais satisfação do que botar em palavras tudo o que minha imaginação me presenteia. Como disse logo ao início deste texto, a maioria das coisas, em pequenas doses, é benéfica e pode ser maravilhosa.


Mas ah, o pecado é o excesso. E sei que já perdi muito da vida lá fora enquanto estive ocupada com a vida aqui dentro. Diversões, amizades, até amores. Não enfrentar o que me dá desconforto e buscar refúgio num universo onde tenho pleno controle pode ser diagnosticado como puro orgulho ou medo de arriscar ou medo de errar. E embora minha máquina de teletransporte tenha me levado às mais incríveis aventuras, não há nada como as que podemos viver com os pés fincados no chão.


Mas aos poucos vou me arriscando, me colocando no presente. Como aquela criança que vai nadar pela primeira vez, e para superar o medo da piscina, põe gradativamente os dedinhos, depois o pé, depois as pernas. Em alguns momentos, consigo mergulhar, cair de corpo inteiro em águas profundas. Em outros, sigo sentada na beira. Mas creio que seja isso a vida. Um mergulho de cada vez. Para nós, imaginativos, mais ainda.


E se você sofre do mesmo problema, fica meu conselho. Jamais desligue sua máquina de teletransporte, pois ela é parte intrínseca de nós. Mas tome cuidado ao deixá-la ligada tempo demais. Guarde-a para recarregar algumas vezes. Porque garanto: as aventuras que você viverá no mundo terreno fomentarão ainda mais as histórias que sua mente criativa montará. É o equilíbrio de viver nos dois mundos. Tentar alcançá-lo é ainda um desafio para mim, e suspeito que será para você também. Mas creio que vale a tentativa.


Por isso, depois de me perder nestas palavras, acho que vou dar uma volta por aí. Trocar uma ideia com árvores e pássaros, talvez. Tomar um sorvete e observar o cenário ao meu redor. Lembrar que sou deste mundo, e este mundo me tem. E viver, enfim, a mágica do agora.



Conheça a autora


Bia Chaves é uma autora paraense nascida em 1999, que desde cedo foi fisgada pelas palavras e se descobriu professora e escritora. Desde 2020 começou a tirar seus escritos dos cadernos escondidos e passou a colocá-los no mundo, e já tem publicados dois livros solos, além de ter textos em antologias e revistas. Enfeitiçados é seu terceiro livro solo, e ela espera que ainda hajam muitas histórias por vir.

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Crônica por Beatriz Chaves
Revisão por Elisa Fonseca
Edição por Gabriela C. Marra
Colagem por Fabiano Sorbara

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