Um lugar de outro planeta, por Jennifer Borges

Atualizado: Mai 14



Arrastando sua mala pelo saguão do aeroporto, mantinha uma falsa serenidade quanto continha a vontade de tirar fotos de tudo ao seu redor. Não excedia apenas ao desejo ardente de um café, expresso, forte e amargo, se possível. Suas têmporas soavam o alerta. Para sua surpresa, não houve lugar no aeroporto que vendesse café. Ofereciam chá, leite e outras bebidas que nunca ouvira falar.

Chamou um taxi. A ansiedade bumbava em seu coração e suas veias injetavam sangue de forma descompassada e crescente. Aumentou a vontade de um café delicioso, podia sentir até o cheiro. Assim que chegou ao hotel, num inglês mal falado, solicitou a chave e, de serviço de quarto, café. A recepcionista deu-lhe a pior de todas as notícias: não tinha café! Recebeu a notícia num inglês enferrujado.

— C A F E. — Soletrou. — COFFEE. – Insistia Eleonora. “Que raios de lugar é esse? ”, se perguntava. A mulher a sua frente, com uma expressão aflita, sacudia a cabeça negativamente. E repetia as terríveis palavras, num português enrolado:

— Chá.

Como chá serviria para deixá-la pronta para a reunião mais intensa de sua vida? Era necessário combustível que a mantivesse desperta e ativa. Foco. Manter o foco é primordial. Era preciso representar o projeto da filial do Brasil, pela multinacional, é sua carreira profissional em jogo. Respirou fundo, afinal a recepcionista não era a culpada. A dor aguda não a permitia pensar. Na tentativa de alívio tomou um remédio.

Para manter a clareza de seus pensamentos foi em busca de uma cafeteria. Depois de entrar e sair de alguns lugares, concluiu que não deveria existir este lugar no planeta. Eles não conhecem a fonte de bem-estar. Em sua próxima viagem, não escutará ninguém lhe dizer que café não é um item essencial na mala. Neste instante a abstinência não a permitia raciocinar. Ela estava a ponto de explodir. Temia desconhecer o sabor e cheiro de sua bebida favorita.

Chegando na empresa a acomodaram na sala de reuniões. Colocou o notebook na mesa para conferir os slides, a pauta e os projetos. O intérprete entrou na sala.

— Bom dia! Eleonora Ribeiro? — Perguntou se apresentando de modo formal. — Sou Carlos Alberto Chagas e farei a ponte entre você e o presidente.

— Bom dia, Carlos Alberto, estou averiguando pela última vez. — Sua mão tremia e ao tentar deslizar o dedo pelo mousepad não conseguia clicar nas janelas.

— Você está bem? Parece, bem, parece que está...

— Acabada? — Completou suas palavras. — Transpareceu tanto assim? — Seu olhar perdido confirmou. — Não tem sido fácil. Desde que embarquei do Brasil para cá foram pontes aéreas, pouco descanso e além de tudo, faz mais de um dia que estou sem café.

— Logo imaginei que havia algo de errado.

— Estou sonolenta, sinto uma preguiça que não desgruda de mim, nem com banho de agua fria. Sem falar da dor de cabeça que não há remédio que resolva. Até agora me pergunto que lugar é este que vim parar.

— Calma. Fique tranquila. Quando cheguei aqui, também estranhei, tenho um estoque particular das minhas visitas ao Brasil. Felizmente, a empresa serve café.

Incrédula, com a xicara de café em mãos, observou a fumaça exalando um cheiro que entrava pelas suas narinas e enchia seus pulmões de puro êxtase. Quando Eleonora deu uma golada sentiu-se agradecida por injetar cafeína em suas veias, mesmo que em uma dosagem inferior ao que estava acostumada. Apressou-se em parecer bem, retocou a maquiagem e arrumou o cabelo.

— Carlos Alberto, muito obrigada pelo café. Será que poderia providenciar mais duas xicaras destas? É fundamental para conter a tensão.

O desenrolar da reunião foi excelente. De vez em quando bebericava para ajudar a gravar todas as mudanças que relataria em detalhes. O intérprete ficou impressionado com a atuação segura e convicta, tentou expressar a mesma confiança no idioma local. No final, o presidente pareceu satisfeito com o resultado.

— Parabéns! Acredito que a verei novamente por aqui.

— Nem tão cedo, sr. Chagas. Não me interessa voltar onde nem sabem como viver.

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