Um manifesto pelo Terrormance, por Tatiana Faraújo

Atualizado: Nov 22



Colagem feita por @filipobrazilliano

Não lembro qual foi a primeira vez que li a frase: Toda história de amor é uma história de fantasmas, (every love story is a ghost story) de David Foster Wallace, mas alguma coisa mudou em mim como leitora, como escritora e como pessoa, que já amou e teve o coração partido muitas vezes ao me deparar com esse conceito. Em meu lugar, de fã de terror, sempre me senti mais atraída por histórias que giravam em torno do medo dos personagens acerca do que poderia acontecer com as pessoas amadas. Ainda não eram, exatamente, a fusão de amor e terror que eu procurava, mas serviram como um mapa para que eu soubesse o que procurar.


Quando Invocação do Mal foi lançado em 2013, algo até então indefinível na história me prendeu um pouco mais que as cenas de possessão e a mitologia sobrenatural abordada ali. Só em 2016, quando vi a sequência, foi que entendi o que era que me atraía tanto para aquele universo. Em Invocação do Mal 2 existe uma sequência de acontecimentos que anuncia que o pior pode acontecer com Eddie, assim como Lorraine previu. Conhecemos também o começo da história do casal e como eles se apaixonaram. Era uma história onde o romance precisava do terror e vice versa, já que sem as experiências sobrenaturais eles não teriam criado uma ligação romântica, porque sem isso não entenderíamos de forma tão visceral o medo de Lorraine, quando Eddie se debruça na janela em cima de um galho partido para salvar a garotinha.


Era aquilo que eu procurava: o medo não só de uma criatura escondida nas sombras, mas do que (e de quem) essa criatura pode tirar de nós. Afinal, esse é um medo que sentimos a vida inteira, independente dos fantasmas e demônios que podem puxar o nosso pé durante a noite. Em 2017, A Ghost Story me provocou uma sensação parecida. O filme sobre o fantasma coberto com um lençol que assiste os anos passarem enquanto sua ex-esposa se recupera do luto e o esquece me atingiu como um soco no estômago. Sem o amor, o fantasma não teria vivido tanto tempo naquela casa, esperando pela volta da amada. Sem o medo abordado na forma do luto e no vazio que a perda traz, não existiria o drama em torno dos sentimentos da personagem da Rooney Mara. Não existem elementos assustadores, câmera em jump scare ou maquiagens que causam extrema repulsa, mas eu terminei o filme apavorada de um jeito que poucos filmes de terror conseguiram me deixar. A solidão é desoladora. O esquecimento, mais ainda.


Foram as séries de Mike Flanagan que ilustraram melhor tudo aquilo que eu procurava nesse braço do gênero do terror. A Maldição da Residência Hill sintetizou isso muito bem ao nos contar a história de um homem que teve que desistir da esposa para salvar os filhos. A Maldição da Mansão Bly foi ainda mais clara em seu recado final: amar alguém é aceitar a possibilidade de perdê-lo. Em Missa da Meia-Noite, Mike Flanagan trouxe mais uma faceta da mistura do romance com o terror: o que acontece quando se dá poder sobrenatural para alguém que quer recuperar um amor perdido? O que acontece quando alguém se nega a deixar que o amor siga o curso natural da vida e se parta na hora da morte?


Essas três obras de Mike Flanagan não falam apenas de amor romântico. São histórias sobre família, sobre perda, sobre saúde mental, sobre comunidade, perdão, julgamento, hipocrisia, rancores e sonhos interrompidos. Me fascina, porém, como nenhuma história funcionaria sem aqueles amores, que são o principal combustível das ações dos personagens.


A Maldição da Residência Hill - 2018


A primeira minissérie do universo Haunting, lançada na Netflix, conta a história da família Crain, dos terrores que eles viveram quando moraram numa casa assombrada e das sequelas que todos carregam depois de adultos por causa do suicídio da mãe. Nessa aqui, as figuras principais do romance são os Crain. O casal restaura casas antigas e as revende. Olivia tem uma inclinação para o sobrenatural desde criança e isso é herdado por alguns dos seus filhos. Ao se mudar para a Residência Hill, um casarão assombrado com uma bagagem de muitas mortes, causadas numa família problemática que viveu lá antes, a mulher começa a perder a noção da realidade: se perde em pesadelos, anda sozinha pela casa, perde a noção do tempo e tem dores de cabeça que acabam com o seu humor, prejudicando a sua relação com os filhos. Em dado momento a casa consegue convencê-la a matar os dois filhos mais novos para proteger os gêmeos do futuro terrível que eles terão. Ao perceber o que está acontecendo, Hugh, seu marido, precisa tomar uma decisão rápida. Ele corre para tirar todos os filhos da casa e levá-los para um lugar seguro. Não é uma decisão fácil. Ele sabe que a mulher está emocionalmente descontrolada e que a casa a influencia a fazer coisas estranhas e perigosas. Ele sabe que ela estará em risco se ele sair, mas ele precisa proteger os filhos, então parte. Ao voltar, a encontra morta no pé da escada. A casa fez com que ela se suicidasse. Ele nunca consegue se perdoar por isso. Os filhos, tampouco.


Anos se passam. Steven, o filho mais velho que lembra mais claramente do que aconteceu na mansão, se torna um escritor de horror, onde conta histórias de casas assombradas. A relação entre os irmãos azeda quando ele começa a explorar a história da própria família. Alguns deles acreditam que a mãe era louca. Outros, que herdaram o dom, acreditam que a casa a matou. Nellie vê um fantasma desde criança. Teo sente tudo o que uma pessoa sente ao tocá-la. Luke se torna viciado em drogas depois de uma experiência traumática com um fantasma e Shirley desenvolve uma relação peculiar com a morte quando abre uma casa funerária e passa a trabalhar preparando os mortos para o enterro. Todos eles tem uma assombração presa no pé. Depois de anos, a casa consegue cumprir mais um de seus objetivos e leva Nellie. Seu suicídio obriga a família a trabalhar juntos e enfrentar as feridas que causaram uns nos outros enquanto cresciam para que a casa não consiga matar mais ninguém. Apesar de tudo, no fim, é o sacrifício de Hugh que salva o resto da família. Ele aceita ficar na mansão com a esposa, a filha e os outros fantasmas enquanto os outros escapam.


Embora o amor entre os irmãos e as questões envolvendo a saúde mental dos personagens seja o principal, a história não aconteceria sem o romance de Hugh e Olivia, sem a forma como ele foi interrompido e a busca de Hugh pela reparação do que acredita ser culpa sua na morte da esposa. A dívida que ele acredita ter com ela por tê-la abandonado é o que guia a sua decisão final de morrer pelos filhos. Ele não precisa escapar da mansão pois aquilo que ele sempre quis de volta está ali. Ele só precisa voltar para casa.


Em A Maldição da Residência Hill, Mike Flanagan nos entrega o amor romântico de Olivia e Hugh como uma peça de reconstrução. O relacionamento deles começa estável e se destrói. Depois disso, a jornada de Hugh é de reconstruir a relação com os filhos para se perdoar e, inteiro novamente, voltar para a esposa que deixou na mansão.


A Maldição da Mansão Bly - 2020



A segunda série do universo Haunting conta a história de duas crianças órfãs que sofrem com a morte dos pais e o sumiço da babá a quem eram apegados. A trama começa quando Dani, a nova babá, chega na mansão. Na Mansão Bly temos a trama guiada por dois amores românticos principais. Dani lida com a culpa pela morte do noivo que não amava porque ela, na verdade, ama mulheres. Ao chegar na mansão Bly e se apaixonar por Jamie, a jardineira, Dani entende quem é. Por outro lado, Rebecca, a antiga babá que desapareceu foi na verdade morta enquanto tentava ajudar o homem que amava, Peter, que já havia se tornado um fantasma. Em Bly, Mike Flanagan nos entrega uma história em torno de um amor como uma peça de construção de uma vida. Dani e Jamie escolhem construir um lar juntas mesmo sabendo que o fantasma da mansão Bly atormentará Dani um dia e a levará embora. Enquanto Rebecca, ao não aceitar a morte do amado, tenta ajudá-lo a voltar e morre junto. A jardineira, Jamie, é quem narra a história e no fim passa claramente a mensagem que Flanagan quer trazer: Amar verdadeiramente outra pessoa é aceitar que o trabalho de amá-la vale a dor da sua perda. Faz parte do amor aceitar que aquilo vai acabar um dia, ainda que não de forma infeliz. Os que não aceitam isso se tornam fantasmas, como Rebecca, apegados a um sentimento e uma vida que não existem mais no momento em que ela escapa pelas suas mãos.


Rebecca e Dani tentam construir uma vida com as pessoas que amavam. É disso que parte a trama no começo, com tudo o que se complica na vida das pessoas da Mansão Bly com as ações dos fantasmas e é assim que a trama se encerra. Sem o romance, Peter não teria a chance de assombrar aquela família e causar tudo que causou. Sem o romance, também, Jamie não teria a história para nos contar no fim sobre o que construiu com Dani. E sem o peso da morte sobre os casais a história também não aconteceria.


Missa da Meia-noite - 2021


A mais recente das séries de Flanagan não faz parte do universo de Haunting, mas segue o mesmo estilo adotado pelo cineasta: vários núcleos dramáticos, dilemas humanos e finais de episódios que tiram o fôlego. E é sobre fim que falamos aqui. Em Missa da Meia Noite, o amor de Flanagan é uma peça de destruição. Mas isso é, necessariamente, ruim?


Quem dá o pontapé inicial no caos que acontece na ilha é o padre Paul. Velho e doente, durante uma viagem para Jerusalém, o padre encontra um vampiro que é descrito o tempo inteiro como um anjo. O motivo? Ele dá para o padre a única coisa que ele queria naquele momento: a cura para suas doenças, a sua juventude de volta e, mais importante de tudo, a chance de curar e rejuvenescer Mildred, a mulher que amou há muitos anos e que agora tem alzheimer. De volta à cidade, o padre distribui generosamente a benção do anjo vampiresco e começa a transformar todas aquelas pessoas, mas o seu foco continua sendo apenas um: a mulher que amou e Sarah, a filha que teve com ela. Ao ver o apocalipse que causou na cidade por causa disso, o padre fica horrorizado.


Não há escapatória: a comunidade inteira está a beira da destruição pelo que ele fez para conseguir outra chance com o seu amor. O padre conversa com Mildred e reflete sobre o que foi a sua vida até ali. Preso pelo peso do pecado, Paul não se deu a chance de viver como queria. O ser sobrenatural que aparece para lhe libertar disso lhe causa tal felicidade que ele prefere pensar que a criatura é algo divino para que assim não precise abrir mão da própria santidade e nem do amor que quer viver. É aí que ele erra. Se não fosse por isso, Paul poderia transformar apenas a mulher e a filha e partir. As ações de Paul, no fim, destroem não apenas a cidade inteira, mas também as pessoas que ele mais amava e queria proteger. Sarah sequer é transformada, mas morre com um tiro no peito. Em Missa da Meia Noite, nos deparamos com o poder caótico e destrutivo do sentimento forte, que é um amor reprimido. O amor é o catalisador do fim e, num lugar como a Ilha Crocked, com tantas pessoas preconceituosas e conservadoras, o fim de tudo não seria o melhor? As pessoas tem se afastado daqueles que amam e os julgado até o momento em que percebem que não irão sobreviver ao nascer do sol. A eminência da destruição abre o coração dos moradores e, principalmente, liberta o padre da vida de culpa que levou. O amor é, literalmente, um incêndio final.


Sem a paixão de Paul e a vontade de viver com a sua família, não existiria a necessidade de abraçar o vampirismo e levá-lo para a cidade. E, sem o vampiro e a possibilidade de voltar no tempo para viver eternamente, independente dos custos, Paul não teria a chance de se declarar para Mildred ou de se aproximar, mesmo que muito brevemente, de Sarah.


Enfim, o Terrormance


Filme "A Ghost Story" (2017)

Não faltam formas de se explorar o gênero de terror misturando-o com sexo e romance. Podemos citar o dark romance e o monsterfucking aqui para exemplificar que a mescla dos gêneros não só é possível, como é antiga. Mas eu queria falar, especificamente, da mistura de horror com o drama do amor romântico. Aquelas histórias de amor que são baseadas em como um sentimento pode assombrar para sempre uma pessoa, na vida ou na morte. Histórias onde um gênero não existe sem o outro e que exploram, assim, aqueles medos paralisantes que levamos para o divã da terapia enquanto tentamos lidar com nossos relacionamentos amorosos. Você nunca teve a sensação de que amava alguém que não existe mais? De que o seu amor estava sujeito a mudar com o tempo? Não lembra com carinho de alguém por quem já não está apaixonado? Todos os corações tem fantasmas e talvez essa seja a forma mais bonita de se honrar um amor que já passou ou que vai passar um dia: mantê-lo intocado e congelado na memória, sussurrando durante a noite, aparecendo brevemente atrás de nós em espelhos e puxando nossos pés.



Artigo por Tatiana Faraújo
Edição e revisão por Elisa Fonseca. Arte de vitrine por Filipo Brazilliano
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