Um Pub Indie, por Gale Vangless

Atualizado: Mai 14



Depois de fumar um cigarro resolvi finalmente entrar no pub. Eu não tinha certeza se deveria ter saído de casa naquela noite, mas provavelmente era só a depressão falando, então saí de qualquer forma. É bem difícil achar pub indie por aqui, até porque a cultura indie não é tão apreciada. Costuma ser coisa de adolescente ou jovem com síndrome de vira-lata que fica babando em fotografias de estética impecável que fazem da Europa um paraíso triste e envolvente pra quem vive em um país tropical, e tudo bem. Tenho meus dias de preferir o aconchego frio de um dia chuvoso e um café quente como se vivesse em um seriado de televisão com músicas acústicas com letras tristes tocando ao fundo e foi esse mood que me levou àquele pub.

Depois de pedir uma cerveja e me sentar sozinha ao balcão, parei para observar o ambiente por alguns minutos. As luzes baixas, uma banda desconhecida cantando covers de bandas indies, as pessoas vestidas das formas mais variadas; tinha gente com estilo grunge, gótico “suave”, indie, normal, entre outros. Eu só estava com calças largas de moletom preto extremamente confortáveis porém bonitas o suficiente pra sair usando-as, minha camiseta de manga três quartos com estampa de tatuagem, uma camisa jeans larga e aberta por cima, as mangas dobradas até os cotovelos expondo as tatuagens nos braços e tênis pretos sujos e detonados.

Na segunda long neck eu a vi, sentada sozinha à uma mesa redonda, pequena e alta. Usava tênis vermelhos, tão detonados quanto os meus, uma calça jeans clara de cintura média com a barra enrolada mostrando as canelas, camiseta cinza de mangas curtas com alguma estampa que não entendi, uma camisa xadrez amarrada na cintura, piercing no septo, óculos, cabelos curtos acima dos ombros, ondulados e bagunçados. Nas mãos um drink qualquer e o celular com a tela virada para baixo sobre a mesa. Tatuagens em black work nos braços. Me encantei completamente na mesma hora.

Não tive coragem de ir falar com ela logo de início, obviamente, pois apesar da minha cara de pau, não sei lidar com mulheres que mexem comigo nesse nível, esqueço como respirar, como falar e as pernas falham. Com homem a gente só chega beijando e tá tudo certo, mas com mulher… Mulheres são deusas e eu não sei lidar direito quando uma atinge meu coração. Fiquei um tempão apenas observando-a de longe e tomando minha cerveja enquanto ela curtia as músicas e às vezes parecia cantarolar um ou outro trecho.

Em dado momento, fui ao banheiro feminino, graças às cervejas e quando saí do cubículo em direção às pias, lá estava ela, lavando as mãos e checando o delineado de gatinho. Congelei por alguns milésimos de segundo, mas dificilmente teria uma oportunidade melhor para tentar puxar assunto.

“Adorei seu delineado”, eu disse sorrindo. Me perguntei por alguns segundos se a frase não era hétero demais, mas levando em conta minhas roupas, assumi que estava tudo bem.

“Ah, obrigada”, ela respondeu obviamente envergonhada e surpresa como se mal tivesse percebido minha presença ali até que eu abrisse a boca e talvez realmente não tivesse percebido. “Gostei da sua camiseta”, e apontou para a estampa da minha blusa através do espelho. Sorri e assenti com a cabeça agradecendo.

“Você está sozinha aqui?”, perguntei mesmo sabendo a resposta.

“Sim, e você?”

Eu já não sabia se deveria continuar falando afinal, de duas uma, ou ela era muito tímida ou eu definitivamente a estava incomodando, mas ainda assim era a minha única chance e resolvi ir em frente.

“Estou, sim, às vezes saio sozinha… Faz bem pra alma.”, ela concordou com um sorriso. “De qualquer forma, se quiser me fazer companhia, estou sentada no bar. Seria legal conhecer alguém novo pra variar…”

Para minha surpresa ela assentiu com um sorriso e saímos do banheiro, ela me seguindo. Por todo o caminho até onde eu estava sentada minha cabeça gritava em desespero pois não esperava que ela fosse aceitar e não sabia o que falaria pra puxar assunto. Talvez o ideal fosse começar com o básico, perguntando o nome e evitando o clichê do “você vem sempre aqui?” pra que não soasse como uma cantada ainda que eu estivesse obviamente interessada. Nós nos sentamos nas banquetas e pedi duas cervejas.

“Qual o seu nome?”, perguntei ainda ansiosa.

“As pessoas me chamam de Moe. E o seu?”

“Me chamo Gale”, ela pareceu surpresa ao ouvir meu nome, mas não teceu nenhum comentário.

Para minha surpresa a conversa se estendeu por umas duas horas. Falamos sobre trabalho, faculdade, descobri que temos praticamente a mesma idade. Falamos sobre música, bebida e para minha felicidade, sobre sexualidade. Ela é bi. Eu ainda não sabia se havia algum interesse dela em relação a mim e minha cara de pau estava escondida demais pra que eu começasse com o famoso “flerte de Schrödinger”, então a dúvida talvez demorasse bem mais tempo pra ser sanada.

De repente começou a tocar uma música que eu particularmente adoro e resolvi arriscar chamá-la pra dançar. Pode parecer estranho simplesmente chamar alguém pra dançar num pub, mas por causa das bandas havia pessoas dançando próximas ao palco então pensei “por que não?”.

“Eu amo essa música! Topa dançar comigo?” eu disse me levantando da banqueta. Ela se encolheu um pouco, ao que peguei gentilmente sua mão e olhei em seus olhos com um sorriso pidão. “Vem! Vai ser legal!”, e ela cedeu.

Andamos em direção ao palco, eu a puxando gentilmente pela mão. Começamos a dançar e ela se movia timidamente ao som da música enquanto eu dançava sorrindo para ela na esperança de ela se sentir segura pra se soltar. Aos poucos ela começou a dançar mais solta, com os olhos fechados e como por ação do destino fomos nos aproximando aos poucos. Quando nossos corpos se tocaram ela não se afastou, mas abriu os olhos e me olhou com um leve sorriso ao que entendi como um aval pra me aproximar. Ela estava de costas pra mim e a colei, devagar, em meu corpo, sem parar de dançar. Com minha mão timidamente segurando sua cintura continuamos dançando e nossos corpos estavam sincronizados. Enfim, ela se virou para mim, seu olhar profundo preso em meus olhos de forma que era impossível desviar. Continuamos dançando coladas e minha vontade de beijá-la era absurda naquele momento. Precisava pedir ou enlouqueceria. Aproximei minha boca de sua orelha enquanto tirava mechas de seu cabelo do caminho.

“Posso te beijar?” perguntei. Estava morrendo de medo da resposta, mas quem não arrisca não petisca e era tarde demais para desistir. Afastei um pouco para olhá-la e ela simplesmente me beijou. Eu juro que pude ouvir os fogos estourando à nossa volta. Minha mão a segurou delicadamente pela nuca, acariciando-lhe a pele enquanto ela corria as mãos por minhas costas. A abracei pela cintura e o beijo intensificou na hora; eu estava no céu, definitivamente. Ao fim do beijo não pude evitar olhá-la com aquela cara de criança que acabou de ganhar presente de natal. Minha surpresa e felicidade deviam ser mais do que óbvios pois ela riu pra mim.

Voltamos para o balcão e agora nos beijávamos o tempo todo, alguns selinhos, outros beijos mais demorados entre cervejas, mais beijos quando eu saía pra fumar ou saíamos para ir ao banheiro. Umas duas vezes eu jurava que acabaríamos transando naquele banheiro pela forma como as coisas ficaram intensas.

Eram 4:30 da manhã, por fim, e eu queria levá-la para minha casa. Saímos do pub de mãos dadas e acendi um cigarro na calçada enquanto pegava o celular para chamar um táxi. “Ouvi dizer que eu faço um café da manhã excelente e ainda levo na cama…”, minha cara de pau estava oficialmente de volta. Ela riu.

“E infelizmente eu sou freelancer e tenho um trabalho complicado pra entregar na segunda do qual só fiz metade…”, não pude evitar e fiz bico imitando uma criança triste implorando pra ganhar o que quer. “Mas podemos tomar um café essa semana, se quiser”.

“Poderei te levar pra sair no fim de semana, além do café?” Ela assentiu com um sorriso.

“Aí eu posso provar seu café da manhã…”, e definitivamente aquilo era tudo o que eu precisava ouvir. Beijei-a novamente, com a mesma vontade que a beijei todas as vezes dentro daquele pub.

“Então te vejo essa semana?”

“Nos vemos essa semana!”, dei-lhe um beijo na testa e então meu carro chegou.

“Você vai ficar bem?”, perguntei.

“Sim, moro aqui perto”, ela disse sorrindo. Assenti, beijei-a mais uma vez, e abri a porta do carro.

“Se mudar de ideia sabe onde me achar…”, ela riu e me mandou um beijo com a mão. Fechei a porta e então o motorista deu a partida.

Mal viramos na esquina e chegou uma mensagem dela: “Eu gosto de café preto puro, só pra você saber…”; “Anotado!”, respondi.

Voltei para casa sem conseguir tirar Moe da cabeça. Tinha certeza de que sonharia com ela. Durante o banho tudo no que conseguia pensar era nos beijos que demos naquele banheiro e como eu não sossegaria enquanto não a deixasse completamente louca e exausta ao meu lado. Fui dormir com o gosto de sua boca na minha e marquei na agenda do celular “Escolher cafeteria para levar Moe” com um despertador para segunda de manhã. Ela havia me ganho completamente e eu não tinha mais para onde fugir.


Conheça a autora


Gale Vangless é uma intensa escritora de contos e crônicas. Desde muito nova entrou em contato com grandes autores nacionais e então passou a viver várias vidas através de suas histórias.




Gale, como foi o seu primeiro contato com a literatura?


Fui apresentada à literatura pelo meu pai que me presenteou com uma antologia poética do poeta parnasiano brasileiro Olavo Bilac. Ele me deu o livro quando eu tinha uns 7 anos e aos 9 eu já tinha decorado alguns sonetos. Além disso, meu pai sempre foi um grande fã da literatura brasileira, e me lia muita coisa antes de dormir, principalmente Monteiro Lobato.


O apoio da família é realmente muito importante, imagino que a escrita também tenha sido incentivada como a leitura. Quando você começou, oficialmente, a escrever?


Isso. Foi por conta do meu pai e desse conhecimento trazido por ele que me apaixonei pela escrita e descobri que também poderia escrever. E foi um processo que se desenvolveu naturalmente. Aos 13 anos fiz meu primeiro tumblr. Uma psicóloga na época tinha me dado a ideia de fazer um diário, mas nunca funcionou comigo, sempre preferi me expressar através da poesia e da literatura.


Parece ter sido um processo bastante importante pra você, como foi essa descoberta da escrita? De que forma a literatura te atraiu?


A escrita, para mim, era uma forma de colocar pra fora as coisas que sentia e meus conflitos internos da adolescência. Conforme o tempo foi passando e por causa das aulas de literatura e redação no colégio, comecei a me aventurar em novos formatos de escrita, saindo de textos simples para contos e crônicas e iniciei um livro ficcional totalmente original em parceria com um amigo meu na época. Foi aí que eu descobri que, além de me expressar eu poderia convidar as pessoas à sentir coisas.


Foi aí que a literatura fez raíz em você então. O que ela representa na sua vida hoje, o que sua sua arte representa?


Minha arte é o que me move, pode parecer clichê, mas eu sempre fui uma pessoa intensa e as pessoas raramente entendiam a minha forma de enxergar as situações. Escrever, pra mim, foi a forma que encontrei de despertar nas pessoas sentimentos que elas não conheciam ou que não se permitiam sentir da forma que sinto. Assim como vivo várias vidas através das minhas histórias, quero que quem lê o que escrevo viva essas vidas comigo e se encha de experiências novas que talvez nunca vivamos na vida real.


Quais as escolas e escritores que mais te influenciaram ao longo desses anos de escrita?


Acho que na parte de poemas, Olavo Bilac, Charles Bukowski, Álvares de Azevedo e Alphonsus de Guimaraens. Sempre gostei do ultrarromantismo, da morbidade trágica e da linguagem rebuscada usada por eles. Na parte de literatura ficcional, minhas maiores referências são Veronica Roth e Meg Cabot. Sou apaixonada pelo estilo de escrita de ambas, cresci lendo a série do Diário da Princesa da Meg Cabot e Veronica Roth me apresentou para o mundo das distopias com a trilogia Divergente que foi a cereja do bolo pra que eu tivesse vontade de escrever algo seguindo essa linha.


E você procura seguir algum dos modelos de processo criativo desses escritores? Como é a sua forma de criação?


Meu processo criativo geralmente é uma zona, pra ser bem honesta. Minha inspiração tende a vir mais forte quando conheço e me envolvo com pessoas interessantes. Elas inspiram meus personagens e eu me perco nas cenas possíveis ou prováveis que invento na minha cabeça (nas impossíveis também). Uma das coisas que me ajuda muito é ir pra lugares onde posso observar calmamente o dia a dia de estranhos, como cafeterias. Adoro a ideia de olhar pra alguém e tentar imaginar quem é essa pessoa, de forma bem profunda, só de observar o que ela faz e como se comporta. Quando preciso de um empurrão maior de inspiração, busco por fotos artísticas de interiores de casas, quartos, restaurantes, bares, e tento imaginar cenas que poderiam acontecer ali. Por último, mas não menos importante, tendo a lembrar de forma clara e detalhada dos meus sonhos quando acordo e eles são fontes inigualáveis de ideias novas e originais.


Se você pudesse dar um conselho para quem pretende se aventurar nesse universo literário, o que diria?


Não se cobre perfeição. Uma das maiores vantagens de ser escritor(a) é que podemos usar e abusar da licença poética e é assim que surgem os estilos próprios de narrativa. Não se cobre de ser como seus ídolos por que nem sempre o que você vai realmente gostar de escrever vai ser necessariamente o que você gosta de ler e não tem problema algum nisso. E, por último, tente não entrar em pânico quando se deparar com bloqueio criativo. Quando isso acontece é porque nossa mente está sobrecarregada com alguma coisa, então tire um tempo de autocuidado e seja paciente.


Tem algum projeto futuro? Pretende seguir essa linha de crônicas?


Atualmente tenho como objetivo lançar um compilado de textos e poemas e um segundo de contos e crônicas. Uma vez que tenho personagens específicos e vários tipos de produções voltadas para cada personagem ainda é um mistério pra mim como vou organizar as coletâneas, mas espero lançar pelo menos uma delas nos próximos dois anos, assim como um livro do gênero de distopia que comecei a escrever na quarentena. O que não vai faltar nesse meio tempo é trabalho!


Encontre mais do trabalho de Gale Vangless:


Links:

Instagram: https://instagram.com/gale.vangless

Tumblr: https://galevangless.tumblr.com/



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