Argo e Quiron, por Kelly Hatanaka

Atualizado: Set 30


Colagem feita por Filipo Brazilliano

– Argo para Controle. Responda, Controle.


– Controle na escuta. Prossiga, Argo.


– Nossos radares mostram a rápida aproximação de uma nave, provavelmente hostil.


– Samorianos?


– Não, trata-se de uma nave quântica, um imenso cargueiro. Deve ter vindo de Alfa Centurion. É a estrela mais próxima daqui. Porém, ela vem invadindo nosso espaço e não respondeu a nossas tentativas de contato. Parece se preparar para atacar.


– Nave quântica? Nunca houve um ataque de naves quânticas.


– Sim, eu sei! E, além disso, temos um tratado de paz assinado com todas as estrelas deste quadrante. Eu não entendo…


– Espere! Recebemos notícias de que um fugitivo da rebelião de Quarkon teria roubado uma nave da estrela em que estava aprisionado. Talvez seja ele.


– Neste caso…


– Neste caso ele estará disposto a matar e a morrer. Argo, vocês têm autorização para abater esta nave.


– Entendido.


– E, Argo…


– Sim?


– Boa sorte.


Imediatamente, a comandante Laila passou as ordens para seus cinco tripulantes. Em seguida, ligou o sistema de escudos da nave e foi para seu pod. Ela não queria demonstrar, mas estava animada com a ideia de uma batalha, mesmo que fosse com a missão quase impossível de abater uma nave quântica. Havia muito tempo, desde sua última guerra e, se por um lado temia estar enferrujada, por outro seu corpo ansiava pela adrenalina.


– Delta, Prisma, Gama, Zeta, Lux. Escutam?


– Na escuta, Alfa.


Estavam todos conectados. A porta do Argo se abriu e os seis pods de ataque saíram rápida e silenciosamente.


– Atenção, todos. Tenho contato visual com o alvo. Está a 12.98.


– Confirmado.


– Delta, dê a volta por trás do satélite Lumina e aguarde o sinal. Zeta, você circund… essa não.


– Alfa, de onde vieram estas naves samorianas?


Eram muitas. Pelo menos 60. Claramente hostis.


– Elas estavam dentro da nave quântica. Caímos em uma emboscada.


O Argo vinha recebendo ameaças de naves samorianas há algum tempo. E eles não

entendiam o motivo da hostilidade. Eram uma missão de pesquisa, catalogando e estudando formas de vida em todos os planetas daquele quadrante. Os samorianos, porém, eram um povo altamente beligerante. Qualquer pequeno deslize poderia ser interpretado por eles como um desafio, possibilidade que Laila explorou sem sucesso. Havia também a possibilidade de serem ataques gratuitos, motivados por algum interesse misterioso por parte dos samorianos. De qualquer forma, não esperavam um ataque tão massivo.


A vantagem numérica dos samorianos era gritante. Nada havia a fazer agora, exceto sobreviver. Laila tomou algumas respirações profundas e lentas. O longo treinamento sobrepujando o medo instintivo e ancestral da morte. Quando sentiu seus batimentos cardíacos se normalizarem, falou com firmeza.


– Vamos lá. O nosso plano já era. Temos um novo plano agora.


– Na escuta, Alfa.


– O plano é matar todos que pudermos e não morrer. De acordo?


Laila respirou aliviada ao ouvir as risadas de sua tripulação. O Argo era uma nave de pesquisa. Mas seus tripulantes eram todos velhos combatentes. Laila reconheceu neles a mesma sede que ela mesma tinha de um bom combate. Não havia melhor jeito de morrer.


– Plano excelente, Alfa.


– Senhores, foi uma honra trabalhar com vocês. Agora, vamos nos divertir.


***


A bordo do Quiron, Dra. Nara atualizava suas anotações. Era a única sobrevivente na nave de pesquisa. Felizmente, era uma excelente pilota. Infelizmente, isso não fazia a menor diferença. A nave sofrera avarias consideráveis logo após sair do nosso sistema solar e ser atingida por um minúsculo meteorito, pouco maior que uma pedrinha apropriada para jogar amarelinha. Estava à deriva.


Primeiro, os engenheiros saíram da nave para tentar consertá-la. Morreram todos, numa missão que se revelou muito mais complexa do que poderiam prever. Depois, o comandante, o imediato, os demais membros da equipe, até restar apenas Nara, que também por pouco não perecera.


Agora, sozinha, o conserto da nave saiu do status “missão suicida” para “missão impossível”. Astronautas não gostam da palavra impossível. Eles vivem exatamente de desafiar o impossível. Mas ela teve que se render aos fatos. As conversas com Controle foram longas e exaustivas.


– Controle, aguardo instruções para a nova tentativa.


– Comandante…


– Não sou comandante. – obrigou-se a dominar seus sentimentos. Aquela não era hora.


– Você é a única pessoa a bordo. Toda nave precisa de um comandante. É você. Não temos instruções.


– Como não?


– Não há solução. A morte de seus companheiros mostrou, cada uma delas, pedaços

de diferentes defeitos no sistema de navegação. Não há como consertar todos eles.


– E se consertarmos o problema principal?


Silêncio.


– Controle?


– É um conserto dificílimo, exigiria o uso de peças do aquedutum e ainda assim, com

apenas 1,1% de chance de sucesso.


– Do aquedutum? Mas isso iria acabar com o suprimento de água.


– Sim.


– Eu teria então, 1,1% de chance de poder pilotar a nave, porém não conseguiria chegar viva a lugar nenhum, pois estaria sem água.


Silêncio.


O Quiron era uma nave de pesquisa com destino ao planetóide Y9597. Primeira expedição tripulada para um planeta fora do sistema solar. Um projeto ambicioso, criado em meio à euforia da Grande Paz, o tratado assinado ao final da Última Grande Guerra. Todas as nações se uniram em torno deste projeto. O Quiron era uma nave como jamais vista.


Era perfeitamente autossustentável. Todo o suprimento de ar, água e alimento, bem como o próprio combustível, era produzido pela própria nave. Então, a informação do Controle era basicamente uma escolha, na qual não havia de fato uma escolha: se ela tirasse as peças do aquedutum, sistema da nave que gerava a água, ela teria dirigibilidade, mas morreria de sede. Se ela mantivesse as coisas como estavam, ela continuaria à deriva, porém, viva.


– Controle. E nossas comunicações?


– O sistema de comunicação continua intacto e independente. Continuaria a haver comunicação com a base, conosco.


– E se usássemos o pod? Há alguma peça que poderia nos ajudar? – o pod só poderia mesmo ser usado por suas peças, neste caso. Ele tinha autonomia de apenas três dias.


– Infelizmente não, comandante.


Esta conversa ocorrera há meses. Desde então, o Quiron está à deriva e, junto com ele, Nara. Em todo este tempo, só há escuridão ao seu redor. Ela lembra-se de olhar para o céu, da Terra e pensar em como o espaço era cheio, com tantas estrelas e planetas. Milhões de galáxias, mais do que poderia caber em seus olhos. Mas agora, de perto, de dentro, ele estava vazio e era fácil, muito fácil mesmo, acreditar que ela estava sozinha no universo, boiando em um mar de matéria escura.


É fácil também imaginar que ela esteja se sentindo desesperada, isolada. Mas isto é um erro. Ela está estranhamente confortável em seus pensamentos e em suas memórias, com uma paz e uma clareza intensa. Ela faz entradas diárias em suas anotações de bordo. Ela se alimenta e hidrata equilibradamente. Ela se exercita e espera.


Ela espera e sua esperança é que o acaso a leve até um planeta habitável. Improvável, muito improvável. Tão improvável quanto uma minúscula pedrinha vagando pelo universo entrar num ponto inalcançável do sistema de navegação de uma nave tão grande quanto o Quiron e colocá-la eternamente à deriva.


***


Num pequeno planeta, num canto esquecido da terceira galáxia, uma mulher olha pela janela.


– Onde estão as crianças? – pergunta um homem que acaba de entrar.


– Noite clara, céu aberto. Adivinha.


O homem sorri.


– Brincando sob as estrelas. – e se junta à mulher na grande janela da sala.


As crianças nem desconfiam que os pais gostam de assistir suas brincadeiras. Nas noites de céu estrelado, elas gostam de brincar uma brincadeira só delas, que não faz nenhum sentido. Mas sempre foi assim. Entre elas, aquelas pequenas pessoinhas tão absolutamente diferentes, havia uma conexão única. Enquanto uma era calada e sonhadora, outra era barulhenta, briguenta e cheia de energia. Mesmo assim, eram inseparáveis.


Brincavam assim até tarde, fazendo coisas incoerentes, incompreensíveis, mas que pareciam fazer perfeito sentido para elas, uma imaginação compartilhada que só uma sintonia profunda ou um amor imenso podem engendrar.


Os pais reconheciam nelas universos diferentes. E pensavam que o amor entre as irmãs era uma nave que as conectava naquele multiverso. Em noites como essa, ficavam à janela e deixavam que elas brincassem até um pouco mais tarde. Adiavam ao máximo o momento de chamá-las para dormir. De chegar até a porta e gritar:


– Laila! Nara! Hora de ir pra cama!


Conheça Kelly Hatanaka


Kelly Hatanaka nasceu em Guarulhos e mora em São Paulo com marido e filhos. Kelly é autora de fantasia, ficção científica e terror, e gosta de ambientar suas histórias nos bairros de São Paulo. O último Sangue é sua noveleta mais recente publicada na Amazon.


Autora Kelly Hatanaka (@khatanaka)

Começa contando pra gente sobre os gêneros que você escreve e porque os escolheu?


É engraçado, porque só recentemente eu percebi que eu escrevo muito terror e fantasia. Eu não tinha notado, porque, como escrevo muito microconto, tinha a impressão que eu escrevia crônicas, coisas do cotidiano mesmo. Só que, se eu for olhar meus textos mais longos, é quase só fantasia e terror.


Quais são as temáticas e elementos que vc trabalha nas suas historias?


Quanto à temática e elementos, gosto de trabalhar com lugares que conheço. Então, quase sempre minhas histórias se passam em São Paulo. Gosto de misturar coisas do dia a dia, bem banais, com magia. E gosto de falar sobre as coisas que temos em comum. Sentimentos universais


Quando começou seus primeiros contatos com literatura e quais modalidades de escrita você prática?


Eu sempre gostei de escrever, mas só comecei a me dedicar a produzir alguma coisa mesmo há uns 5 anos, nos desafios do Sweek. Fui finalista algumas vezes e o bichinho me mordeu. Desde então, venho participando de antologias, concursos e desafios diversos.


Kelly, você citou microconto, queria saber quanto é sua relação com esse formato?


Escrevo microcontos quase diariamente (nas ultimas semanas, falhei... rs). Escrevo contos, já escrevi poesia, mas reconheço que não é muito a minha praia. E, ultimamente, ando me aventurando em formatos mais longos.


Quais os seus livros preferidos, Kelly? Você tem eles como referência para as suas criações? Usa de algumas fontes para se inspirar? Dentro dessa lista de referências, vou pedir que você destaque um ou dois autores e aponte como eles influenciam suas narrativas.


Livros preferidos, nossa, lá vai! Gosto de séries: "Game of Thrones", "Guia do Mochileiro das Galáxias", "Senhor dos Anéis", "Millennium". Gosto de "Cem Anos de Solidão" e de "O Barão nas Árvores". Meu escritor favorito, é P.G. Wodehouse, que é também uma inspiração, além das coisas do dia a dia.


Eu gosto muito do jeito como George Martin divide suas histórias e coloca foco no personagem, o que faz com que você viaje por olhares diferentes. E gosto da forma como Gabriel Garcia Marques coloca poesia nos textos. Tento fazer isso, até para quebrar um clima muito pesado na narrativa.


O que você pode nos contar sobre sua concepção do conto Argo e Quiron? Como foi seu processo de criação?


Escrevi Argo e Quiron num desafio da Rocket. Eu quis fugir da ficção científica clássica e fui para uma brincadeira de criança. Pensei em duas irmãs muito diferentes, mas que adorassem brincar juntas e na forma como as crianças conseguem juntar os mundinhos delas numa boa. Quis, também, subverter as expectativas do leitor.


Como você constrói seus personagens? O que gosta de abordar neles?


Gosto de tratar das motivações dos personagens. Para dar colorido, penso em um monte de detalhes que depois, nem aparecem no texto, mas o que está na frente, pra mim, são as motivações, mais do que as ações. E muito disso aí vem do teatro, que foi o que desbloqueou a escrita na minha vida... A coisa toda nasce do personagem.


A Laila de "Argo e Quiron", por exemplo, é a imaginação de uma menina intrépida. Então, a ideia era de uma batalha espacial, tipo Star Wars. Daí, ela precisava correr perigo e ela tinha que gostar do perigo. Quando ela informa a equipe que caíram numa cilada, é o fim, mas ela vai se divertir pela ultima vez com seus companheiros. Bem diferente de Nara, a irmã introspectiva.


Além de literatura vc tem envolvimento com teatro? Conta sobre isso. Você é atriz? A sua literatura tem relação com o teatro de que formas?


Durante muito tempo só escrevia para mim, porque não achava nada bom. O teatro entrou na minha vida dentro de um processo terapêutico, para lidar com angústias e ansiedades. E fez muito mais do que isso. Os exercícios do teatro desbloquearam a escrita e, muitas vezes, são uma inspiração. Não sou atriz profissional, sou uma amadora bem intencionada. A literatura e o teatro se retroalimentam. O teatro inspira a escrita e a escrita inspira o teatro.


Você tem outras obras publicadas e por quais editoras? Já participou de antologias?


Eu tenho contos publicados em dois livros do Sweek, um deles em inglês. Tenho dois contos na antologia Pequenos Contos Grandes Histórias, da Editora Gráfica Heliópolis, mais um conto na antologia Abyssal, da Lura Editorial. Também lancei de forma independente uma mini coletânea com 30 contos e, mais recentemente, minha noveleta, o último Sangue.


Fale sobre seus projetos futuros


Eu tenho uma noveleta de terror publicada na Amazon chamada O Último Sangue. É a história de uma casa amaldiçoada, na Vila Mariana. Fala de como a maldição surgiu e de como ela acabou e mostra o que acontece com suas vítimas. E estou trabalhando em outra que vai falar sobre ancestralidade. Não pretendo falar sobre a imigração japonesa em si, mas sim da bagagem que a gente traz das experiências do clã, coisas meio atávicas que nos acompanham desde sempre sem que a gente perceba.




Conto por Kelly Hatanaka

Revisão por Elisa Fonseca