O que esperar

Por: Breno Valentino

@gotafli

Tentarei escrever, NOVAMENTE, esse ensaio-crônica-carta-reclame-DESPEDIDA — tentei descrever tanta coisa de uma só vez que o computador não aguentou e apagou três parágrafos de verborreia. Mas, enfim, o que nos resta? Acho que — muita — pouca coisa, iremos devagar para que os problemas técnicos não voltem a ocorrer. Na verdade, essa não foi a minha primeira tentativa de escrita desse texto — estou falando da falida tentativa anterior, a falta de fluxo foi substituída por um discurso sem sentido — desta outra, última, vez, não consegui ter fluxo mental fixo para digitar isso que você está lendo. Agora, irei conseguir desenvolver e te distrair com qualquer outra coisa caótica-louca e cheia de narrativas, em tantos tempos distintos que, às vezes, me faz pensar em como sou capaz de tanta loucura de uma vez só.


Há um problema no que eu disse anteriormente, mais exatamente em: “irei conseguir desenvolver e te distrair”. Quem quer escrever e diz que escreve para alguém ler está mentindo — não disse isso, mas isso estava implícito. Um escritor, cronista, ensaísta, romancista — e todos os “istas” possíveis — escreve para si mesmo. Escreve porque tem algo dentro — não é no coração, lá só tem sangue, músculo, gordura e nicotina — que não aceita ficar guardado. Então, se você está lendo, faça-me um favor: apague o “agora, irei conseguir desenvolver e te distrair com qualquer outra coisa...”. Essa oração não faz sentido para VOCÊ, muito menos para MIM.


Essa será a última coisa que escreverei em 2020 — caso não pegue covid e morra —, outras coisas virão em 2021. Sim, isso é possível — espero não ser necessário te convencer. Daqui a quatro dias comemoram o natal. Não costumo gostar dessa época de festa de fim de ano, prefiro beber até dar sono e ir dormir. No mundo já morreram quase dois milhões de pessoas — leiam direito, não são milhos grandes, esse número é o suficiente para assustar qualquer um e não é hora de piada. Vivemos em uma época de repensar as distopias, e a única coisa que nos resta é sermos utópicos — será? Não sei, como diria Sócrates: “só sei que nada sei” — ai ai, como essa frase é problemática, quase um paradoxo, mas deixemos de lado esse grego-velho-chato e vamos para o que parece nos interessar. Por isso, reservarei para essa despedida de ano uma seriedade incomum — não por ser o último, mas porque a ocasião exige sobriedade.


Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto nos portais, um homem que veio vestir o cadáver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, essa, tocheiros, convites, convidados que entram. Lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão à família, alguns tristes, todos sérios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d’água-benta, o fechar do caixão a prego e martelo, seis pessoas que tomam da casa e o levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lágrimas da família, e vão até o coche fúnebre, e o colocam em cima e transpassam e apertam as correias, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um... Isto que parece um simples inventário eram notas que eu havia tomado para um capítulo triste e vulgar que não escrevo.

— Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.


Não temos a opção de não falar sobre a morte e sobre a tristeza — na verdade poucas pessoas estão tristes, e a morte já foi vulgarizada. Se a literatura trata de uma transformação do real em arte, como negar também esse lado da vida — que nada mais é que a morte? Como algo que todos sabemos que vai ocorrer pode nos assustar de uma maneira avassaladora? Tenho a sensação de que vivemos a cada instante em uma transformação tão profunda, pois não é interior, mas de degradação. Até certo ponto da vida estamos nos fortalecendo — como o corredor que pega impulso ao descer uma ladeira — só que essa é apenas uma parte da vida, o início. Não sabemos como fomos parar no topo dessa ladeira e porque está sendo tão fácil descer, até que encontramos outra ladeira — da degradação — e percebemos que tudo o que vivemos anteriormente não passou de um sonho. Há dificuldade em cada passo, os músculos atrofiando-se pelo esforço. Ao nosso lado vemos pessoas em iguais situações, mas também há pessoas em melhores e piores estados; entretanto, tanto faz, o fim é o mesmo. Como entender essa angústia de que viver é preparar-se para a morte?


Acredito que é justamente essa angústia quem impede que o escritor defunto escreva um capítulo sobre a morte em suas memórias. Mas, o que de fato ela é? Não sei — no passado conseguiria descrevê-la, sentia seu odor, mas, hoje, agora, não consigo senti-la o suficiente para te explicar como ela chegava à porta do meu quarto, à cabeceira de minha cama e me dizia todo tipo de perversidades; prefiro deixá-la em paz. Se um dia voltar a encontrá-la, prometo que descreverei para as pessoas que dificilmente entrarão em contato com esse assombro — que tomam tantas formas a ponto de várias pessoas a sentirem de formas tão diversas que nenhuma angústia é semelhante a que eu senti e a que possivelmente um dia sentirei.


Há outro momento da obra em que o defunto não consegue escrever sobre a morte, essa passagem é muito mais próxima à situação mundial de pandemia. Para quem não sabe da história, houve um surto de Febre amarela no Rio de Janeiro no século XIX, e, Brás Cubas narra sua história justamente nesse período. Por que não destaquei esse trecho da obra? Vocês sabem, o ser humano é dotado de imensas faculdades, uma delas é a falta de coragem — também conhecida como preguiça. Fui impedido de procurar por essa medonha companheira, mas, o efeito que queria passar era esse mesmo — já estamos todos lascados, não será por preguiça, em momento de calamidade mundial, que sei mandado direto ao colo do capeta!


Onze dias no hospital, seu corpo já não reage a muitos estímulos. Ao seu lado a filha mais nova, justamente a mesma mulher que acompanhou o desenvolvimento da doença durante 10 anos; ela assistiu a degradação de uma doença neurológica sem cura — viu a mãe ir embora aos poucos. No mundo exterior, fora dos portões do hospital, acontecia o segundo turno das eleições municipais. Suas mentes vivem alheias ao presente, estão sendo unicamente impelidas ao futuro (uma entidade enigmática: muitos desconhecem o que de fato ela é, outros acham que a dominam); o tempo — com suas variantes: a dor do passado, as experiências do presente e a monstruosidade do futuro — apenas as carregam, sem ter “tempo” de prepará-las para o que de fato irá acontecer. No dia seguinte chegou a tão esperada alta. Em casa começa outra jornada, a mulher — que cuida do corpo que está se segurando ao fio da vida — sente seu próprio corpo mostrar sinais de cansaço. Sabe que seu estado mental não vai aguentar outra jornada semelhante à anterior. O sofrimento aumenta ao assistir a velha tossir, espirar e ter crises de falta de ar. Em seu próprio corpo, chegaram os sinais de estafa. Outros dias anunciaram sua aproximação, e com eles a última internação. Em uma ambulância a mulher olha para a sua mãe, sente que ali está a sua única amiga; era a pessoa para quem contava as dores vividas. Enquanto isso, o hospital, que fica a 90km de casa, se prepara para recebê-la — mais um hospital de campanha em meio a uma pandemia global. “Não há mais nada que possamos fazer, a não ser rezar”, pensou a filha assim que desceu do carro e entrou no hospital; olhou de longe a sua mãe ser levada à UTI, e essa foi a última vez que a viu. “Provavelmente são sinais do tempo e do mal de Alzheimer”, diz a médica. Dias depois: “saiu o resultado, ela está com COVID. Todos que moram com ela devem ficar em quarentena”. No dia seguinte, “ela teve uma melhora, disse o nome e onde mora”. À noite desse mesmo dia “ela piorou, teve que ir para o respirador mecânico”. Finalmente, após 84 anos de sofrimento — morte de filhos recém-nascidos, alcoolismo do marido, tramas familiares para roubar sua única casa, filho sendo internado no hospício e por fim o sofrimento de sua filha mais nova (a única que cuidou dela) — o cárcere da alma, que é o corpo, falhou pela última vez e sua alma foi liberta. De casa, sua única companheira — que esteve ao seu lado não unicamente nos últimos 10 anos de doença, mas desde seu nascimento — recebe a notícia: uma borboleta entra em seu quarto, anuncia que aquela alma não sofrerá conjuntamente com aquele corpo envelhecido. O corpo que sofreu foi para um saco, em outra cidade, dois carros estão a caminho da rodovia. Um dos filhos liga para o plano funerário... o corpo já foi parar no necrotério do hospital, aguardam os parentes chegar. O caixão foi lacrado e levado ao carro funerário. O cemitério é pequeno, familiar, fica em uma zona rural. A manhã daquele dia foi de preparo para esse momento, os velhos rezavam e os mais jovens preparavam o local em que uma tia distante seria enterrada. O sofrimento da filha anda não teve fim, seu corpo ainda não entendeu que aquela velha conhecida jornada teve fim, 83km separam grandes companheiras que nessa vida não mais se encontrarão.


Ao ler Guerra e Paz fui invadido por muitas sensações, entre elas, a certeza de que a literatura Russa consegue transpassar algo que há de fato no espírito humano. Esse é o elemento grita a ponto de gerar certo incômodo — é de uma profunda interpretação psicológica do “sujeito” que nós representamos; não compreendo como alguém pode dizer que não se interessa por esses caras. O que mais me impressiona é a possibilidade de analogia cabível à descrição daquela época, e daquela nação, ao que enfrentamos no Brasil. Há ali algo que grita em cada palavra, página e personagem.


Não estou interessado em contar a história desse livro para vocês, mas algo precisa ser exposto para você que está lendo não ficar boiando: a obra retrata a Rússia nos anos de guerra contra a França (mais exatamente contra o império napoleônico). O autor se fixa em destacar certas personagens da alta sociedade moscovita e petersburguesa, e as partes mais importantes são suas reações frente à desgraça iminente — Napoleão invade Moscou, logo após a cidade arde em chamas. Misturado a um relato ficcional, ele produz uma crítica aos historiadores e produz uma filosofia da história sem precedentes. Certa altura da obra Tolstói afirma que os historiadores se enganam ao interpretar um tempo histórico buscando traçar os passos de um personagem histórico, pois, na série de causalidade há muitos outros traços importantes a serem levados em conta. Esses pequenos passos são demarcados por pessoas simples, mas que conjuntamente com o restante da população determinam a marcha dos eventos que marcam a história da humanidade.


Não sei se a revista gostaria de uma crítica política para a publicação desse mês, entretanto, sei que parece que o que farei é exatamente isso — não é? Existe alguma coisa acontecendo — na verdade já aconteceu, ela vinha se arrastando nos governos anteriores. Acredito que estou profundamente errado, não surgiu nos governos anteriores, tudo começou com a primeira vila “brasileira” — de São Vicente. Desde esse ponto impregnou-se no que chamamos hoje de cidadão brasileiro o instinto de vira-lata, mas também certa indiferença frente ao coletivo.

Tolstói explica isso muito bem, quando um indivíduo vive sozinho ele consegue ponderar suas ações; quando ele não consegue essa solidão e tende a viver em sociedade, abre-se diante dele uma despreocupação com o futuro sem tamanho. Foi isso que aconteceu na Rússia, enquanto Moscou queimava, em Petersburgo as pessoas iam a bailes, passeavam e viviam como se nada estivesse acontecendo. No Brasil ocorre algo diferente, entretanto, a possibilidade de analogia mantém-se. Enquanto uma casa queima o vizinho aproveita para fazer churrasco — percebam, o incêndio é unicamente uma figura de linguagem; vivemos em uma época pandêmica. Devido a uma incapacidade de viver isolados, abraçamos a indiferença frente ao possível sofrimento próprio e alheio em prol do divertimento.


O que nos resta? O que esperar? Eis a pergunta de um milhão de reais: — como diria o Silvio Santos. Já Saramago diria outra coisa — não lembro em qual parte do livro — vivemos em uma sociedade de cegos, nós não cegamos, já estávamos nessa condição muito antes disso acontecer. Retornamos à pergunta anterior — O que esperar?


Parece que alguém deve tomar para si a responsabilidade de guiar a “comunidade” para seu melhoramento, mas quem? Não há páginas suficientes para responder às perguntas que surgirão. Nas famigeradas redes sociais, várias áreas do conhecimento assumindo a responsabilidade de dar uma resposta que nos guie para a saída da calamidade — quero que fique claro: não estou aqui para refazer seus passos e reinvidicar a solução aos nossos problemas.


Resta-nos em temos distópicos sermos utópicos. Sejamos estoicos, não temos como mudar a situação política, então, devemos viver à parte, construir jardins e conversar sobre coisas que não nos perturbe. — Eu sei, essa saída estoica é uma merda. Quando Sócrates foi condenado à morte, Platão construiu sua utopia; chama-se A república. Em outra época, quando descobriram que as verdades do mundo medieval — a terra e plana e etc — eram falsidades defendidas pela igreja, Francis Bacon escreveu a Nova Atlântida. Muito tempo depois, quando George Orwell percebeu a merda que os regimes totalitários estavam querendo fazer durante a segunda guerra mundial, ele escreveu 1984. Por fim — mas não o último —, quando Aldous Huxley notou os perigos do consumismo, foi escrito o Admirável Mundo novo. Mas, aqui no Brasil, enquanto criam-se vacinas pelo mundo e o governo nos deixa morrer — gastando milhões em leite condensado —, não sabemos ao certo o que estamos fazendo. Ficamos tão alheios à realidade que somos impossibilitados de dar uma resposta concreta, literária, cientifica e política aos acontecimentos que nos circulam.


No fundo somos a maior nação de estoicos que Epicuro jamais seria capaz de imaginar!


Pois é, caro leitor, eis o que os acontecimentos passados deixaram reservados para nós! Agora, o futuro não passará de uma promessa troncha — como diz o velho ditado: “nada é tão ruim que não possa piorar” —, ora, não sabemos o que de fatos nos aguarda, entretanto, teremos que suportá-lo...


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